Parte I
Não sabia o que se passava com ela.
Loucura não devia ser, porque os loucos não questionam
coisa alguma, muito menos a sua própria loucura. Mas que estava diferente,
estava! Desde o momento em que deixara definitivamente a Repartição das
Finanças onde derretera, das nove às cinco, os últimos 35 anos da sua
existência (se assim se pode chamar), algum fenómeno acontecera dentro de si e
Marta andava insistentemente à procura de lhe dar um nome, sem sucesso.
O certo é que as pulsões que sentia nada tinham a ver
com o seu passado que menos de meia dúzia de palavras descreviam: trabalho,
solidão, desalento, rotina, monotonia.
A mesma casa, as mesmas
ruas, os mesmos pratos do dia na tasca da Srª Maria (repetidos infinitamente: à
segunda bacalhau, à terça bife, etc.); fins-de-semana iguais: sábados de
limpezas, domingos de missa e televisão; férias na terra em casa dos tios a
ouvir contar as histórias de sucesso dos primos que arriscaram pelo mundo fora.
Enfim … uma vida plana e ressequida.
Na primeira manhã em que acordou aposentada, Marta
sentiu um fogo na boca do estômago que não era, seguramente, de causa
digestiva.
- Isto é que deve ser alegria! - pensou para consigo .
Saltou da cama, abriu a
janela do quarto, inspirou em golfadas o ar de Março, e tomou uma decisão:
Começaria pela sala!
Correu à drogaria do Sr. Antunes, ali mesmo à esquina
onde todos os dias abrandava o passo para se deixar inebriar com o cheiro
intenso da creolina, e comprou uma lata de 5 litros de tinta vermelha.
Correu para casa com o seu tesouro.
Arrastou todos os móveis
para o centro da divisão.
Acendeu o rádio e rodou o botão do som até ao limite.
Despiu-se.
Mergulhou as suas mãos na tinta espessa e esbofeteou as
paredes da sala que sem um gemido se deixaram manchar pela cor ganhando vida.
Depois, admirando a sua obra colorida, rodopiou
vertiginosamente ao som da música até
cair exausta de felicidade.
Em todo o prédio se ouvia Freddie Mercury gritar “We
are the champions” .
Se o Sr. Pereira, o
administrador do condomínio, a viesse maçar incomodado com a quebra do silêncio
a que durante décadas o habituara, desceria na calada da noite à garagem e
furar-lhe-ia, um a um, todos os pneus do seu Peugeot antigo que mimava mais do
que aos próprios filhos.
Uffff -
suspirou- aquele sim, era realmente o primeiro dia do resto da sua vida .
PARTE II
Deitada de costas no tapete no meio da sala, Marta
sorria feliz. Olhava para a sua obra. Obra de arte, aberrante ou simplesmente
uma borrada sem sentido. Não interessava, gostara de fazer aquilo, nem que
tivesse de pintar tudo de novo, talvez,
uma pintura ainda mais estapafúrdia.
Levantou-se com o corpo pintalgado de vermelho. Vestiu
um robe. Foi à cozinha e fez um café. No balcão estava a sua carteira. Abriu-a
e tirou o bilhete de identidade, e leu – Data de nascimento- 1 de fevereiro de
1949... tinha feito 63 anos.
Uma pergunta veio-lhe ao pensamento: Se este é o
primeiro dia do resto da minha vida, quando tempo tenho para viver? Porque o
que fiz até agora foi vegetar.
Como uma condenada à morte fez questão de fazer uma
lista de coisas que gostava de fazer, e que nunca tivera oportunidade de o ter
feito, antes do Criador a chamar à sua presença. Pegou no seu moleskine e foi apontando: Viajar
(Paris, Londres, Veneza, Roma,etc), saltar de para quedas, andar de balão,
fazer rafting, esquiar, fazer caminhadas pela montanha, campismo, snowboard, ir
à festa das flores a Campo Maior, fazer SPA num aldeamento no Algarve, ir a
discotecas mais in existentes, ir ao
carnaval ao Rio e correr no calçadão, dançar o tango em Buenos Aires, passar o
fim de ano em Times Square, divertir-se em Las Vegas...mas teria tempo e saúde
para tudo isto? Talvez estivesse a exagerar!...
Decidiu consultar uma vidente. Não era muito crente nessas coisas, mas uma amiga dissera-lhe que havia uma bruxa lá para os lados de Gaia que era uma expert... gostara da palavra. Não acreditava em bruxas...mas que as há... há, diziam.
E uma certa manhã, meia disfarçada para a não
reconhecerem, foi de visita à bruxa.
Previdente, a bruxa que tinha um ar estranho, pediu logo o dinheiro antes da consulta. A megera queria saber qual era o mal que a apoquentava. Marta foi direita ao assunto – Quero saber quantos anos mais vou viver? A maléfica mandou-a sentar numa cadeira junto a uma mesa redonda de pé de galo. Revirou os olhos, soltou uns gemidos, acendeu quatro velas, lançou umas pedras sobre a mesa, fez uma reza em voz baixa, estremeceu toda, bateu com as mãos na mesa, levantou-se e sentou-se tão de repente que até parecia que tinha desmaiado. Marta sentiu medo. Lentamente começou a levantar-se para se ir embora, quando a bruxa deu um pulo, rodou a cabeça três vezes que parecia um espanador, e numa voz profunda mas muito calma, disse:
- Vais
viver, três ou quatro meses, depois dos 98 anos. Terás vida longa e sempre de
boa saúde. Vais morrer num desastre; só não sei se de viação, se de uma
catástrofe climática, se de uma derrocada ou de um ataque terrorista. Mas é
essa a morte que vais ter.
Marta saiu da casa da bruxa meia atordoada. Tantos anos? Vou
viver mais 35 anos! A maneira de morrer, não lhe interessou muito. Bem preciso
desse tempito, até agora isto não foi viver. Vamos à vida. Dinheiro não era
problema, os pais deixaram-lhe bom dinheiro. Comecemos pela lista – Viagem!
Foi a uma agência de turismo e marcou uma primeira viagem;
teria que ser para Paris, com hotel com meia pensão incluída. Perguntaram-lhe
se ia sozinha, disse que sim. Paris tinha gente muito interessante e tinha lá
muitas amigas. Mentiu. Era a primeira vez que saía do país e não tinha amigas
em Paris nem em qualquer parte do mundo.
Quando chegou ao aeroporto Charles de Gaulle, sentiu-se
perdida. O movimento era estonteante, diferente de uma repartição de finanças,
era muita mais gente, de um lado para outro, ninguém lhe perguntava nada, e ela
mal sabia falar francês. Sentou-se numa cadeira para ver se lhe surgia alguma
ideia do que haveria de fazer. Claro! Primeira decisão a tomar: arranjar um
táxi para ir para o hotel.
Marta apesar da idade não era nada de se deitar fora, antes
pelo contrário. Era uma senhora com os seus encantos, magra, bem tratada, cútis
que metia inveja a muitas jovens, bem maquilhada, bem vestida e com um
cabelo daqueles que se veem em publicidade na televisão, nails de
artista de cinema e isso chamou a atenção de um gentilhomme, dos seus cinquenta anos, bem-parecido, bem trajado,
que por aquelas paragens rondava.
Forçou um embate casual que fez desequilibrar Marta, deixando
cair a mala.
Gentilmente pegou na mala. Marta agradeceu:
- Obrigado. Marta Pimenta- disse amavelmente
- Portuguesa? - disse o gentihomme
- Sim. Do porto; de Paranhos - respondeu.
- Claude François Serra, luso-descendente. Para que
hotel vai?- perguntou numa voz sedutora.
- Hotel Balmoral, perto do Arco do Triunfo.
Que coincidência! Eu vou mesmo para esses sítios. Vivo num apartement na Avenida Foch. Tenho todo o
prazer de a transportar no meu carro. Está no estacionamento do aeroporto.
Claude Francois, com um ar sedutor, fez um gesto amável, indicando
o caminho a Marta.
- Je vous en prie.
Marta ficou enchanté.
Avançou com um andar como um modelo em passarelle.
Já não se lembrava
de ter um relacionamento com o sexo oposto. Veio-lhe à memória a frase de um
filme, em que um célebre protagonista perguntava – Paris já está a arder?
Paris não estava a arder, mas ela sentia um fogo interior, um
vulcão de sensações. O gentilhomme
seguia, observando a
esbelta figura de Marta.
Enquanto
Marta, pensava: Marta! Marta! Onde é que
tu andavas?
PARTE
III
Naquele momento sentiu-se uma mulher fatal. Dessas que
param o trânsito por onde passam e fazem os mais tímidos corar pelos
pensamentos indecorosos que não conseguem evitar. Sentia-se uma mulher jovem,
cheia de energia e naquele momento não quis pensar em nada que não fosse
aproveitar o momento. A Marta de antigamente não se deixaria levar pela
conversa do primeiro galanteador que lhe surgisse, mas esta nova Marta era
desprendida, corajosa e conduzia-a uma sede incontrolável de gozar a vida.
A viagem até ao hotel foi quase mágica. Claude fez-lhe
uma viagem guiada pela cidade, acrescentando algumas curiosidades históricas
aos sítios de que mais gostava e Marta deliciava-se com o sotaque cantado de
Claude. Não conseguiu, por isso, negar um encontro para mais tarde, um jantar
que, sendo em Paris, tudo tinha para ser romântico e Marta sentia-se levitar.
Agora no seu quarto de hotel, sentiu uma vontade
incontrolável de dançar, de tão feliz e enérgica que se sentia. Ligou o rádio,
mas logo se desapontou ao perceber que a banda sonora não lhe trazia a voz
elétrica do seu Freddie, mas sons que desconhecia naquela língua ainda tão
difícil de perceber. De súbito sentiu-se invadida por uma sensação
desconhecida. A música no rádio acalmava-lhe o espírito e seduzia-a para uma
dormência relaxante. Caminhou até à janela do quarto e olhou a rua. Sentia-se
livre, capaz, bonita e feliz. Estranhamente feliz. Então é isto que se sente, pensou. E reconhecendo a batida da
música que agora soava, enrolou os braços em si mesma, abraçando-se e rodopiou,
descalça, pelo quarto, trauteando aquele som familiar, e sorrindo, ainda que
desconhecesse o significado daquelas palavras: Je suis une femme amoureuse (eu sou uma mulher apaixonada) et je brûle
d’envie (e eu queimo de desejo) de dresser autour de toi (de desenhar à tua
volta) les murs de ma vie (as paredes da minha vida) c’est mon droit de t’aimer
(é meu direito amar-te) et de vouloir te garder (e de querer manter-te) par
dessus tout (acima de tudo)… e dançou, rodopiou num pé e no outro, até se
deixar cair na cama. O teto branco andava às voltas e às voltas e Marta fechou
os olhos, esperando que a tontura passasse. Inspirava e expirava profundamente,
tentando normalizar a respiração ofegante de tanto rodopio e ria da sua própria
tontice. Abraçou-se a uma almofada, aninhando-se, e suspirou. Conseguia ouvir o
bater acelerado do seu coração e concentrada nesse palpitar e atenta a como aos
poucos também ele se acalmava, adormeceu.
Parte IV
De repente um barulho fez-se ouvir. Alguém estava a
bater à porta! Quem seria a criatura que se atrevera a desperta-la do seu sono?
A Marta foi-se espreguiçando lentamente até que
finalmente ganhou coragem para abrir os olhos.
- Mas…? O que faço eu aqui?
Marta esfregou os olhos mais uma vez e parou
estupefacta a olhar à sua volta.
-Que raios faço eu em casa?
Ainda meia atordoada pegou na 1ª peça de roupa que lhe
veio à mão e correu para a porta!
- O que é que a Sra. pensa que está a fazer? Por acaso
tem noção que está a desrespeitar as normas do nosso condomínio? Os
adolescentes é que têm essa mania de ouvir a música em altos berros. E porque é
que está nesses preparos, isso é tinta?? Você já não tem idade para essas
coisas.
Sem sequer pensar duas vezes, a Marta bateu com a porta
na cara do Sr. Pereira, e deitou-se novamente no tapete da sua sala. Tal como
as paredes que a rodeavam, estava a sua
alma, salpicada em tons de vermelho, a cor do amor e um pouco de raiva à
mistura. Ainda não conseguia acreditar que tudo não tinha passado de um sonho.
- Não quero saber se vou durar até aos 89 anos ou se
morro daqui a uns dias. Este sonho foi um sinal, eu quero viver, quero ter o
meu final feliz, quero encontrar o Claude.
Aprontou-se o mais rápido que conseguiu, preparou as
malas e rumou em direcção ao aeroporto. Lá comprou a primeira viagem que lhe
apareceu com destino a Paris.
Eram 19.35h quando chegou ao aeroporto de Charles de
Gaulle. Inexplicavelmente tudo lhe parecia familiar, como se realmente alguma
vez ali tivesse estado sem ser apenas em sonhos. Não se sentia perdida, apenas
os seus pensamentos se atropelavam uns contra os outros enquanto tentava
relembrar-se de mais detalhes do seu sonho. De repente o seu olhar fixou-se no
mapa da cidade.
- Avenida Foch? Avenida Foch… -gritava a Marta em pleno aeroporto, enquanto um grupo de turistas olhava para ela, na tentativa de entender se ela estava perdida ou apenas a ter um momento de loucura.
A Marta sorriu para os turistas e desatou a correr em
direcção ao primeiro táxi que encontrou à saída do aeroporto.
- L´avenue Foch! Estas foram as únicas palavras que Marta que atreveu a dizer ao taxista.
- L´avenue Foch! Estas foram as únicas palavras que Marta que atreveu a dizer ao taxista.
Marta percorreu a avenida de uma ponta à outra, bateu a
todas as portas, e com o seu francês muito aportuguesado lá foi perguntando se
alguém conhecia um Claude François Serra que morava algures naquela avenida.
Ninguém parecia conhecê-lo.
Começava a ficar tarde e a Marta sentia-se exausta.
Enquanto caminhava avenida fora, com a mala numa mão e os sapatos noutra
lembrou-se de um episódio que lhe tinha acontecido quando ainda andava na
faculdade.
Nunca mais se esquecera desse dia de primavera, ela e o
seu grupo de amigos, (sim , porque a Marta já teve alguns amigos outrora)
decidiram ir fazer um picnic a entre- os-rios, num lugar que muita gente
desconhecia, onde havia um rochedo enorme de onde se podiam atirar para o rio.
Estavam todos muito ansiosos menos a Marta. Apesar da lista infindável de
aventuras radicais que tinha planeado para fazer antes de morrer, o espirito de
aventura nunca foi muito o seu forte.
Os seus amigos começaram logo a formar uma fila para se
atirarem do tal rochedo.
A marta ficou paralisada lá em cima a olhar para o rio,
não por dez minutos, não por meia hora, mas sim por quase uma hora a tentar
convencer-se a si própria a saltar. Não era medo de alturas que ela tinha, era
mais uma vez aquela sua mania de hesitar e de medir forças consigo própria.
Depois de quase uma hora a batalhar com os seus vastos pensamentos lá se atirou
do rochedo.
Cá em baixo estava um amigo seu a bater-lhe palmas.
- Nunca vi ninguém ficar ali em cima tanto tempo e
mesmo assim saltar. Parabéns!
Aquela era a Marta. Até podia estar assustada e em
conflito consigo própria, mas sempre foi arriscando, mas talvez sempre tenha
arriscado tarde demais. E mais uma vez lá estava ela paralisada, como em cima
daquele rochedo, sem saber o que fazer, mas de uma coisa ela sabia, que desta
vez ia ser feliz, e não iria perder tempo.
-Até pode nem se chamar Claude, mas eu vou
encontra-lo….
Autores do Conto - Carmita, Célio Passos, Godiva e Lilly
