V
Em Portugal nos últimos anos têm tido uma adesão extraordinária. Os sócios pertencem a classes profissionais muito específicas: advogados, empresários, banqueiros, autarcas e políticos, construtores, civis, pedófilos que “da lei e da justiça se vão libertando”, recorrendo aos mais fantásticos expedientes: apresentando recursos, dilatando prazos, esgotando prazos, levando os processos até à prescrição; outros levam firmas para uma falência fraudulenta, donos de bancos que desviam fortunas, agentes da política corruptos, crimes de “colarinho branco”, evasões fiscais ou desfalques, não serem julgados e por vezes,até,
fogem do país para evitar a prisão. Isto tudo porque se tornaram invisíveis,
que nem os jornalistas que são pior “que piolho em costura” os conseguem descobrir. Esta nova elite dentro do grupo da CIA, a nível mundial, em crescente exponencial é muito acarinhada.
Mas qual era o caso português que preocupava tanto a CIA? Era o caso do “João”, simplesmente. Este cientista, no seu laboratório, estava quase a conseguir a visibilidade, o que punha em causa os honoráveis sócios da CIA. Muita coisa se ia descobrir e se os invisíveis passavam a ter visibilidade, podia ser altamente desastroso. João já conseguia ratinhos que não desapareciam e depois surgiu-lhe a epifania. Era preciso atuar com urgência e reverter a situação. Na sua invisibilidade Mr. Stein dirigiu-se ao laboratório do João, cuja direção tinha sido fornecida por um dos tais autarcas. João não se encontrava, nem sombra dele. Com os cuidados que tal situação exigia, Stein colado às paredes do laboratório, ia colando um produto branco, tipo plástico, em locais cuidadosamente escolhidos. Fechou a porta do laboratório e encerrou-o com o mesmo material. Saiu rapidamente do local. Colocou-se invisivelmente confortável do outro lado do passeio, a uma distância de segurança. Passado cinco minutos, deu-se uma grande explosão, deflagrando de seguida um incêndio, em todo o prédio da faculdade. O laboratório do João deixara de existir. Pegou no telemóvel e ligou para o diretor afirmando - caso resolvido.
João ria-se, invisivelmente sentado no café em frente da faculdade vendo os bombeiros a chegar. Suspeitava que isto lhe podia acontecer, por isso, guardou em lugar seguro a aparelhagem sofisticada que substituiu por outra já desatualizada. Os dossiers com o know-how, guardou-os em lugar seguro. João, agora podia com segurança mudar de tática e avançar no seu paradigma baseado na epifania.
VI
Observava a
azáfama dos bombeiros, o fumo negro a acumular-se, o zoar das sirenes e a
confusão que se gerava, mas não desesperava. Cedia, no entanto, à ansiedade.
Chegada era a hora de concretizar o seu plano. Martelava no seu pensamento que
apenas lhe restava uma alternativa e temia fracassar.
Não podia perder mais tempo e revia o plano na sua
cabeça a cada passo, no caminho para casa: os fins justificam os meios,
repetia.
Sentado na mesa da sala via o dia escurecer e
sabia que tinha de agir rápido. Deu por si trémulo, inquieto e sorriu
nervosamente com esta insegurança súbita que há muito não o visitava. De papel
e caneta na mão, pensou nos poetas que lera mas concentrou-se na busca de
outras palavras. Ainda que bem escolhidas teriam de surtir o efeito esperado.
Completamente absorvido pela adrenalina, escreveu, de uma vez só, a combinação
de sons que mais lhe pareceu perfeita. Ao dobrar a mensagem, não conseguiu
evitar uma pequena gargalhada, qual menino maroto antevendo o resultado da
malandrice. Está na hora, disse, ao levantar a ninhada na
jaula, e saiu.
Em passo apressado João sentia as gotas de suor
formarem-se na testa, e sentiu-se desconfortável por sentir as mãos igualmente
transpiradas, sem conseguir perceber se tal era resultado dos nervos ou da
noite abafada que se fazia sentir.
Entrou no prédio, outrora tão familiar, sem
qualquer dificuldade e chegado à porta do dito apartamento, ouvia o bater do
coração como se este estivesse fora do peito. Hesitante, ficou quieto a olhar o
vazio do corredor. Que raio faço eu aqui,
recriminou-se. Ao recuar deixou cair o pano que cobria a jaula, expondo as
cobaias que andavam de um lado para o outro, desnorteadas, e sentiu a coragem
renovar-se. Vamos lá, João! Vamos lá!
Rapidamente deslizou a mão pelo interior do vaso decorativo que tão bem
conhecia, que continuava adormecido ao lado do tapete e estremeceu de
contentamento. Nem acredito que ainda a guarda aqui, pensou.
Determinado, retirou a chave suplente e abriu a porta cuidadosamente.
O interior do apartamento estava diferente.
Moderno e irritantemente arrumado. Nada parecido com o ar acolhedor e familiar
de outros tempos. No lugar dos quadros pintados à mão, dependuravam-se agora
fotos de animais e ambientes selvagens. Invadido por uma raiva súbita, João
ergueu a jaula com a ninhada: vão
sentir-se em casa, observou em tom maquiavélico. Olhou o relógio. Não deve tardar a chegar, murmurou.
Deu-se aos últimos preparativos e sentou-se, impaciente, no parapeito da janela.
Ao primeiro tilintar de chaves a porta abriu-se e
João tapou a boca, sentindo-se incapaz de se controlar por muito tempo.
Margarida estava mais bonita do que nunca. Nos gestos mecanizados de todos os
dias de pousa as chaves, acende a luz, pendura o casaco, já o seu perfume
chegara à janela e João teria corrido para a abraçar, esquecendo que era ainda
invisível, não fosse o grito histérico de Margarida ter ecoado por todo o
apartamento. Margarida gritava, contorcendo-se em poses ridículas, como se possuída
por algum espírito malévolo, e correndo em pulos do cimo dos seus saltos altos,
desesperava por chegar à sala sem lhes tocar. Estavam por todo o lado!
Rapidamente se colocou em cima de uma das cadeiras
da mesa de jantar e sentindo todo o seu corpo arrepiado, parou o olhar, já
fragilizado por lágrimas involuntárias, na jaula aberta em cima da mesa. Ao
lado um bilhete: Hoje acordei e fiquei a
ver-te dormir. O teu rosto enrugado lembrou-me deles e não resisti. Sei que
amarás a surpresa, tal qual eu te amo.
Eduardo
VII
João percebera finalmente que mais valia invisível mas feliz junto da mulher que amava, que visível e sofrendo os horrores da solidão . Estava convicto que se a química de laboratório falhara , a Química do Amor o faria sentir-se visível e para ele a palavra Amor rimava com uma única mulher : Margarida!
Margarida que também só amara uma vez e guardava consigo as memórias de cada momento vivido com aquele colega de faculdade que era em si um misto de paixão e mistério.
No dia em que atirou pelo vão das escadas todos os pertences de Eduardo e lhe bateu definitivamente com a porta, Margarida interrogava-se em que ponto do percurso se perdera a ponto de dar consigo casada com ele sem resolver o mistério de João, esse homem que de noite dormia na sua insónia e a possuía languidamente, fazendo-a sentir-se culpada de traição na manhã seguinte quando Eduardo sorridente lhe dava os bons dias.
Estaria isso na origem daquele presente envenenado ? - pensava ela desconhecendo que João decidira assumir a sua invisibilidade e o seu amor por ela, removendo todos os obstáculos entre ambos.
Afastado Eduardo, João mudou-se de malas e bagagens .
Os tempos que se seguiram foram de radiosa felicidade. De dia tudo planeava de forma a satisfazer-lhe os caprichos e Margarida acreditava que uma força divina a compensava de alguma forma pelos anos tortuosos com Eduardo.
As noites, Margarida nem ousava questionar temendo que a magia desaparecesse!
Certo certo é que João, vendo a felicidade de Margarida, era o homem invisível mais feliz do mundo… mais que qualquer homem visível.
Naquele dia acompanhou-a a como habitualmente: entrou com ela no elevador ; viu-a marcar o 7º andar (onde iria ?) ;acercar-se do espelho; morder os lábios que logo se fizeram rubros; enfiar as mãos em cada uma das copas do soutien elevando os seios alvos e túrgidos para o decote generoso… e antes que a porta se abrisse …
ensaiar um sorriso que cegou João.
Seguramente iria encontrar-se com algum homem visível !!!!
Desesperado, em vão tentou impedi-la: correu à sua frente interpondo-se de braços abertos entre ela e a porta onde luzia a placa : Edmar Oliveira – Fenómenos Paranormais. Mas perante o insucesso, invisível, impotente e mortalmente ferido… desmaiou !
Quando Edmar abriu o consultório convidando-a a entrar, Margarida tinha os olhos cravados no chão e na alma uma daquelas sensações estranhamente inexplicáveis que a atormentavam nos últimos tempos: desta vez a de estar a passar sobre um cadáver.
VIII
- Falhei novamente! – pensou quando acordou, deitado no chão.
- Não percebo, agora já nem a Margarida me vê! Em vez de ficar visível, com todos os esforços que fiz, só consegui tornar-me ainda mais invisível - constatou. Não conseguira tornar-se visível e já não aguentava viver naquele estado de invisibilidade.
Depois de lhe passar a dor de cabeça monumental, concentrou-se de novo no seu problema.
– Ora deixa cá ver onde é que eu falhei. Eu estava tão seguro de ter descoberto!
Pensou de novo nos ratinhos. O que vislumbrara ao olhar os recém-nascidos, tão inocentes mas tão autênticos (e bem visíveis, deve dizer-se)?
- Ah!! já sei! João despiu-se rapidamente, abriu a porta e saiu para o corredor. Por sorte, topou logo com a Margarida, que saía da sua consulta.
- João! – gritou – o que estás a fazer aqui nessa figura? – endoideceste? Num relance, viu quebrar-se a imagem romântica que dele fizera recentemente.
João não disse nada, apenas sorriu.
A pobre Margarida fugiu espavorida, a pensar que estava com alucinações. Aquele homem, a quem ela tinha dado atenção, nem sabe bem porquê, parecia que ia assombrá-la para o resto da vida. Se arrependimento matasse… logo que se recompôs do choque foi para casa e marcou uma consulta num psiquiatra da moda, onde iniciou uma terapia que iria durar por longos anos.
Entretanto, João dava pulos de contente e gritava:
- descobri, descobri…
Enquanto se vestia, como que possuído por uma clarividência excecional, discorria que a invisibilidade de muita gente resultava da adoção de um visual uniformizado, de uma espécie de farda que vestiam, a condizer com uma expressão, sofisticada, “cool”, mas totalmente impessoal. Para completar este “modo invisível”, um discurso de banalidades, em que todos diziam o mesmo, há quanto tempo não ouvia nada de original? – interrogou-se.
– Sim! – João está decidido a deixar o anonimato e a exibir a sua personalidade tornando-se de novo visível como quando era muito jovem e ainda não tinha perdido… chegado a este ponto, interrompeu-se:
– E Mr. Stein? -Tinha-se esquecido de Mr. Stein! O sorriso luminoso congelou no rosto de João. O americano dera-se a muito incómodo para o impedir de descobrir o segredo da visibilidade. Não ia deixá-lo em paz, com certeza.
- Que fazer? Vamos pensar com lógica - disse para os seus botões – já não me posso esconder no anonimato. Então… João admirou-se consigo mesmo – animado pela sua recente descoberta, as ideias surgiam em catadupa – é lógico o que tenho de fazer para me proteger dos Mr. Stein deste mundo: o contrário do que fazia antes - tornar-me notado! Participar ativamente em tudo: em casa, no trabalho, com os amigos. Fazer parte de uma associação que trabalhe em prol de uma causa, de solidariedade, ou de cariz ambiental? Ou enveredar pela política, ou escrever um livro? Ou…?
Satisfeito consigo, João sorriu de novo e correu para a rua.
FIM
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