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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

3 - O Noivado

CONTO COLETIVO












                                         O NOIVADO

                                                         Parte I
 
Toda a manhã para se vestir. A Cláudia não quis ninguém por perto porque aquele momento era único e só seu. O seu quarto de solteira estava uma confusão mas mais confusa estava a sua cabeça que estoirava de tantas dúvidas. Terminou de se vestir, calçar, e cada vez mais próximo de mudar radicalmente a sua vida, abriu a porta do quarto e chamou a mãe porque já não aguentava estar mais tempo sozinha. A mãe que irradiava alegria e queria participar ao máximo naqueles preparativos, entrou muito sorridente, beijou a sua querida menina na testa, e com muita ternura e emoção fez-lhe o mais bonito penteado de noiva de toda a sua vida de cabeleireira. A Cláudia estava mais nervosa do que quando entrava em cena em dia de estreia. Dava um passo e tropeçava no vestido, procurava as luvas e não as encontrava, pegou num copo de água e quase o entornou por cima do vestido. Respirou fundo para se acalmar e sentou-se um pouco na cadeira do quarto de solteira porque as suas pernas estavam cada vez mais bambas. A mãe ao ver tanto nervosismo não podia ficar indiferente e de rajada vieram todos os conselhos possíveis para aquele momento, tais como, vive este dia como se estivesses no palco a representar, afinal o que é a vida senão uma farsa. Vais ver que vais ser muito feliz. Vais ter tudo o que eu não te pude dar como mãe solteira. Já te imaginaste nas ilhas Maldivas a passar a tua lua-de-mel! A Cláudia já muito perto das lágrimas, dizia à mãe que não tinha a certeza se era com o Carlos que queria casar. Tinha muitas dúvidas se era o dinheiro do Carlos que a seduzia. Gostava dele, mas não era a mesma paixão que tinha tido pelo Daniel, o namorado mais colorido, de quem nunca se esqueceria. Fez um esforço enorme para conter as lágrimas que, se se soltassem, iriam desbotar o seu maravilhoso rosto tão bem pintado. Subitamente foi invadida por um frenesim de ideias e a sua expressão mudou radicalmente. Tens razão mamã, se não for eu, outra ocupará o meu lugar por isso é melhor meter as dúvidas debaixo do tapete e seguir em frente. Abraçaram-se numa intimidade de mãe e filha e exuberantes, saíram do quarto.
Cláudia era a noiva perfeita naquele dia do aniversário do Carlos, data por ele escolhida para o enlace. Chegou radiosa e impressionou todos os convidados que já estavam reunidos na quinta do Carlos onde a cerimónia ia decorrer.
 
                                                                     PARTE II

Ao descer ao encontro dos convidados, Cláudia observa a rica decoração, a orquestra impecável, os convidados distintos e esquece o cansaço acumulado nos longos preparativos. A viver o seu dia de glória, tantas vezes sonhado, o seu rosto resplandece de felicidade e o coração calou as dúvidas que antes se insinuaram na sua mente…
Cláudia teria preferido uma cerimónia mais intima, mas Carlos insistira e ela agora rende-se à grandiosidade daquele dia excepcional. Por entre os convidados, as suas amigas, não escondem a admiração, e uma pontinha de inveja, ao testemunharem esta mudança na sua vida modesta
Nem sabe como o dia se escoou, entre sorrisos e fotos e mais sorrisos chegou rapidamente a hora de partir e a noiva guarda consigo a realização de um sonho, quem sabe se os outros também se virão a concretizar?
Quando viajaram para a ansiada lua-de-mel Cláudia ainda pairava nas nuvens, nem se deteve na paisagem deslumbrante que se avistava do hotel exclusivo onde se instalaram. Nos dois primeiros dias quase nem saíram do quarto, com a intimidade crescia o amor entre ambos e ela pensou que não podia ser mais feliz. Carlos revelava-se um amante atencioso e entusiasta, apesar de ser alguns anos mais velho e este ser já o seu segundo casamento.
Por fim lá se decidiram a abandonar o quarto, mas continuaram o idílio, olhos nos olhos, que o ambiente exótico da praia favorecia. Nessa noite foram jantar ao restaurante e travaram conhecimento com outros hóspedes. Depois do jantar Carlos estabeleceu uma conversa animada com alguns deles e quando Cláudia se quis ir deitar, teve de ir sozinha, a situação não lhe agradou mas não pensou muito nisso. No dia seguinte Carlos juntou-se cedo ao grupo que tinham conhecido e Cláudia, um pouco contrariada, lá os acompanhou. De repente lembrou-se de que ainda não tinha falado com a mãe e saiu para ir telefonar. Quando regressou e não viu Carlos foi procurá-lo, tendo-o encontrado um pouco afastado, ao telefone. Quando se lhe dirigiu pareceu-lhe que ele desligava apressadamente, o que a intrigou. Este episódio fê-la recordar uma das manhãs anteriores em que tinha despertado e ele não estava na cama. Tinha-se levantado, para o procurar e viu-o chegar, pouco depois, já vestido, e sem dar qualquer explicação para a saída matinal. Na altura não tinha dado importância, mas agora…o que se passaria? Então pensou que na verdade pouco conhecia da vida do marido. Sabia que ele tinha uma ex-mulher e que se dedicava aos negócios…e pouco mais.
No avião, de regresso a casa, Cláudia recorda a maravilhosa viagem mas ao pensar nos comportamentos intrigantes do marido uma ruga de preocupação ensombra-lhe o sorriso: - o que escondia Carlos? Havia de descobrir! – disse para si mesma.

                                                                     Parte III

Já estavam instalados na nova casa há quase um mês e, para o observador mais incauto, tudo parecia decorrer na normalidade de um enlace recém-efectuado. Cláudia voltara para o salão, onde ajudava a mãe desde que o seu cérebro desistira de compreender os meandros do mundo escolar e para os ensaios no teatro amador e Carlos voltara para os seus negócios.
Mas dúvidas de Cláudia não tinham desaparecido. Permaneciam num cantinho obscuro do subconsciente a roer nervosamente como um hamster. E quando ela lutava para que se dissipassem, arranjando argumentos de “auto-convencimento”, eis que o ratinho dava mais uma voltinha na roda que é a mente e tudo voltava ao de cima. Cansada de lutar contra a sua intuição, coisa que aliás sempre considerara um dom, toma uma atitude. Vou telefonar ao Gonçalo Ribeiro! Gonçalo Ribeiro era informático na Segurança Social e, facilmente, tinha acesso a dados confidenciais. Muitas vezes só precisava de um nome.
- Carlos Manuel Nunes Baptista.
- Não pode ser, não me aparece. Diz-me a data de nascimento.
- 23 de Outubro de 1965. Mas o nome completo é esse… Pelo menos foi esse o homem com que o padre me casou! - diz Cláudia, soltando uma gargalhadinha nervosa.
- Não, não aparece. Alguma coisa deve estar mal ou incompleta. Ou então conseguiu chegar aos 47 anos sem se inscrever na Segurança Social! Tenta surripiar-lhe algum documento e depois diz-me qualquer coisa.
- Obrigada Gonçalo. Beijos.
Cláudia descansou pesadamente o telefone no receptor e sentou-se a pensar. Não era fácil a tarefa de tirar a carteira ao marido. Para além de não ter vocação para mulher desconfiada, ciumenta e neurótica, faltava-lhe o jeito para arranjar desculpas plausíveis. Porque haveria eu de lhe querer ver os cartões? Vou ter que fazer isto de outra maneira.
À hora do almoço, Cláudia confidenciou à mãe todas as suas dúvidas e receios e contou-lhe o que planeava fazer.
- Como se chamam aqueles comprimidos que tomas de vez em quando para dormir?
- Valium, cinco miligramas.
- E um chega?
- Chega.
- Mas tu és magrinha e ele é um matulão.
- Um chega, não te preocupes.
Nessa noite o jantar foi lasanha. Carlos devia ter uma costela italiana, pelo menos no que diz respeito à comida, já que por ele, comer-se-ia pasta todos os dias naquela casa. Claúdia aproveitou o facto se ser vegetariana para fazer duas lasanhas separadas. Uma normal de carne, para ele e uma de espinafres, para ela. Na de carne juntou cinco comprimidos do Valium que a mãe lhe dera. Ele é grande e eu preciso de tempo. Vão cinco, pelo sim, pelo não.
A lasanha, com o recheio especial e regada com um bom vinho tinto fez Carlos cair que nem um tordo. Com o coração a bater descompassado, Cláudia tira-lhe a carteira do bolso. A busca pelos cartões revelou-se infrutífera. Em todos eles constava o nome Carlos Manuel Nunes Baptista, 23 de Outubro de 1965. Aparentemente todos normais. Seriam falsificados? Mas numa das divisões dos cartões encontra uma pequena chave. Do cofre que ele guarda lá em cima? Cláudia corre para experimentá-la e nem quer acreditar no que os seus olhos vêem dentro daquele cofre. Um passaporte e um outro cartão de identificação, daqueles de prender na lapela, ambos com o nome Charles Bowden impresso. O cartão tem inscrito o nome da instituição a que pertence. MI6. MI6? O cérebro de Cláudia não sabe muito bem o que fazer para processar tal informação. O teu marido é um espião inglês, diz-lhe o hamster saltando para a roda.

                                                                           Parte IV

Claúdia levou a mão ao peito, para aprisionar o coração que batia de uma forma estranhíssima, ao ritmo da roda do hamster. Respirou fundo. O hamster olhava-a com olhitos penetrantes, hipnóticos. Ela deixou-se cair no grande almofadão marroquino que estava no chão e vieram-lhe à memória alguns momentos exóticos da sua vida com Carlos. Como naquele dia em que ele alugou um jacto particular e foram jantar a Berlim, a um restaurante todo pintado de negro, decorado com objectos negros, toalhas negras, completamente sem luz, onde foram conduzidos para a mesa pela mão de criados cegos, que os serviam completamente às escuras. Ela tinha ficado atordoada pela surpresa, pelo escuro e pelos movimentos à sua volta, que ela conseguia pressentir, mas não identificar. Lembrou-se das vozes masculinas que ouviu, sussurradas, do silêncio em que o Carlos ficou, ele, até ali tão tagarela.. Lembrou-se ainda daquela viagem imprevista a Moscovo, com o pretexto de ir ver os magníficos bosques de bétulas, o que ela achou super romântico…. Na altura, adorou o casaco e o fantástico gorro de pelo de marta zibelina que Carlos lhe comprou, e lamentava só agora atribuir algum significado ao facto de se terem perdido estupidamente nos arredores e de terem sido recolhidos por um estranho táxi, que os deixou no hotel duas horas depois. E daquela vez em que sob o pretexto de uns negócios fabulosos, Carlos recebeu uma estranha comitiva de empresários da América Latina, que bêbados que nem portas, queriam à fina força visitar a Torre do Tombo, às quatro da manhã. E daquela vez que ele teve de partir subitamente para Cuba com o pretexto parvo de que lhe tinham acabado os charutos. E daquela vez…..

Um barulho trouxe-a à realidade e levantou-se. O hamster acordou e com o movimento da roda, fez cair a gaiola que fez um barulho dos diabos. Cláudia assustou-se, tropeçou na passadeira e rebolou pelas escadas abaixo, onde chegou já morta, com o pescoço quebrado.

A manhã já ia alta quando Carlos se levantou, cabeça pesada, como se tivesse apanhado a maior bebedeira deste mundo. Estremunhado, meteu-se debaixo do chuveiro e deixou-se acordar com a água fria. Vestiu-se e desceu à procura da mulher. Quando viu o cofre aberto e a mulher estatelada no fundo das escadas, nem hesitou. Pegou no passaporte e dirigiu-se ao aeroporto onde apanhou o avião das nove e quarenta e cinco para Franckfurt.
FIM

Autores do Conto - Helena João, “M”, Madalena Fonte  e Maria José Azevedo ( ordem alfabética).

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

2 - O Homem Invisivel 2

(Continuação de Homem Invisivel 1)
V


Mr. Frank Stein levantou-se cedo. Tinha que ir apanhar um jacto, estacionado no John Kennedy Airport em Nova York, com destino ao nosso país. Saiu do seu flat e uma limousine de vidros fumados levou-o em alta velocidade ao aeroporto. Confortado na sua invisibilidade, Stein abriu um dossier relativo a um caso que a CIA o encarregou de resolver; deram-lhe poderes absolutos para a sua resolução. O CIA não é a conhecida central de serviços de segurança e investigação norte americana, mas uma sociedade mais discreta que secreta, com laivos de esotérica. Trata-se do Clube dos Invisíveis Anónimos que têm ultimamente aumentado os seus sócios, espalhados por todo o mundo.


Em Portugal nos últimos anos têm tido uma adesão extraordinária. Os sócios pertencem a classes profissionais muito específicas: advogados, empresários, banqueiros, autarcas e políticos, construtores, civis, pedófilos queda lei e da justiça se vão libertando, recorrendo aos mais fantásticos expedientes: apresentando recursos, dilatando prazos, esgotando prazos, levando os processos até à prescrição; outros levam firmas para uma falência fraudulenta, donos de bancos que desviam fortunas, agentes da política corruptos, crimes decolarinho branco, evasões fiscais ou desfalques, não serem julgados e por vezes,até, fogem do país para evitar a prisão. Isto tudo porque se tornaram invisíveis,  que nem os jornalistas que são piorque piolho em costuraos conseguem descobrir. Esta nova elite dentro do grupo da CIA, a nível mundial, em crescente exponencial é muito acarinhada.


Mas qual era o caso português que preocupava tanto a CIA? Era o caso doJoão, simplesmente. Este cientista, no seu laboratório, estava quase a conseguir a visibilidade, o que punha em causa os honoráveis sócios da CIA. Muita coisa se ia descobrir e se os invisíveis passavam a ter visibilidade, podia ser altamente desastroso. João conseguia ratinhos que não desapareciam e depois surgiu-lhe a epifania. Era preciso atuar com urgência e reverter a situação. Na sua invisibilidade Mr. Stein dirigiu-se ao laboratório do João, cuja direção tinha sido fornecida por um dos tais autarcas. João não se encontrava, nem sombra dele. Com os cuidados que tal situação exigia, Stein colado às paredes do laboratório, ia colando um produto branco, tipo plástico, em locais cuidadosamente escolhidos. Fechou a porta do laboratório e encerrou-o com o mesmo material. Saiu rapidamente do local. Colocou-se invisivelmente confortável do outro lado do passeio, a uma distância de segurança. Passado cinco minutos, deu-se uma grande explosão, deflagrando de seguida um incêndio, em todo o prédio da faculdade. O laboratório do João deixara de existir. Pegou no telemóvel e ligou para o diretor afirmando - caso resolvido.


João ria-se, invisivelmente sentado no café em frente da faculdade vendo os bombeiros a chegar. Suspeitava que isto lhe podia acontecer, por isso, guardou em lugar seguro a aparelhagem sofisticada que substituiu por outra desatualizada. Os dossiers com o know-how, guardou-os em lugar seguro. João, agora podia com segurança mudar de tática e avançar no seu paradigma baseado na epifania.




VI


Observava a azáfama dos bombeiros, o fumo negro a acumular-se, o zoar das sirenes e a confusão que se gerava, mas não desesperava. Cedia, no entanto, à ansiedade. Chegada era a hora de concretizar o seu plano. Martelava no seu pensamento que apenas lhe restava uma alternativa e temia fracassar.


Não podia perder mais tempo e revia o plano na sua cabeça a cada passo, no caminho para casa: os fins justificam os meios, repetia.


Sentado na mesa da sala via o dia escurecer e sabia que tinha de agir rápido. Deu por si trémulo, inquieto e sorriu nervosamente com esta insegurança súbita que há muito não o visitava. De papel e caneta na mão, pensou nos poetas que lera mas concentrou-se na busca de outras palavras. Ainda que bem escolhidas teriam de surtir o efeito esperado. Completamente absorvido pela adrenalina, escreveu, de uma vez só, a combinação de sons que mais lhe pareceu perfeita. Ao dobrar a mensagem, não conseguiu evitar uma pequena gargalhada, qual menino maroto antevendo o resultado da malandrice. Está na hora, disse, ao levantar a ninhada na jaula, e saiu.


Em passo apressado João sentia as gotas de suor formarem-se na testa, e sentiu-se desconfortável por sentir as mãos igualmente transpiradas, sem conseguir perceber se tal era resultado dos nervos ou da noite abafada que se fazia sentir.


Entrou no prédio, outrora tão familiar, sem qualquer dificuldade e chegado à porta do dito apartamento, ouvia o bater do coração como se este estivesse fora do peito. Hesitante, ficou quieto a olhar o vazio do corredor. Que raio faço eu aqui, recriminou-se. Ao recuar deixou cair o pano que cobria a jaula, expondo as cobaias que andavam de um lado para o outro, desnorteadas, e sentiu a coragem renovar-se. Vamos lá, João! Vamos lá! Rapidamente deslizou a mão pelo interior do vaso decorativo que tão bem conhecia, que continuava adormecido ao lado do tapete e estremeceu de contentamento. Nem acredito que ainda a guarda aqui, pensou. Determinado, retirou a chave suplente e abriu a porta cuidadosamente.


O interior do apartamento estava diferente. Moderno e irritantemente arrumado. Nada parecido com o ar acolhedor e familiar de outros tempos. No lugar dos quadros pintados à mão, dependuravam-se agora fotos de animais e ambientes selvagens. Invadido por uma raiva súbita, João ergueu a jaula com a ninhada: vão sentir-se em casa, observou em tom maquiavélico. Olhou o relógio. Não deve tardar a chegar, murmurou. Deu-se aos últimos preparativos e sentou-se, impaciente, no parapeito da janela.


Ao primeiro tilintar de chaves a porta abriu-se e João tapou a boca, sentindo-se incapaz de se controlar por muito tempo. Margarida estava mais bonita do que nunca. Nos gestos mecanizados de todos os dias de pousa as chaves, acende a luz, pendura o casaco, já o seu perfume chegara à janela e João teria corrido para a abraçar, esquecendo que era ainda invisível, não fosse o grito histérico de Margarida ter ecoado por todo o apartamento. Margarida gritava, contorcendo-se em poses ridículas, como se possuída por algum espírito malévolo, e correndo em pulos do cimo dos seus saltos altos, desesperava por chegar à sala sem lhes tocar. Estavam por todo o lado!


Rapidamente se colocou em cima de uma das cadeiras da mesa de jantar e sentindo todo o seu corpo arrepiado, parou o olhar, já fragilizado por lágrimas involuntárias, na jaula aberta em cima da mesa. Ao lado um bilhete: Hoje acordei e fiquei a ver-te dormir. O teu rosto enrugado lembrou-me deles e não resisti. Sei que amarás a surpresa, tal qual eu te amo.
Eduardo                                                                                          


                                                              VII


João percebera finalmente que mais valia invisível mas feliz junto da mulher que amava, que visível e  sofrendo os horrores da solidão . Estava convicto que se a química de laboratório falhara , a Química do Amor o faria  sentir-se visível e para ele  a palavra Amor  rimava com uma única mulher : Margarida!


Margarida  que também amara uma  vez  e  guardava consigo as memórias de cada momento vivido com  aquele colega de faculdade que era em si um misto de paixão e  mistério.


No dia em que atirou pelo vão das escadas todos os  pertences de Eduardo  e lhe bateu definitivamente  com a porta, Margarida interrogava-se em que ponto do percurso se perdera a ponto de  dar consigo  casada com ele sem resolver o mistério de João, esse homem   que de noite dormia na sua insónia e  a possuía languidamente, fazendo-a sentir-se culpada de traição na manhã seguinte quando Eduardo  sorridente lhe dava os bons dias.


Estaria isso na origem daquele  presente envenenado  ? - pensava  ela desconhecendo  que João decidira assumir a sua invisibilidade e o seu amor por ela, removendo todos os obstáculos entre ambos. 


Afastado Eduardo, João mudou-se de malas e bagagens .


Os tempos que se seguiram foram de radiosa felicidade. De dia  tudo  planeava  de forma a  satisfazer-lhe  os caprichos  e Margarida acreditava que  uma força divina a compensava de alguma forma pelos anos tortuosos  com Eduardo.


As noites, Margarida nem ousava questionar temendo que a magia desaparecesse!


Certo certo  é que João, vendo a felicidade  de Margarida, era o homem invisível mais feliz do mundomais que qualquer homem visível.


Naquele dia   acompanhou-a a como habitualmente: entrou com ela no elevador ; viu-a  marcar o andar (onde iria ?) ;acercar-se do espelho; morder os lábios que logo  se fizeram rubros; enfiar as mãos em cada uma das copas do soutien  elevando  os seios alvos  e túrgidos  para o decote generoso  e antes que a porta  se abrisse  ensaiar um sorriso que cegou João.


Seguramente iria encontrar-se com algum homem visível  !!!!


Desesperado, em vão tentou impedi-la:  correu à sua frente interpondo-se de braços abertos  entre ela e a porta  onde  luzia a placa : Edmar OliveiraFenómenos Paranormais.   Mas perante o insucesso, invisível, impotente e  mortalmente feridodesmaiou !


 Quando  Edmar  abriu o consultório  convidando-a a entrar, Margarida tinha os olhos cravados no chão e na alma uma  daquelas  sensações estranhamente inexplicáveis que a atormentavam nos últimos tempos: desta vez a de estar a passar sobre um cadáver.                                


VIII


- Falhei novamente!pensou quando acordou, deitado no chão.


- Não percebo, agora nem a Margarida me vê! Em vez de ficar visível, com todos os esforços que fiz, consegui tornar-me ainda mais invisível - constatou. Não conseguira tornar-se visível e não aguentava viver naquele estado de invisibilidade.


Depois de lhe passar a dor de cabeça monumental, concentrou-se de novo no seu problema.


 Ora deixa ver onde é que eu falhei. Eu estava tão seguro de ter descoberto!


Pensou de novo nos ratinhos. O que vislumbrara ao olhar os recém-nascidos, tão inocentes mas tão autênticos (e bem visíveis, deve dizer-se)?


- Ah!! sei!  João despiu-se rapidamente, abriu a porta e saiu para o corredor. Por sorte, topou logo com a Margarida, que saía da sua consulta.


- João!gritouo que estás a fazer aqui nessa figura?endoideceste?  Num relance, viu quebrar-se a imagem romântica que dele fizera recentemente.   


João não disse nada, apenas sorriu.


A pobre Margarida fugiu espavorida, a pensar que estava com alucinações. Aquele homem, a quem ela tinha dado atenção, nem sabe bem porquê, parecia que ia assombrá-la para o resto da vida. Se arrependimento matasselogo que se recompôs do choque foi para casa e marcou uma consulta  num psiquiatra da moda, onde iniciou uma terapia que iria durar por longos anos.


Entretanto, João dava pulos de contente e gritava:


- descobri, descobri


Enquanto se vestia, como que possuído por uma clarividência excecional, discorria que a invisibilidade de muita gente resultava da adoção de um  visual uniformizado, de uma espécie de farda que vestiam, a condizer com uma expressão, sofisticada,cool, mas totalmente impessoal. Para completar estemodo invisível, um discurso de banalidades, em que todos diziam o mesmo, quanto tempo não ouvia nada de original?interrogou-se.


Sim!João está decidido a deixar o anonimato e a exibir a sua personalidade tornando-se de novo visível como quando era muito jovem e ainda não tinha perdidochegado a este ponto, interrompeu-se:


 E Mr. Stein? -Tinha-se esquecido de Mr. Stein! O sorriso luminoso congelou no rosto de João. O americano dera-se a muito incómodo para o impedir de descobrir o segredo da visibilidade. Não ia deixá-lo em paz, com certeza.


- Que fazer? Vamos pensar com lógica - disse para os seus botões não me posso esconder no anonimato. EntãoJoão admirou-se consigo mesmoanimado pela sua recente descoberta, as ideias surgiam em catadupaé lógico o que tenho de fazer para me proteger dos Mr. Stein deste mundo: o contrário do que fazia antes -  tornar-me notado! Participar ativamente em tudo: em casa, no trabalho, com os amigos.  Fazer parte de uma associação que trabalhe em prol de uma causa, de solidariedade, ou de cariz ambiental? Ou enveredar pela política, ou escrever um livro? Ou?  


Satisfeito consigo, João sorriu de novo e correu para a rua.  


                                                                                                                                               FIM