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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

2 - O Homem Invisivel 2

(Continuação de Homem Invisivel 1)
V


Mr. Frank Stein levantou-se cedo. Tinha que ir apanhar um jacto, estacionado no John Kennedy Airport em Nova York, com destino ao nosso país. Saiu do seu flat e uma limousine de vidros fumados levou-o em alta velocidade ao aeroporto. Confortado na sua invisibilidade, Stein abriu um dossier relativo a um caso que a CIA o encarregou de resolver; deram-lhe poderes absolutos para a sua resolução. O CIA não é a conhecida central de serviços de segurança e investigação norte americana, mas uma sociedade mais discreta que secreta, com laivos de esotérica. Trata-se do Clube dos Invisíveis Anónimos que têm ultimamente aumentado os seus sócios, espalhados por todo o mundo.


Em Portugal nos últimos anos têm tido uma adesão extraordinária. Os sócios pertencem a classes profissionais muito específicas: advogados, empresários, banqueiros, autarcas e políticos, construtores, civis, pedófilos queda lei e da justiça se vão libertando, recorrendo aos mais fantásticos expedientes: apresentando recursos, dilatando prazos, esgotando prazos, levando os processos até à prescrição; outros levam firmas para uma falência fraudulenta, donos de bancos que desviam fortunas, agentes da política corruptos, crimes decolarinho branco, evasões fiscais ou desfalques, não serem julgados e por vezes,até, fogem do país para evitar a prisão. Isto tudo porque se tornaram invisíveis,  que nem os jornalistas que são piorque piolho em costuraos conseguem descobrir. Esta nova elite dentro do grupo da CIA, a nível mundial, em crescente exponencial é muito acarinhada.


Mas qual era o caso português que preocupava tanto a CIA? Era o caso doJoão, simplesmente. Este cientista, no seu laboratório, estava quase a conseguir a visibilidade, o que punha em causa os honoráveis sócios da CIA. Muita coisa se ia descobrir e se os invisíveis passavam a ter visibilidade, podia ser altamente desastroso. João conseguia ratinhos que não desapareciam e depois surgiu-lhe a epifania. Era preciso atuar com urgência e reverter a situação. Na sua invisibilidade Mr. Stein dirigiu-se ao laboratório do João, cuja direção tinha sido fornecida por um dos tais autarcas. João não se encontrava, nem sombra dele. Com os cuidados que tal situação exigia, Stein colado às paredes do laboratório, ia colando um produto branco, tipo plástico, em locais cuidadosamente escolhidos. Fechou a porta do laboratório e encerrou-o com o mesmo material. Saiu rapidamente do local. Colocou-se invisivelmente confortável do outro lado do passeio, a uma distância de segurança. Passado cinco minutos, deu-se uma grande explosão, deflagrando de seguida um incêndio, em todo o prédio da faculdade. O laboratório do João deixara de existir. Pegou no telemóvel e ligou para o diretor afirmando - caso resolvido.


João ria-se, invisivelmente sentado no café em frente da faculdade vendo os bombeiros a chegar. Suspeitava que isto lhe podia acontecer, por isso, guardou em lugar seguro a aparelhagem sofisticada que substituiu por outra desatualizada. Os dossiers com o know-how, guardou-os em lugar seguro. João, agora podia com segurança mudar de tática e avançar no seu paradigma baseado na epifania.




VI


Observava a azáfama dos bombeiros, o fumo negro a acumular-se, o zoar das sirenes e a confusão que se gerava, mas não desesperava. Cedia, no entanto, à ansiedade. Chegada era a hora de concretizar o seu plano. Martelava no seu pensamento que apenas lhe restava uma alternativa e temia fracassar.


Não podia perder mais tempo e revia o plano na sua cabeça a cada passo, no caminho para casa: os fins justificam os meios, repetia.


Sentado na mesa da sala via o dia escurecer e sabia que tinha de agir rápido. Deu por si trémulo, inquieto e sorriu nervosamente com esta insegurança súbita que há muito não o visitava. De papel e caneta na mão, pensou nos poetas que lera mas concentrou-se na busca de outras palavras. Ainda que bem escolhidas teriam de surtir o efeito esperado. Completamente absorvido pela adrenalina, escreveu, de uma vez só, a combinação de sons que mais lhe pareceu perfeita. Ao dobrar a mensagem, não conseguiu evitar uma pequena gargalhada, qual menino maroto antevendo o resultado da malandrice. Está na hora, disse, ao levantar a ninhada na jaula, e saiu.


Em passo apressado João sentia as gotas de suor formarem-se na testa, e sentiu-se desconfortável por sentir as mãos igualmente transpiradas, sem conseguir perceber se tal era resultado dos nervos ou da noite abafada que se fazia sentir.


Entrou no prédio, outrora tão familiar, sem qualquer dificuldade e chegado à porta do dito apartamento, ouvia o bater do coração como se este estivesse fora do peito. Hesitante, ficou quieto a olhar o vazio do corredor. Que raio faço eu aqui, recriminou-se. Ao recuar deixou cair o pano que cobria a jaula, expondo as cobaias que andavam de um lado para o outro, desnorteadas, e sentiu a coragem renovar-se. Vamos lá, João! Vamos lá! Rapidamente deslizou a mão pelo interior do vaso decorativo que tão bem conhecia, que continuava adormecido ao lado do tapete e estremeceu de contentamento. Nem acredito que ainda a guarda aqui, pensou. Determinado, retirou a chave suplente e abriu a porta cuidadosamente.


O interior do apartamento estava diferente. Moderno e irritantemente arrumado. Nada parecido com o ar acolhedor e familiar de outros tempos. No lugar dos quadros pintados à mão, dependuravam-se agora fotos de animais e ambientes selvagens. Invadido por uma raiva súbita, João ergueu a jaula com a ninhada: vão sentir-se em casa, observou em tom maquiavélico. Olhou o relógio. Não deve tardar a chegar, murmurou. Deu-se aos últimos preparativos e sentou-se, impaciente, no parapeito da janela.


Ao primeiro tilintar de chaves a porta abriu-se e João tapou a boca, sentindo-se incapaz de se controlar por muito tempo. Margarida estava mais bonita do que nunca. Nos gestos mecanizados de todos os dias de pousa as chaves, acende a luz, pendura o casaco, já o seu perfume chegara à janela e João teria corrido para a abraçar, esquecendo que era ainda invisível, não fosse o grito histérico de Margarida ter ecoado por todo o apartamento. Margarida gritava, contorcendo-se em poses ridículas, como se possuída por algum espírito malévolo, e correndo em pulos do cimo dos seus saltos altos, desesperava por chegar à sala sem lhes tocar. Estavam por todo o lado!


Rapidamente se colocou em cima de uma das cadeiras da mesa de jantar e sentindo todo o seu corpo arrepiado, parou o olhar, já fragilizado por lágrimas involuntárias, na jaula aberta em cima da mesa. Ao lado um bilhete: Hoje acordei e fiquei a ver-te dormir. O teu rosto enrugado lembrou-me deles e não resisti. Sei que amarás a surpresa, tal qual eu te amo.
Eduardo                                                                                          


                                                              VII


João percebera finalmente que mais valia invisível mas feliz junto da mulher que amava, que visível e  sofrendo os horrores da solidão . Estava convicto que se a química de laboratório falhara , a Química do Amor o faria  sentir-se visível e para ele  a palavra Amor  rimava com uma única mulher : Margarida!


Margarida  que também amara uma  vez  e  guardava consigo as memórias de cada momento vivido com  aquele colega de faculdade que era em si um misto de paixão e  mistério.


No dia em que atirou pelo vão das escadas todos os  pertences de Eduardo  e lhe bateu definitivamente  com a porta, Margarida interrogava-se em que ponto do percurso se perdera a ponto de  dar consigo  casada com ele sem resolver o mistério de João, esse homem   que de noite dormia na sua insónia e  a possuía languidamente, fazendo-a sentir-se culpada de traição na manhã seguinte quando Eduardo  sorridente lhe dava os bons dias.


Estaria isso na origem daquele  presente envenenado  ? - pensava  ela desconhecendo  que João decidira assumir a sua invisibilidade e o seu amor por ela, removendo todos os obstáculos entre ambos. 


Afastado Eduardo, João mudou-se de malas e bagagens .


Os tempos que se seguiram foram de radiosa felicidade. De dia  tudo  planeava  de forma a  satisfazer-lhe  os caprichos  e Margarida acreditava que  uma força divina a compensava de alguma forma pelos anos tortuosos  com Eduardo.


As noites, Margarida nem ousava questionar temendo que a magia desaparecesse!


Certo certo  é que João, vendo a felicidade  de Margarida, era o homem invisível mais feliz do mundomais que qualquer homem visível.


Naquele dia   acompanhou-a a como habitualmente: entrou com ela no elevador ; viu-a  marcar o andar (onde iria ?) ;acercar-se do espelho; morder os lábios que logo  se fizeram rubros; enfiar as mãos em cada uma das copas do soutien  elevando  os seios alvos  e túrgidos  para o decote generoso  e antes que a porta  se abrisse  ensaiar um sorriso que cegou João.


Seguramente iria encontrar-se com algum homem visível  !!!!


Desesperado, em vão tentou impedi-la:  correu à sua frente interpondo-se de braços abertos  entre ela e a porta  onde  luzia a placa : Edmar OliveiraFenómenos Paranormais.   Mas perante o insucesso, invisível, impotente e  mortalmente feridodesmaiou !


 Quando  Edmar  abriu o consultório  convidando-a a entrar, Margarida tinha os olhos cravados no chão e na alma uma  daquelas  sensações estranhamente inexplicáveis que a atormentavam nos últimos tempos: desta vez a de estar a passar sobre um cadáver.                                


VIII


- Falhei novamente!pensou quando acordou, deitado no chão.


- Não percebo, agora nem a Margarida me vê! Em vez de ficar visível, com todos os esforços que fiz, consegui tornar-me ainda mais invisível - constatou. Não conseguira tornar-se visível e não aguentava viver naquele estado de invisibilidade.


Depois de lhe passar a dor de cabeça monumental, concentrou-se de novo no seu problema.


 Ora deixa ver onde é que eu falhei. Eu estava tão seguro de ter descoberto!


Pensou de novo nos ratinhos. O que vislumbrara ao olhar os recém-nascidos, tão inocentes mas tão autênticos (e bem visíveis, deve dizer-se)?


- Ah!! sei!  João despiu-se rapidamente, abriu a porta e saiu para o corredor. Por sorte, topou logo com a Margarida, que saía da sua consulta.


- João!gritouo que estás a fazer aqui nessa figura?endoideceste?  Num relance, viu quebrar-se a imagem romântica que dele fizera recentemente.   


João não disse nada, apenas sorriu.


A pobre Margarida fugiu espavorida, a pensar que estava com alucinações. Aquele homem, a quem ela tinha dado atenção, nem sabe bem porquê, parecia que ia assombrá-la para o resto da vida. Se arrependimento matasselogo que se recompôs do choque foi para casa e marcou uma consulta  num psiquiatra da moda, onde iniciou uma terapia que iria durar por longos anos.


Entretanto, João dava pulos de contente e gritava:


- descobri, descobri


Enquanto se vestia, como que possuído por uma clarividência excecional, discorria que a invisibilidade de muita gente resultava da adoção de um  visual uniformizado, de uma espécie de farda que vestiam, a condizer com uma expressão, sofisticada,cool, mas totalmente impessoal. Para completar estemodo invisível, um discurso de banalidades, em que todos diziam o mesmo, quanto tempo não ouvia nada de original?interrogou-se.


Sim!João está decidido a deixar o anonimato e a exibir a sua personalidade tornando-se de novo visível como quando era muito jovem e ainda não tinha perdidochegado a este ponto, interrompeu-se:


 E Mr. Stein? -Tinha-se esquecido de Mr. Stein! O sorriso luminoso congelou no rosto de João. O americano dera-se a muito incómodo para o impedir de descobrir o segredo da visibilidade. Não ia deixá-lo em paz, com certeza.


- Que fazer? Vamos pensar com lógica - disse para os seus botões não me posso esconder no anonimato. EntãoJoão admirou-se consigo mesmoanimado pela sua recente descoberta, as ideias surgiam em catadupaé lógico o que tenho de fazer para me proteger dos Mr. Stein deste mundo: o contrário do que fazia antes -  tornar-me notado! Participar ativamente em tudo: em casa, no trabalho, com os amigos.  Fazer parte de uma associação que trabalhe em prol de uma causa, de solidariedade, ou de cariz ambiental? Ou enveredar pela política, ou escrever um livro? Ou?  


Satisfeito consigo, João sorriu de novo e correu para a rua.  


                                                                                                                                               FIM

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