O
NOIVADO
Parte I
Toda
a manhã para se vestir. A Cláudia não quis ninguém por perto
porque aquele momento era único e só seu. O seu quarto de solteira
estava uma confusão mas mais confusa estava a sua cabeça que
estoirava de tantas dúvidas. Terminou de se vestir, calçar, e cada
vez mais próximo de mudar radicalmente a sua vida, abriu a porta do
quarto e chamou a mãe porque já não aguentava estar mais tempo
sozinha. A mãe que irradiava alegria e queria participar ao máximo
naqueles preparativos, entrou muito sorridente, beijou a sua querida
menina na testa, e com muita ternura e emoção fez-lhe o mais bonito
penteado de noiva de toda a sua vida de cabeleireira. A Cláudia
estava mais nervosa do que quando entrava em cena em dia de estreia.
Dava um passo e tropeçava no vestido, procurava as luvas e não as
encontrava, pegou num copo de água e quase o entornou por cima do
vestido. Respirou fundo para se acalmar e sentou-se um pouco na
cadeira do quarto de solteira porque as suas pernas estavam cada vez
mais bambas. A mãe ao ver tanto nervosismo não podia ficar
indiferente e de rajada vieram todos os conselhos possíveis para
aquele momento, tais como, vive este dia como se estivesses no palco
a representar, afinal o que é a vida senão uma farsa. Vais ver que
vais ser muito feliz. Vais ter tudo o que eu não te pude dar como
mãe solteira. Já te imaginaste nas ilhas Maldivas a passar a tua
lua-de-mel! A Cláudia já muito perto das lágrimas, dizia à mãe
que não tinha a certeza se era com o Carlos que queria casar. Tinha
muitas dúvidas se era o dinheiro do Carlos que a seduzia. Gostava
dele, mas não era a mesma paixão que tinha tido pelo Daniel, o
namorado mais colorido, de quem nunca se esqueceria. Fez um esforço
enorme para conter as lágrimas que, se se soltassem, iriam desbotar
o seu maravilhoso rosto tão bem pintado. Subitamente foi invadida
por um frenesim de ideias e a sua expressão mudou radicalmente. Tens
razão mamã, se não for eu, outra ocupará o meu lugar por isso é
melhor meter as dúvidas debaixo do tapete e seguir em frente.
Abraçaram-se numa intimidade de mãe e filha e exuberantes, saíram
do quarto.
Cláudia
era a noiva perfeita naquele dia do aniversário do Carlos, data por
ele escolhida para o enlace. Chegou radiosa e impressionou todos os
convidados que já estavam reunidos na quinta do Carlos onde a
cerimónia ia decorrer.
PARTE
II
Ao descer ao encontro
dos convidados, Cláudia observa a rica decoração, a orquestra
impecável, os convidados distintos e esquece o cansaço acumulado
nos longos preparativos. A viver o seu dia de glória, tantas vezes
sonhado, o seu rosto resplandece de felicidade e o coração calou
as dúvidas que antes se insinuaram na sua mente…
Cláudia
teria preferido uma cerimónia mais intima, mas Carlos insistira e
ela agora rende-se à grandiosidade daquele dia excepcional. Por
entre os convidados, as suas amigas, não escondem a admiração, e
uma pontinha de inveja, ao testemunharem esta mudança na sua vida
modesta
Nem
sabe como o dia se escoou, entre sorrisos e fotos e mais sorrisos
chegou rapidamente a hora de partir e a noiva guarda consigo a
realização de um sonho, quem sabe se os outros também se virão a
concretizar?
Quando
viajaram para a ansiada lua-de-mel Cláudia ainda pairava nas nuvens,
nem se deteve na paisagem deslumbrante que se avistava do hotel
exclusivo onde se instalaram. Nos dois primeiros dias quase nem
saíram do quarto, com a intimidade crescia o amor entre ambos e ela
pensou que não podia ser mais feliz. Carlos revelava-se um amante
atencioso e entusiasta, apesar de ser alguns anos mais velho e este
ser já o seu segundo casamento.
Por
fim lá se decidiram a abandonar o quarto, mas continuaram o
idílio, olhos nos olhos, que o ambiente exótico da praia favorecia.
Nessa noite foram jantar ao restaurante e travaram conhecimento com
outros hóspedes. Depois do jantar Carlos estabeleceu uma conversa
animada com alguns deles e quando Cláudia se quis ir deitar, teve de
ir sozinha, a situação não lhe agradou mas não pensou muito
nisso. No dia seguinte Carlos juntou-se cedo ao grupo que tinham
conhecido e Cláudia, um pouco contrariada, lá os acompanhou. De
repente lembrou-se de que ainda não tinha falado com a mãe e saiu
para ir telefonar. Quando regressou e não viu Carlos foi procurá-lo,
tendo-o encontrado um pouco afastado, ao telefone. Quando se lhe
dirigiu pareceu-lhe que ele desligava apressadamente, o que a
intrigou. Este episódio fê-la recordar uma das manhãs anteriores
em que tinha despertado e ele não estava na cama. Tinha-se
levantado, para o procurar e viu-o chegar, pouco depois, já
vestido, e sem dar qualquer explicação para a saída matinal. Na
altura não tinha dado importância, mas agora…o que se passaria?
Então pensou que na verdade pouco conhecia da vida do marido. Sabia
que ele tinha uma ex-mulher e que se dedicava aos negócios…e
pouco mais.
No
avião, de regresso a casa, Cláudia recorda a maravilhosa viagem
mas ao pensar nos comportamentos intrigantes do marido uma ruga de
preocupação ensombra-lhe o sorriso: - o que escondia Carlos? Havia
de descobrir! – disse para si mesma.
Parte
III
Já
estavam instalados na nova casa há quase um mês e, para o
observador mais incauto, tudo parecia decorrer na normalidade de um
enlace recém-efectuado. Cláudia voltara para o salão, onde ajudava
a mãe desde que o seu cérebro desistira de compreender os meandros
do mundo escolar e para os ensaios no teatro amador e Carlos voltara
para os seus negócios.
Mas
dúvidas de Cláudia não tinham desaparecido. Permaneciam num
cantinho obscuro do subconsciente a roer nervosamente como um
hamster. E quando ela lutava para que se dissipassem, arranjando
argumentos de “auto-convencimento”, eis que o ratinho dava mais
uma voltinha na roda que é a mente e tudo voltava ao de cima.
Cansada de lutar contra a sua intuição, coisa que aliás sempre
considerara um dom, toma uma atitude. Vou telefonar ao Gonçalo
Ribeiro! Gonçalo Ribeiro era informático na Segurança Social e,
facilmente, tinha acesso a dados confidenciais. Muitas vezes só
precisava de um nome.
-
Carlos Manuel Nunes Baptista.
-
Não pode ser, não me aparece. Diz-me a data de nascimento.
-
23 de Outubro de 1965. Mas o nome completo é esse… Pelo menos foi
esse o homem com que o padre me casou! - diz Cláudia, soltando uma
gargalhadinha nervosa.
-
Não, não aparece. Alguma coisa deve estar mal ou incompleta. Ou
então conseguiu chegar aos 47 anos sem se inscrever na Segurança
Social! Tenta surripiar-lhe algum documento e depois diz-me qualquer
coisa.
-
Obrigada Gonçalo. Beijos.
Cláudia
descansou pesadamente o telefone no receptor e sentou-se a pensar.
Não era fácil a tarefa de tirar a carteira ao marido. Para além de
não ter vocação para mulher desconfiada, ciumenta e neurótica,
faltava-lhe o jeito para arranjar desculpas plausíveis. Porque
haveria eu de lhe querer ver os cartões? Vou ter que fazer isto de
outra maneira.
À
hora do almoço, Cláudia confidenciou à mãe todas as suas dúvidas
e receios e contou-lhe o que planeava fazer.
-
Como se chamam aqueles comprimidos que tomas de vez em quando para
dormir?
-
Valium, cinco miligramas.
-
E um chega?
-
Chega.
-
Mas tu és magrinha e ele é um matulão.
-
Um chega, não te preocupes.
Nessa
noite o jantar foi lasanha. Carlos devia ter uma costela italiana,
pelo menos no que diz respeito à comida, já que por ele,
comer-se-ia pasta todos os dias naquela casa. Claúdia aproveitou o
facto se ser vegetariana para fazer duas lasanhas separadas. Uma
normal de carne, para ele e uma de espinafres, para ela. Na de carne
juntou cinco comprimidos do Valium que a mãe lhe dera. Ele é grande
e eu preciso de tempo. Vão cinco, pelo sim, pelo não.
A
lasanha, com o recheio especial e regada com um bom vinho tinto fez
Carlos cair que nem um tordo. Com o coração a bater descompassado,
Cláudia tira-lhe a carteira do bolso. A busca pelos cartões
revelou-se infrutífera. Em todos eles constava o nome Carlos Manuel
Nunes Baptista, 23 de Outubro de 1965. Aparentemente todos normais.
Seriam falsificados? Mas numa das divisões dos cartões encontra uma
pequena chave. Do cofre que ele guarda lá em cima? Cláudia corre
para experimentá-la e nem quer acreditar no que os seus olhos vêem
dentro daquele cofre. Um passaporte e um outro cartão de
identificação, daqueles de prender na lapela, ambos com o nome
Charles Bowden impresso. O cartão tem inscrito o nome da instituição
a que pertence. MI6. MI6? O cérebro de Cláudia não sabe muito bem
o que fazer para processar tal informação. O teu marido é um
espião inglês, diz-lhe o hamster saltando para a roda.
Parte
IV
Claúdia
levou a mão ao peito, para aprisionar o coração que batia de uma
forma estranhíssima, ao ritmo da roda do hamster. Respirou fundo. O
hamster olhava-a com olhitos penetrantes, hipnóticos. Ela deixou-se
cair no grande almofadão marroquino que estava no chão e vieram-lhe
à memória alguns momentos exóticos da sua vida com Carlos. Como
naquele dia em que ele alugou um jacto particular e foram jantar a
Berlim, a um restaurante todo pintado de negro, decorado com objectos
negros, toalhas negras, completamente sem luz, onde foram conduzidos
para a mesa pela mão de criados cegos, que os serviam completamente
às escuras. Ela tinha ficado atordoada pela surpresa, pelo escuro e
pelos movimentos à sua volta, que ela conseguia pressentir, mas não
identificar. Lembrou-se das vozes masculinas que ouviu, sussurradas,
do silêncio em que o Carlos ficou, ele, até ali tão tagarela..
Lembrou-se ainda daquela viagem imprevista a Moscovo, com o pretexto
de ir ver os magníficos bosques de bétulas, o que ela achou super
romântico…. Na altura, adorou o casaco e o fantástico gorro de
pelo de marta zibelina que Carlos lhe comprou, e lamentava só agora
atribuir algum significado ao facto de se terem perdido estupidamente
nos arredores e de terem sido recolhidos por um estranho táxi, que
os deixou no hotel duas horas depois. E daquela vez em que sob o
pretexto de uns negócios fabulosos, Carlos recebeu uma estranha
comitiva de empresários da América Latina, que bêbados que nem
portas, queriam à fina força visitar a Torre do Tombo, às quatro
da manhã. E daquela vez que ele teve de partir subitamente para Cuba
com o pretexto parvo de que lhe tinham acabado os charutos. E daquela
vez…..
Um
barulho trouxe-a à realidade e levantou-se. O hamster acordou e com
o movimento da roda, fez cair a gaiola que fez um barulho dos diabos.
Cláudia assustou-se, tropeçou na passadeira e rebolou pelas escadas
abaixo, onde chegou já morta, com o pescoço quebrado.
A
manhã já ia alta quando Carlos se levantou, cabeça pesada, como se
tivesse apanhado a maior bebedeira deste mundo. Estremunhado,
meteu-se debaixo do chuveiro e deixou-se acordar com a água fria.
Vestiu-se e desceu à procura da mulher. Quando viu o cofre aberto e
a mulher estatelada no fundo das escadas, nem hesitou. Pegou no
passaporte e dirigiu-se ao aeroporto onde apanhou o avião das nove e
quarenta e cinco para Franckfurt.
FIM
Autores
do Conto - Helena
João, “M”, Madalena Fonte e Maria José Azevedo ( ordem alfabética).

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