I
A sua invisibilidade dava-lhe segurança. Gostava particularmente dos elevadores dos prédios altos e com muitos escritórios. Aí, ficava horas a fio, subindo e descendo, descendo e subindo, escutando as conversas secretas dos executivos, testemunhando o assédio dos homens impacientes às secretárias bonitas, espantando-se com as mulheres maduras, que, atrevidas, entre o 2º andar e o rés-do-chão, seduziam rapazes inexperientes. Já tinha visto tanta coisa que nada o surpreendia, como daquela vez em que a insuspeitável esposa do senhor advogado retirou do decote o capachinho do contabilista da casa de penhores. Momentos destes, faziam parte das recordações do homem invisível, que para tudo olhava com olhos muito abertos e de tão perto que sempre estava, sentia-se um verdadeiro observador participante.
Muitas e muitas vezes, tão concentrado na sua tarefa de observador, desaparecia durante dias, empenhado que estava em não perder o desfecho, feliz ou infeliz, do casal de namorados desavindos que, entre discussões e beijos, desenhavam o seu futuro; outras vezes, seguia as vizinhas zangadas, instalava-se na casa de uma ou de outra, onde escutava os desabafos que tinham com os maridos, inspeccionava-lhes os frigoríficos, mirava-lhes as gavetas, desvendava-lhes os mais íntimos segredos e até as estratégias de desforra.
Outras vezes passava longos períodos sem comer, porque adormecia, cansado, dentro de um armário e acordava desnorteado e confuso, sem se lembrar de como tinha chegado àquele lugar e àquelas vidas desarrumadas. Sentia-se íntimo das pessoas que observava e, por vezes, sentia-se ele próprio parte interveniente da acção. Foi o que se passou no dia em que ele viu a Marlene, a mulher do Rui, o seu melhor amigo de sempre, a encontrar-se em desvelos apaixonados com o Aurélio, o camionista de longo curso. O homem invisível ficou quase visível de tanto espanto, porque o sangue lhe subiu à face, de tanta indignação e revolta que sentia. E lá estava a doce e delicada Marlene com o seu corpo quente e nacarado, tremelicando de paixão como uma virgem, abandonada no colo daquele machão peludo e tatuado.
II
O homem invisível chegou a casa, bateu com a porta, sentou-se na mesa da cozinha e deu meia dúzia de murros na parede de tão zangado que estava. Aquela cabra não merece o Rui, pensou ele. Ficou tão incomodado com a cena que esteve vai-não-vai para agarrar no telefone e ligar ao seu amigo.
Respirou fundo e rapidamente percebeu que a vingança se serve fria. Concentrou-se no seu próximo objetivo. Dar cabo da vida da Marlene. Essa loira depravada tinha de aprender o que é a fidelidade Dirigiu-se à Faculdade de Ciências, ao laboratório do Prof. David Wright que estava a desenvolver um estudo científico sobre o prazer sexual nas mulheres e as suas implicações na produtividade. Vasculhou os apontamentos, o material que encontrou na mesa de trabalho e copiou para uma pen a informação que descobriu no computador. Verificou que tinha de voltar lá muitas noites para perceber o estudo, mas isso não era problema.
O que ele queria, era que oestudo estivesse numa fase avançada para rapidamente por em prática o seu plano. Depois de muito procurar encontrou uma pista muito importante que o Professor, inadvertidamente, deixou ao acaso. O homem invisível ficou esfusiante de alegria. O frasco tinha uma etiqueta que dizia: antídoto para o prazer sexual. Era um líquido viscoso, incolor e inodoro. O homem invisível levou consigo o frasco e durante uma semana foi viver para casa do seu amigo Rui e da Marlene.
O líquido viscoso passou a fazer parte das refeições da Marlene, até esvaziar o frasco. Só ao fim de alguns dias é que o Prof. David Wright deu falta do frasco do antídoto, mas não se preocupou muito, porque o frasco que continha o líquido que estimulava a atividade sexual estava bem guardado no cofre do seu gabinete. Metade do segredo ainda estava bem guardado e os estudos podiam continuar. Quando o Rui chegou ao laboratório nesse dia, o Prof. comentou com ele o sucedido.
O Rui ficou muito embaraçado e tentou disfarçar o melhor que pode o seu nervosismo. A sua cabeça pensou que se calhar tinha levado o frasco errado para casa e a Marlene, que ainda devia estar a ser drogada com o estimulante, já tinha passado à fase seguinte que era testar o antídoto. Ficou muito zangado consigo mesmo por ter alterado involuntariamente o plano estabelecido, mas agora só lhe restava uma solução, que era estudar o desempenho produtivo da Marlene perante a inibição da atividade sexual. Depois de um mês de observação chegou à conclusão de que sem atividade sexual a produtividade tinha baixado e o mesmo resultado foi constatado nas outras cobaias.
O homem invisível, para além de invisível sentia-se um super homem com poderes especiais. A Marlene tinha deixado de por os palitos ao seu amigo Rui e tinha perdido todo o brilho de mulher sedutora. Todo emocionado, foi ter com o seu amigo para lhe contar qual era o seu futuro trabalho, quando deu de caras com o Rui e o Prof. Wrigt a beijarem-se na boca e a trocarem carícias. O homem invisível deu meia volta, saiu do laboratório e foi pelo corredor fora a rir que nem um tolo.
Respirou fundo e rapidamente percebeu que a vingança se serve fria. Concentrou-se no seu próximo objetivo. Dar cabo da vida da Marlene. Essa loira depravada tinha de aprender o que é a fidelidade Dirigiu-se à Faculdade de Ciências, ao laboratório do Prof. David Wright que estava a desenvolver um estudo científico sobre o prazer sexual nas mulheres e as suas implicações na produtividade. Vasculhou os apontamentos, o material que encontrou na mesa de trabalho e copiou para uma pen a informação que descobriu no computador. Verificou que tinha de voltar lá muitas noites para perceber o estudo, mas isso não era problema.
O que ele queria, era que oestudo estivesse numa fase avançada para rapidamente por em prática o seu plano. Depois de muito procurar encontrou uma pista muito importante que o Professor, inadvertidamente, deixou ao acaso. O homem invisível ficou esfusiante de alegria. O frasco tinha uma etiqueta que dizia: antídoto para o prazer sexual. Era um líquido viscoso, incolor e inodoro. O homem invisível levou consigo o frasco e durante uma semana foi viver para casa do seu amigo Rui e da Marlene.
O líquido viscoso passou a fazer parte das refeições da Marlene, até esvaziar o frasco. Só ao fim de alguns dias é que o Prof. David Wright deu falta do frasco do antídoto, mas não se preocupou muito, porque o frasco que continha o líquido que estimulava a atividade sexual estava bem guardado no cofre do seu gabinete. Metade do segredo ainda estava bem guardado e os estudos podiam continuar. Quando o Rui chegou ao laboratório nesse dia, o Prof. comentou com ele o sucedido.
O Rui ficou muito embaraçado e tentou disfarçar o melhor que pode o seu nervosismo. A sua cabeça pensou que se calhar tinha levado o frasco errado para casa e a Marlene, que ainda devia estar a ser drogada com o estimulante, já tinha passado à fase seguinte que era testar o antídoto. Ficou muito zangado consigo mesmo por ter alterado involuntariamente o plano estabelecido, mas agora só lhe restava uma solução, que era estudar o desempenho produtivo da Marlene perante a inibição da atividade sexual. Depois de um mês de observação chegou à conclusão de que sem atividade sexual a produtividade tinha baixado e o mesmo resultado foi constatado nas outras cobaias.
O homem invisível, para além de invisível sentia-se um super homem com poderes especiais. A Marlene tinha deixado de por os palitos ao seu amigo Rui e tinha perdido todo o brilho de mulher sedutora. Todo emocionado, foi ter com o seu amigo para lhe contar qual era o seu futuro trabalho, quando deu de caras com o Rui e o Prof. Wrigt a beijarem-se na boca e a trocarem carícias. O homem invisível deu meia volta, saiu do laboratório e foi pelo corredor fora a rir que nem um tolo.
III
Enquanto caminhava pelo corredor ia aos poucos e poucos caindo em si, nas consequências daquilo que tinha feito e o que teria que fazer para remediar a situação. Subitamente o riso descontrolado deu lugar a um semblante carregado. Talvez fosse hora de parar, de deixar de tentar mudar o destino dos outros e tentar escrever o seu próprio destino.
Foi aí, enquanto descia os degraus da escadaria da faculdade, que decidiu mudar o rumo da sua vida. Estava na hora de parar de tentar fazer o papel de Deus, de se esconder na sua invisibilidade e de deixar de viver a vida dos outros como se da sua própria vida se tratasse.O homem invisível, já fora outrora um homem como outro qualquer. Já teve um nome, um rosto e uma vida.
Mas afinal, o que era ele agora então? O resultado de uma experiência mal feita, que lhe levou o corpo e deixou a alma? Terá morrido e agora é uma alma penada?
Foi aí, enquanto descia os degraus da escadaria da faculdade, que decidiu mudar o rumo da sua vida. Estava na hora de parar de tentar fazer o papel de Deus, de se esconder na sua invisibilidade e de deixar de viver a vida dos outros como se da sua própria vida se tratasse.O homem invisível, já fora outrora um homem como outro qualquer. Já teve um nome, um rosto e uma vida.
Mas afinal, o que era ele agora então? O resultado de uma experiência mal feita, que lhe levou o corpo e deixou a alma? Terá morrido e agora é uma alma penada?
O homem invisível não era nada disso.
João, assim era o seu nome, perdeu a vontade de viver há muitos anos atrás. Desistiu de tentar que alguém reparasse em si, no seu trabalho e em tudo de bom que ele tinha. Ele sempre se sentiu como se ninguém desse pela sua presença, até que aos poucos e poucos foi ficando verdadeiramente invisível.
Ele era mais feliz assim. Pelo menos podia entrar na vida dos outros sem que lhe batessem com a porta na cara. Mas estava na hora de ser alguém de carne e osso novamente. Todos estes anos que passou a observar a vida de tanta gente iam servir para agora construir a sua.
Desta vez ele não se ia resignar, ninguém mais o poderia deitar abaixo. A verdade é que ainda continuava a sentir-se partido e agora era altura de procurar todos os pedacinhos de si. Só tinha que se dar ao trabalho de saber onde os procurar. Talvez não estivessem debaixo dos lençóis da Margarida, que ele tanto amou, talvez estivessem no seu escritório, no banco ou com algum vizinho.
IV
Já não se lembrava de como tinha ficado totalmente invisível. João sempre fora o que os americanos designam por low profile. Ninguém dava por ele nas aulas e nas festinhas da escola cabia-lhe sempre um papel insignificante. Como dizia a sua avozinha, entrava mudo e saía calado.
Na faculdade era o “cromo” de serviço. Só se lembravam dele para ajudar em grupos de estudo ou para lhes fazer os trabalhos. Daquela vez em que esteve doente por mais de uma semana apenas Margarida deu pela sua falta. A partir desse momento, só aos olhos dela se sentia visível e, durante os anos em que durou a relação, ele foi verdadeiramente feliz. Mas, quando Eduardo, o Engº Zootécnico, lhe arrebatou a mulher dos braços, as já ténues linhas de visibilidade do João, começaram a desvanecer-se. Lembrou-se que teria sido aí o começo de tudo, mas nunca soube exatamente como.
Preciso de começar por aí, pensa. Entender que raio de Lei da Física quebrei para chegar a este estado. Sim, ele que havia sido Doutorado com distinção em Física Quântica, não conseguia perceber o que lhe tinha sucedido.
Dos seus anos de invisibilidade resultou o amealhar de uns trocos jeitosos. Afinal, nem o braço das Finanças lhe conseguia chegar. Resolveu-se, então, a apresentar candidatura a uma bolsa de investigação, na ânsia de descobrir o antídoto para a sua peculiar condição.
Na faculdade era o “cromo” de serviço. Só se lembravam dele para ajudar em grupos de estudo ou para lhes fazer os trabalhos. Daquela vez em que esteve doente por mais de uma semana apenas Margarida deu pela sua falta. A partir desse momento, só aos olhos dela se sentia visível e, durante os anos em que durou a relação, ele foi verdadeiramente feliz. Mas, quando Eduardo, o Engº Zootécnico, lhe arrebatou a mulher dos braços, as já ténues linhas de visibilidade do João, começaram a desvanecer-se. Lembrou-se que teria sido aí o começo de tudo, mas nunca soube exatamente como.
Preciso de começar por aí, pensa. Entender que raio de Lei da Física quebrei para chegar a este estado. Sim, ele que havia sido Doutorado com distinção em Física Quântica, não conseguia perceber o que lhe tinha sucedido.
Dos seus anos de invisibilidade resultou o amealhar de uns trocos jeitosos. Afinal, nem o braço das Finanças lhe conseguia chegar. Resolveu-se, então, a apresentar candidatura a uma bolsa de investigação, na ânsia de descobrir o antídoto para a sua peculiar condição.
Conseguida que foi a dita bolsa, associada ao pecúlio já existente, João tratou de arranjar um laboratório onde dar início aos trabalhos. Na cave da Faculdade de Ciências, montou uma salinha onde instalou o computador, o espectrómetro de cintilação, o PCR, o microscópio eletrónico e uma jaula com meia dúzia de ratinhos. Sentia pena das pequenas cobaias, mas tinha que ser. É por uma causa maior, pensava. Pelo direito à visibilidade! Comprou também todos os reagentes de que se lembrou e começou as experiências.
Durante meses não abandonou aquela sala. Comia o que arrancava a troco de poucos euros da máquina de Vending instalada ao fundo do corredor e dormia no chão, agarrado à jaula dos seus ratinhos. A barba e o cabelo cresceram-lhe a níveis impensáveis até para Robinson Crusoe, o seu herói da infância e, debaixo dos olhos, instalaram-se umas crateras cinzentas que outrora haviam sido simplesmente olheiras. Estava pálido, macilento e magro, mas nada o fazia vacilar. Seria visível novamente. Só que o tempo ia passando e nem uma cauda de ratinho desaparecia. As linhas destes pequenos roedores mantinham-se tão sólidas como no início da experiência. Foi então que, ao observar com atenção uma das recentes ninhadas de ratinhos, teve uma epifania. E resolveu mudar de táctica.
Durante meses não abandonou aquela sala. Comia o que arrancava a troco de poucos euros da máquina de Vending instalada ao fundo do corredor e dormia no chão, agarrado à jaula dos seus ratinhos. A barba e o cabelo cresceram-lhe a níveis impensáveis até para Robinson Crusoe, o seu herói da infância e, debaixo dos olhos, instalaram-se umas crateras cinzentas que outrora haviam sido simplesmente olheiras. Estava pálido, macilento e magro, mas nada o fazia vacilar. Seria visível novamente. Só que o tempo ia passando e nem uma cauda de ratinho desaparecia. As linhas destes pequenos roedores mantinham-se tão sólidas como no início da experiência. Foi então que, ao observar com atenção uma das recentes ninhadas de ratinhos, teve uma epifania. E resolveu mudar de táctica.
(continua em Homem Invisivel 2)
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