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domingo, 23 de dezembro de 2012

16 - A Guitarra


                                                                                                                                                                              por Godiva

Durante toda a minha infância acreditei que a música lhe saía pelos dedos. Uns dedos longos e finos, numas mãos brancas e magras bordadas a veias salientes.
Só já no limiar da adolescência percebi que o som era o agradecimento que aquelas 10 cordas lhe devolviam, vibrando ao sabor do seu ágil dedilhar.
Aprendera a tocar cumprindo a tradição dos homens da família. A ele coubera-lhe como professor seu padrinho que por morte de meu avô se tornara seu tutor e lhe dera a primeira Guitarra.
Aprendidos os primeiros acordes, mergulhara com uma tal avidez no mar da música, que a ele sempre voltava refugiando-se horas a fio sozinho, alheio à presença dos outros, repetindo frequentemente uma melodia vezes sem conta até que lhe parecesse perfeita, surdo para todos os ruídos, mudo para todas as perguntas, olhando-nos com um olhar vazio como habitando um outro lugar.
Minha mãe durante anos não lhe deu qualquer valor . Só lho viria a reconhecer já muito perto do fim, como se eminência da partida a ensinasse lentamente a valorizar os seus dotes. Durante muito tempo houvera entre ela e a Guitarra uma relação de profundo ciúme. Tenho para mim que ela preferiria, talvez, que meu pai apenas a cingisse a ela com aquela delicadeza com que retirava a Guitarra do seu estojo de pele forrado a veludo encarnado, e só a ela abraçasse e acariciasse com a aquela ternura. Mas meu pai repartia os seus afetos entre as duas e até ao fim da sua vida não deixou de amar nenhuma delas.
Confesso que eu própria ao entrar na adolescência desenvolvi uma espécie de rancor por aquele objeto que nos roubava o silêncio da casa e a atenção de meu pai. Em várias ocasiões destilava o meu ódio em frases de absoluto desprezo pelo Fado que, longe de imaginar vir a ser um dia Património da Humanidade, era incompatível com uma geração que descobria Pink Floyd . Mas passada essa idade da contestação, confesso também que muitas vezes, sem que ele percebesse, observava com um misto de deslumbramento e inveja a sua simbiose com aquele instrumento, desejando que a vida me fizesse encontrar alguma coisa ou alguém capaz de arrancar de mim uma dedicação semelhante.
Hoje, as suas mãos calaram-se para todo o sempre!
Coube-me em herança a sua Guitarra. Verdadeiro símbolo da Saudade, jaz agora num recanto da casa numa silenciosa inutilidade .
Há dias em que na calada da noite me parece ouvi-la chorar. Nesses momentos o seu pranto crava na minha alma a culpa de representar uma geração incapaz de fazer perpetuar as tradições e, achando que talvez algures ele possa ler os meus pensamentos , peço-lhe perdão por isso e por tudo que deixei por lhe dizer.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

15 - "O Bobo da Corte” ou “O Poder da Informação"





                                                                                                             por Lordopio

Os políticos têm fama de gente pouco recomendável que até pode não ter respetivo proveito mas que ainda assim os marca indelevelmente. Esta história, vem trazer à reflexão o necessário contraditório não da perspetiva moral e ética – sobre essa estamos conversados –mas antes da estupidez que os impede de pensar com o discernimento inerente e que pode atingir proporções gigantescas. Para mim, é angustiante ter que admitir que um político para além de potencialmente corrupto ou suscetível a favores ilícitos ainda venha com um banho de estupidez que não lhe permita refletir sobre questões elementares.
O ministro, sai de casa com passo apressado e nem se preocupa em bater a porta.
Entra no automóvel do Estado que lhe foi destacado e o motorista bate a porta o que revela muito no que diz respeito à cortesia desta classe. Dá indicações quanto à morada de destino e fica o motorista – e nós que estamos a ler este conto – a saber como vai ser a manhã. De facto não tem nada de novo uma vez que esse destino é o mesmo há oito meses e é invariavelmente o Ministério. Pede pressa por causa de um encontro, o que tem repetido invariavelmente nestes tais últimos meses. Os homens tem tendência para perder capacidades com a idade e ficámos a saber que os políticos mais que todos os outros. Daí a concluirmos que é uma profissão de desgaste rápido pede prudência e atenção tendo em conta, por exemplo, os assaltantes de ATM’s que utilizam substâncias altamente explosivas e tóxicas no seu trabalho diário, sem qualquer garantia de êxito.
Entra no seu gabinete, vislumbra o séquito que o espera e pergunta – a ninguém especialmente – se o “homem” das comunicações já tinha chegado. A sua secretária responde do fundo da indiferença bem disfarçada pelos anos que sim, já o aguardava no gabinete.
“Olá, bom dia, então como está!” e dirige-se ao secretário de estado das comunicações terrestres que se levanta como uma mola potente. “Perfeitamente, Senhor Ministro! Muito obrigado”.
“Então, já tem tudo consigo?”.
“Sim, Senhor Ministro. Faça a fineza de reparar” e exibe um telemóvel com ar simples mas que nos deixa a nós leitores de contos e histórias policiais com a desconfiança de que tem capacidades nucleares. “Se pretender, passo a explicar como funciona.”
“Oh Senhor Secretário de Estado! Pensa que tenho tempo para isso? Quando, daqui a uns anos, eventualmente chegar ao meu lugar, irá perceber que nós não temos tempo para essas coisas!”
“Claro que sim, Senhor Ministro, peço desculpa pela minha ousadia. Diga-me, por obséquio o que pretende e eu executarei! O que puder fazer para o aliviar deste fardo ingrato será feito com muito prazer”.
“Obrigado. É simples. Quero um toque diferente para cada tipo que me ligar, pode ser, não pode?”. “Claro Excelência!”, responde um secretário de estado que pensa lá com ele, deixa-me ser secretário de estado que estou melhor que tu, porque tenho tudo o que quero com muito menos chatices… Pena que estes homens sejam tão cinicamente eficazes porque dariam excelentes primeiros-ministros.
E após longas horas, “… e agora para certos fulanos, ponha o toque do… sei lá o que há-de ser… o do 112! Se houver! Esses tipos só me trazem chatices… pode ser? Arranja aí um toque de 112?”.
O governo comemorava um ano de eleição num conselho de ministros especial. O ministro ao lado do secretário de estado das comunicações terrestres e com uma  jovem despida entre eles está a discursar com a balofa eloquência que o caracteriza. Indiferente ao que diz, absolutamente indiferente, o secretário de estado das comunicações terrestres sorri sereno.
Ainda o dia ia a meio e já tinha uma lista mental de todas as pessoas que tinham ligado ao ministro.
Fim, com uma lição de moral: se puderes, sê bobo em qualquer circunstância. É a profissão mais importante, em qualquer parte do mundo, civilizado ou não.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

14 - Por amor que não convém - Nasce muito mal e pouco bem


                                                                                                                                  Por Célio Passos

Pascoal Leite rondava os 50 anos. Tinha uma formatura de gestão de empresas e já há duas décadas e meia tinha formado a sua primeira empresa informática de hardware e software que teve um sucesso meteórico. A firma continuava em elaboração com dez trabalhadores com volume de negócios elevado.
Era administrador geral de uma  empresa editorial  “ Livros Amigos”, que estava em plena expansão e com bastante sucesso.  Para além, destas duas firmas, era administrador em outras  empresas. Era um workaholic, não delegava os assuntos mais importantes, controlava com mão de ferro todas as empresas.
Ultimamente,Pascoal Leite sentia-se depressivo, desconcentrado, andava com maus  pressentimentos. Pensou, mas rejeitou a ideia de ir ao psiquiatra, resolveria o problema qual fosse  a sua natureza. Seria mais proveitoso ir ao otorrino, para ver se livrava daquela tosse seca, que aparecia de repente e  às horas mais inconvenientes.
No seu gabinete Pascoal Leite voltou a absorver-se no trabalho. Era muito desconfiado e o sucesso que teve na sua variada atividade, torno-o num individuo muito introvertido, sem grande vida social, a não ser a que os compromissos de trabalho obrigavam. Tornou-se um homem só, macambúzio. A riqueza que acumulou durante estes anos , transformou-o num ser invejado e odiado pelos seus concorrentes. Tornou-se escravo do vil metal e só pensava em aumentar os proventos das empresas, e indiretamente, o seu património. Passou a ser obsessiva esta situação.
Era casado desde os 25 anos com uma colega de curso, uma mulher de dotes de beleza invejáveis, que ocupava o tempo  em reuniões sociais e a ser fotografada para revistas cor-de-rosa,ou, em ações humanitárias cuja função era dar o nome e dinheiro que arrancava ao marido. Como não tinha descendência, como a relação matrimonial há muito tinha acabado e, como encarava a hipótese, de um momento para outro, ela vir a pedir o divórcio, aterrorizava-lhe a ideia de repartir os bens com a esposa. Por isso, contratou um detetive para seguir a mulher, porque dizia que estava a ser traído.
O detetive passado quinze dias, fez-lhe um relatório circunstanciado, revelando que nada de anormal se passava, que não existia ninguém na vida dela e que despendia o tempo em atividades  que ele tinha conhecimento. Ficou desapontado.  Tinha que haver uma solução.
Pascoal Leite a conselho do seu redator da empresa “Livros Amigos”, sabendo que ele tinha um diário muito completo sobre a sua vida, tanto pessoal como profissional, propôs-lhe editar a sua biografia; de um empresário de grande sucesso com a vida recheada de grandes acontecimentos, porque, dizia o redator, seria um êxito de vendas.  Pascoal Leite recusou liminarmente. Não deu explicações para a sua recusa.
O diário era o seu  livro amigo,o seu confidente. Tinha um relacionamento empático com o diário, quando nele redigia as suas frases, quase diariamente, era como contasse ao seu pai, já falecido, por quem tinha enorme admiração, os seus problemas, as suas dúvidas,as suas idiossincrasias.
O seu diário, que já ia num terceiro volume, estranhamente, não tinha nada escrito de um mês a esta parte, e o último texto era deveras preocupante.
Os diários estavam guardados numa gaveta fechada a sete chaves, e era alvo da curiosidade da esposa, que fez várias tentativas, algumas diretas outras indiretas, para que ele a deixasse ler.  Pascoal sempre recusou, alegando ser do íntimo pessoal.
Um dia, descuidou-se, ou talvez não,  esqueceu-se por breves horas as chaves em cima da cómoda, e a esposa teve oportunidade de fazer uma cópia em plasticina que depois transformaria numa chave verdadeira. Quando teve oportunidade a esposa fez a cópia da chave.
Sabendo que naquela noite ele não dormia em casa, disse que ia a um congresso e que ficava no hotel, Ivone deslocou-se ao escritório e abriu a gavetas dos diários. Retirou o último e abriu-o.
Dia 17 -  Estou a passar uma fase difícil da minha vida. Nem tudo está a correr conforme previsto. O meu casamento está moribundo. Não tenho prazer de estar com a minha esposa. É estranho, mas tenho a sensação que ela me odeia...ou talvez seja impressão minha. Esteja eu presente ou ausente, para ela é o mesmo. Só pensa no meu dinheiro. Não me surpreenderia nada que ela venha a pedir o divórcio. Era catastrófico. Ter que dividir os meus bens com alguém que nada fez para conseguir algo que fosse. O detetive que contratei não descobriu nada de anormal, tive esperanças, era um processo de me livrar dela sem grandes custos. Mas mesmo assim ela receberia uma quantia considerável, já que de propriedade dela não tem nada, e o tribunal penalizar-me-ia. Tem que haver uma solução!.” 
Ivone fechou o diário meteu-o na gaveta e fechou-a. Estava perplexa e ao mesmo aterrorizada. O que se ia passar? o diário não explicava qual as intenções do marido.
Para se descontrair foi tomar um banho de imersão com sais. Ligou o termo-ventilador, como de costume, colocado numa mesa junto à banheira, mergulhou na tépida água e acionou o jacuzzi.
A porta do quarto de banho, abriu-se ligeiramente, sem que Ivone desse conta, e um cabo de um guarda-chuva empurrou o termo-ventilador, ligado, na direção da banheira. A queda foi inevitável. Seguiu-se um grito estridente. A eletricidade da casa, periclitou, e por fim  foi abaixo.
No rés de chão, ouviu-se uma tosse seca, meia disfarçada.

Devagar, uma mão enluvada, fechou a porta da rua.

                                                                                                                                                   FIM

 

 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

13 - Não era uma Escadaria qualquer (outros contos)


                                                                                                                Por  Helena João
         Aquela escadaria de traquinices, ladeada por um corrimão de travessuras, não era uma escadaria qualquer. Poderia, erradamente, pensar-se que uma escadaria tem como fito universal, servir de ligação entre pisos. Ser somente o meio de alcançarmos um piso superior, quando estamos cá em baixo, ou descermos ao piso de baixo, se estivermos lá em cima. Isso até pode ser verdade para a maioria das escadarias, mas no que àquela diz respeito, não.
         Aquela escadaria que habitava a casa antiga da avó, servia para muito mais. Nela fui polícia, subindo os degraus quatro-a-quatro atrás do larápio que roubou as jóias da coroa britânica. E também fui ladrão, escorregando pelo corrimão abaixo, a fugir do polícia. Naquela escadaria fui pescador. Um nagalho comprido com um clip desdobrado na ponta eram as ferramentas ideais para, do alto da escadaria, alcançar o chaveiro e, uma a uma, pescar todas as chaves sem ninguém dar por nada. E era vital que, em especial, a avó, não desse por nada. Havia ali chaves importantes, achava eu. Chaves que abriam portas secretas e baús de tesouros. A avó julgava tratarem-se apenas das chaves de casa de todos os elementos da família. As cópias suplente, as chaves de segurança, caso alguém um dia ficasse fechado cá fora. Mas o que sabe uma avó?
         Naquela escadaria montei uma armadilha para ursos. Coisa elaborada a minha
armadilha. Uma corda presa, lá em cima no corrimão do corredor, que caía até ao chão do piso inferior. Aí fechava-se em nó de laçada, disfarçado por folhas secas e pauzinhos. É claro que agora, à distância dos anos, percebo que folhas e pauzinhos não fossem a camuflagem ideal para uma corda pousada num chão de madeira envernizada. E que se calhar foi por isso que a avó nunca tropeçou na corda. Dava sempre um saltinho por cima dela. E eu ficava ali horas esquecidas - ou minutos -, a segurar a corda na outra ponta, à espera que o urso lá pousasse a pata, para eu puxar a corda e deixar o animal pendurado de cabeça para baixo. Coisa que também nunca aconteceu. Ao que parece não há relatos de ursos à solta na Cidade do Porto, nem há trinta anos, nem agora. Por isso tu, meu filho, sobe as escadas quatro-a-quatro, escorrega pelo corrimão, pesca chaves de tesouros com nagalhos e clipes, mas não montes armadilhas para ursos. Inventa outra traquinice qualquer, mas não montes a armadilha. É que a avó é velhinha e pode tropeçar e cair.

 

domingo, 25 de novembro de 2012

12 - A Minha Pistola de Fulminantes (outros contos)


 

  
                                                                                      Por Lordopio
Quando era criança tive uma pistola de fulminantes.
Outros miúdos tinham outras coisas, outros objetos, outras preferências: triciclos, soldadinhos de chumbo, carrinhos, bonecos, folhas secas dentro de livros que eram estufas de folhas mortas – todos tinham qualquer coisa com que cresciam.
Eu tinha uma pistola de fulminantes e também tinha outras coisas como triciclos ou soldadinhos de chumbo ou carrinhos, mas era da pistola de fulminantes que eu gostava.
Quando tinha a pistola de fulminantes sentia-me poderoso, capaz de ditar sentenças, poupar vidas e determinar mortes. Mortes a brincar por fora, mas que por dentro matavam mesmo. Eu gostava da minha pistola de fulminantes: Pás! Pás! O tiro era estridente, vibrava-me o corpo e estremecia a mão. Pás! Pás! Apontava aos meus amigos – os visíveis e os invisíveis que o meu poder não diferenciava nem favorecia – e disparava à queima-pele: “Tu morreste! Matei-te! Estás morto!”
O sangue não escorria: só o meu orgulho. Era tão novo e tinha tanto poder!
De vez em quando a minha mãe castigava-me e tirava-me a pistola ou então não tinha dinheiro para fulminantes e ficava aflito e sentia-me frágil. Não sentia poder e os outros meninos podiam matar-me. Quantos não me atingiram mortalmente o ego e o orgulho com tiros certeiros e poderosos de armas de plástico, algumas com água e outras sem nada, só com o poder de matar outras crianças, sem escorrer sangue.
Nunca percebi que aquela pistola que matava crianças que não sangravam era o reflexo cultural de homens que usavam armas que matavam outros homens que sangravam muito.
Havia muita dor nos olhares e nas caras, mas eu nunca percebi que a minha pistola era a versão infantil daquelas e choro muito quando penso nisso e quando vejo homens mortos por armas a sério de que a minha era uma versão infantil e que nunca percebi que era mesmo para matar não crianças, que não sangravam, mas homens que morriam mesmo. E eu nunca percebi. E porque me deram aquele brinquedo? Porque não me explicaram que era uma versão infantil de uma que matava com sangue?
E, horror dos horrores! também matava crianças que eu pensava que não sangravam mas que eu vi sangrar! E sem pernas e braços e sem triciclos, soldadinhos de chumbo ou carrinhos. Era como eu e os meus amigos que eu matava com o poder que tinha que estremecia a mão e que nunca sangraram mas eu vi, eles sangraram, imóveis, deitados no chão. E eu dizia baixinho, assustado “Podes levantar-te! Já te matei mas acabou, agora levanta-te!” e eles permaneciam, imóveis, olhar fixo, baço, e sangravam tanto... e eu assustado, lágrimas a chegar, deixava cair a minha pistola de fulminantes e pensava “Mas eles não morriam!” habituado que estava a que nos levantássemos todos para o lanche ou para o jantar.
E não é um FIM, pelo menos no Iraque, na Síria, em Angola, no Brasil

terça-feira, 13 de novembro de 2012

11 - O Relógio de Caixa Alta (outros contos)




 

                                                                                                                                      por Célio Passos

Era a noite das Noites. No fogão de sala da moradia dos Albuquerques, crepitava a lenha, oferecendo um bem estar aos presentes. Lá fora, flocos de neve caía como há muitos anos não se via. A família Albuquerque estava toda reunida no conforto da moradia, pertença da avó Delfina, viúva do que fora o patriarca da família, o avô José.
O avô José tinha sido um afamado industrial de curtumes, actividade na altura muito rendosa, com a qual amealhou uma considerável fortuna.
O ambiente era de uma relativa felicidade. As crianças, já uma prole razoável, era as menos afetadas dos acontecimentos que ocorreram. Os adultos, e em especial a avó Delfina, jamais esqueceriam a morte do avô José, vítima de um ataque cardíaco fulminante, fazia naquele dia precisamente um ano.

Apesar de tentarem disfarçar, o desgosto que ia naquelas almas presentes, sem dúvida que a avó Delfina era aquela que menos conseguia disfarçar a ausência do seu velho e querido marido.

Todos se encontravam na sala azul, um belo aposento, com as paredes forradas a damasco azulado que batizou a sala, entre os belos adornos, sobressaia um belo relógio de caixa alta.

O relógio estava parado nas oito horas noturnas, precisamente no momento em que o avô José faleceu. A avó Delfina ainda chamou um relojoeiro para o pôr a funcionar, mas apesar de ser um bom especialista, não conseguiu deslindar o motivo por que o mesmo não funcionava. A avó Delfina decidiu, então, que o relógio ficasse parado exatamente na hora do infausto acontecimento. Seria uma homenagem ao seu marido, o relógio fazia questão de fazer a ligação ao passado.

A mesa de Natal estava lindíssima, digno de um repasto dos deuses, as criadas de sala Maria e Teresa, aprimoraram-se no embelezamento da mesa com o melhor que havia. Os cheiros que vinham da cozinha, da cozinheira Cacilda, faziam crescer água na boca dos grandes e dos pequenos.

À mesa estavam sentados, os filhos, as filhas e os conjugues, e a respetiva descendência. Apesar de tudo, a avô Delfina sentia-se feliz, por ter a sua família unida e reunida àquela mesa naquele especial dia.

Por ser muita religiosa, pediu a todos que se unissem numa oração que ela própria fazia questão de dizer.

O gato Beethoven, nome dado pelo Patriarca por gostar muito desse compositor, veio sentar-se junto do relógio, como à espera do dono, como sempre fazia.

Quando se preparava para começar a oração, o relógio de caixa alta, começou a tocar os primeiros acordes da Avé Maria de Gounot a que seguiram oito badaladas. Todos ficaram atónitos, até os não crentes. Sentiram a presença do avô José. A avó Delfina com os olhos marejados de lágrimas disse a oração, agora com um fervor religioso que emocionou os presentes. O relógio continuou a trabalhar no seu ritmo de anos passados. Passada a emoção do momento, todos começaram o repasto, naquele inesquecível jantar em que a família Albuquerque tiveram a presença espiritual, todos assim acreditaram, do avô José.

                                                                                                                                 Fim

 

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

10 - A Rutura (outros contos)



                                                                                          Por Godiva

- Trata-o bem Antónia, não sei quando, mas um dia voltarei.
- É o teu karma! – Dissera a única amiga de quem se despediu depois de lhe confiar Van Gogh, o rafeiro que recolhera ferido na rua.
Karma ou não, mais uma vez terminava uma relação e batia a porta. Não conseguia continuar a viver com alguém que, mesmo dizendo amá-la, sofria. Melhor seria, mesmo sangrando, afastar-se e dar espaço a que o outro tentasse ser feliz.
Já não estava ali a fazer nada! Encheu duas malas com aquilo que no momento lhe parecia importante, e saiu. Felizmente a herança da mãe dava-lhe um desafogo tal que, naquele momento, poderia ir para onde quisesse, viver onde quisesse, cometer todas as loucuras que lhe apetecessem. Não viveria tempo suficiente para gastar toda aquela fortuna …
Maldita herança! - pensava ao olhar-se no espelho do elevador. Será que o dinheiro realmente a teria tornado déspota como Paulo lhe gritara durante aquela que seria a ultima discussão?
Em que pessoa amarga se tornara a ponto da pessoa que mais amava no mundo traduzir por despotismo os seus gestos de amor? Será que ele conhecia a palavra  generosidade?
A chuva da manhã lava-lhe as lágrimas. Entra no táxi. No aeroporto decidirá que rumo tomar. O taxista, olhando pelo retrovisor, pergunta-lhe se ela se sente bem e ela desculpa-se que no Outono tem muitas alergias.
O táxi contorna o jardim. Há idosos que jogam jogos de sorte e azar e outros que os observam em pé fazendo apostas. Faz sinal ao taxista que encoste e espere. Tem uma coisa para fazer antes de seguirem.
Aperta o impermeável, levanta a gola e fixa o olhar na desolação do jardim pintado de tons marron, saudosa do verde do Verão. Senta-se no banco húmido onde se encontrara com Paulo pela primeira vez, naquele dia em que sentira que a vida nunca mais seria a mesma e que com ele todas as coisas seriam possíveis.
Onde irá agora arrumar essas ilusões? E arrumando-as, como irá ocupar o vazio imenso por elas deixado? Pela primeira vez sente medo. Um medo enorme de não sobreviver a essa paixão … e deixa-se escorregar pelos corredores da sua mágoa, quando o som de um telemóvel a trás à realidade. Não é o seu. Esse ficara no saco no banco do táxi. Vê o aparelho caído e não resiste à tentação de atende-lo:
- É para hoje. O sítio do encontro vou-to indicar dentro de meia hora para esse  telemóvel – diz uma voz sensual de mulher.
A primeira reação é deixar ali o telemóvel que não é seu, mas apenas sorri. Essa voz de mulher parece vir do Além. Mete o telemóvel no bolso, dirige-se ao táxi e diz:
- Mudei de planos. Desça até á Ribeira e siga pela marginal até Matosinhos. Só dentro de meia hora saberei o meu destino.
Durante o percurso vai recordando uma a uma as noites de cumplicidade que aquelas águas testemunharam no Verão passado, quando de mãos dadas ela e Paulo (re)descobriam a cidade em longas caminhadas noturnas.
Tece assim uma malha de memórias com que vestirá o seu luto.
Entretanto o telefone toca de novo e a mesma voz sensual diz:
- O encontro é às 16h00 no Hotel do Buçaco, quarto 126. O chefe diz para não te esqueceres do material.
Teresa inebriada pelo mistério sorri, pensando que nada acontece por acaso. Tem um telemóvel para entregar. Tira da mala o estojo de maquillage e, enquanto tinge de vermelho os seus lábios sequiosos de ternura, diz:
- Vamos para o Buçaco!

GODIVA – 18/10/2012

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

9 - Realidade Distorcida (outros contos)






                                                                                                                               por Célio Passos
 
Edmundo Sobral administrador de uma holding, sai da empresa e entra no automóvel, julgando que era o seu, apesar de estranhar não o ter deixado no habitual lugar de estacionamento. A saída tinha como destino uma outra empresa do grupo, para uma importante reunião. Só deu pelo engano quando procurava os óculos de sol no porta luvas.

Saiu do automóvel e verificou, efetivamente, que não era o seu. O  automóvel era do seu sócio Abílio Tavares. O que se passou não encontrou qualquer explicação.

Um carro da polícia passa por ele a apitar, e, instintivamente, com sentimento de culpa, esconde-se atrás do guarda lamas. Nesse momento vê uns sapatos de um policial junto de si. Quando levanta os olhos, o polícia diz:

- Não vale a pena esconder-se, o senhor não pode estacionar aqui. Faz o favor de circular.

- Senhor guarda, vim verificar este pneu porque o carro vinha a fugir-me!- desculpou-se.

Meteu-se no carro, aborrecido com o que tinha acontecido, desmarcando por telemóvel a reunião.  Fez inversão de marcha e dirigiu-se à rotunda que dava para a empresa. A saída era na segunda rua à direita, mas, talvez por distração, ou por uma razão que ainda hoje não consegue descortinar, entrou na terceira à esquerda que levava ao centro da cidade. Estava a rememorar qual seria o melhor caminho para regressar à empresa, quando um semáforo passou a vermelho. Parou o automóvel.

Estava a olhar para o semáforo colocado à sua esquerda, quando ouve a porta do lado direito a abrir-se e  entrar uma mulher. Era Odete,  a esposa do Tavares.

- Estava a ver que nunca mais chegavas?  – disse Odete com ar irritado.

Edmundo não reagiu. Não sabia o que aquilo queria dizer. Olhou para o espelho retrovisor que estava, estranhamente, virado para si, e viu refletida a cara do sócio, do Tavares. Instintivamente olhou para o banco de trás; não estava ninguém.

-Vais ficar aqui especado?...o sinal já está verde. Leva-me ao shopping.

Edmundo olhou novamente para o espelho retrovisor que continuava na mesma posição e, de novo, refletiu  a cara do Tavares.

- Não sabia que tínhamos combinado este encontro? – disse receoso.

Para seu espanto, a voz que saiu era a do Tavares, aquela voz rouca, inconfundível.  O que se estava a passar não era real. Gotas de suor começaram a perlar a sua fronte.
- Claro nunca te lembras de nada. A propósito, já te disse, e espero não voltar a repetir,  que tens que resolver o problema da sociedade com o Edmundo. As empresas estão cada vez estão pior, e qualquer dia vamos à falência – disse Odete

- Mas o Edmundo é um bom profissional, e as empresas estão a progredir, ao contrário do que tu dizes – disse o que na realidade sentia, apesar de ser uma autodefesa, com aquela voz que não era a dele.

- O Edmundo só pensa na caça e na pesca. Devias associar-te mas era ao Celso Moreira- disse Odete.

-  Mas quem é o Celso Moreira? - perguntou curioso.

- É o ex-marido da minha amiga Paula, é um expert na matéria. É formado em gestão de empresas, esse sim, e que era um bom sócio! – disse Odete com ar convencida, não justificando as razões, talvez não  fosse conveniente estender-se muito em explicações.

Edmundo olhava-se ao espelho e a resposta refletida era a mesma – Abílio Tavares.

- Deixa-me aqui! - disse Odete.

Parou o carro e Odete saiu sem se despedir

Edmundo estava atónito. Olhou-se de novo ao espelho e com satisfação viu refletida a sua imagem. Voltou. Era ele Edmundo. Abriu a janela e perguntou a um transeunte onde ficava a rua do Paraíso, sabendo ele, perfeitamente, que era a próxima à direita. Mas a razão era outra. Efetivamente, a sua voz tinha voltado. Voltava a ser de novo o Edmundo.
Apesar de contente, ficou apreensivo. O que se tinha passado teria sido uma visão? um fenómeno paranormal? ou nada daquilo se tinha passado?. Talvez excesso de trabalho. Já não se lembrava o que eram férias. Talvez fosse conveniente visitar o seu psiquiatra.

Afinal, havia explicação para o sucedido com a troca dos automóveis. Os automóveis eram da mesma marca, cor, cor de estofos, e tudo o mais; só não se compreendia a razão da chave ter o mesmo código.

O Tavares já tinha dado por falta do carro  e não ficou admirado ao ver o colega a entrar na empresa. Edmundo contou o sucedido que foi motivo de grande galhofa.
 
Baralhado com o rol de acontecimentos, voltou ao trabalho. Quando chegou ao gabinete, a secretária disse que tinha um senhor na sala de espera aguardando-o para uma reunião.

- Não me lembro de ter marcado qualquer reunião? Disse quem era? - perguntou Edmundo

- Não!- disse a secretária.

Edmundo dirige-se à sala de espera, entra, e o homem que o aguardava tinha à volta de 45 anos, bem vestido, com ar agradável.

- Sei que não nos conhecemos doutor Edmundo. Sou Celso Moreira e vou direto ao assunto. Tenho uma proposta a fazer-lhe que penso ser muito vantajosa para o doutor, diria irrecusável.


Edmundo nada disse. Sentou-se e sorriu


                                                                                                                         



sábado, 13 de outubro de 2012

8 - Não há coincidências (outros contos)

                                                                                                                                              Por M
 
Rafael gostava por demais daquela esplanada. Tudo caía ali, a comida no prato, mulheres bonitas que até tinham abraçado a mesma profissão que ele, mas com uma diferença, ele era jornalista sem jornal, trabalhava à tarefa.
 
Rafael conhecia alguns dos frequentadores do Cai no Prato e isso era bom, porque volta e meia lá caía um trabalhito que alguém não tinha tempo para fazer. Enquanto os outros saíam depois do almoço, Rafael prolongava a sua estadia pela tarde dentro. Gostava de olhar o rio e contemplar a outra margem.
 
 
Nesse dia, um dia cheio de sol, reparou que o indivíduo que estava na mesa da ponta, sem óculos de sol nem chapéu, também permanecia sentado e estranhamente não lia nenhum jornal nem tirava fotografias, parecia um ser apático.
 
 
Depois de ter relaxado um bom bocado, Rafael decidiu que já eram horas de ir escrever qualquer coisa para o seu recente trabalho e levantou-se em direção a casa. Poucos passos ainda o separavam do Cai no Prato quando o ser apático da esplanada se colocou ao seu lado e começou a meter conversa.
 
 
- Sei que vives com algumas dificuldades e aqui estou para te ajudar. (Disse o ser estranho).
 
- Oh amigo! As ajudas não caem assim do céu sem mais nem para quê! Se me quer vender alguma coisa desista, não perca o seu tempo, que eu estou falido.
 
- Chamo-me Gabriel e tenho um trabalho para te oferecer.
 
 
Rafael, abrandou o passo e olhou para o homem que de repente lhe pareceu um dos professores do curso de jornalismo. Parou no passeio e com um ar muito incrédulo disse:
 
 - Diz lá Gabriel qual é o trabalho que tens para mim.
 
 
- Não é bem um trabalho é mais um contrato que quero fazer contigo. Eu dou-te notícias em primeira-mão ou melhor, digo-te antecipadamente o que vai acontecer, percebes?
 
- Não, não percebo! Disse Rafael.
 
- Digo-te, em primeira-mão, que amanhã por volta das 15h00 vai cair um pescador no rio junto ao Cai no Prato.
 
- Ai sim? Vou esperar para ver! E já agora diz lá em que é que isso me ajuda?
 
- Amanhã encontramo-nos no mesmo sítio. Até amanhã e bons sonhos.  (Disse o homem estranho que se chama Gabriel).
 
Rafael já tinha almoçado. Ia levantar-se para se ir embora quando de repente se lembrou da conversa da véspera. Olhou para o relógio e faltavam sete minutos para as três horas da tarde. A curiosidade fez com que se deixasse ficar mais um pouco. Minutos depois, sentiu uma mão a pousar no seu ombro direito. Olhou. Era o Gabriel. Tão depressa olhou como ouviu um grito vindo do rio, socorro! Socorro! Socorro!
 
O pescador de um dos barcos de pesca à lampreia tinha acabado de cair.
 
Rafael ficou atónito e nos minutos seguintes um enorme medo apoderou-se da sua mente.
 
Gabriel afastou-se.
 
Rafael seguiu-o e em silencio caminharam até ao fim do cais.
 
- Já te demonstrei os meus poderes e se queres ser famoso vais publicar no jornal uma notícia em primeira-mão, disse Gabriel.
 
- Venha lá essa notícia, disse Rafael.
 
- No próximo dia treze, sexta-feira, vai chover em tudo quanto é sítio e à mesma hora no planeta terra
 
 
- Mesmo no deserto? Perguntou Rafael.
 
 Até em todos os desertos à face da terra, respondeu Gabriel.
 
No sábado seguinte ao dia treze as televisões de todo o mundo noticiavam que tinha chovido em todo o planeta terra à mesma hora. Não havia memória de tal ter acontecido. O mundo estava estupefacto e o mais incrível é que o jornal de uma cidade chamada Caminha, tinha previsto com inigualável exatidão o acontecimento.
 
Rafael não cabia em si de tão contente que estava. A próxima notícia que vendesse ao jornal já seria muito mais cara.
 
 
Cada dia que passava, Rafael estava mais ansioso pela visita de Gabriel. Pensou numa maneira de o encontrar mas isso era impossível porque ele só aparecia quando queria. Uma coisa era certa, o local até aqui, era sempre o mesmo, o restaurante Cai no Prato. Religiosamente Rafael visitava o Cai no Prato todos os dias.
 
 
Sete dias depois, Gabriel apareceu no Cai no Prato a seguir ao almoço. Rafael perguntou-lhe onde é que ele morava mas Gabriel respondeu que não era de cá, vinha do além e sem mais explicações disse a Rafael que no primeiro dia do Outono o planeta terra ia ter um apagão global. Durante um minuto a terra ia ficar sem qualquer tipo de energia. Tudo o que é movido com energia elétrica vai parar. A hora determinada para o apagão será ao crepúsculo, hora local.
 
 
Na véspera desse dia o jornal da Cidade de Caminha publicou a notícia.
 
 
As repercussões foram bombásticas. A cidade de Caminha, o jornal e o jornalista já eram conhecidos mundialmente. O mundo questionava tais acontecimentos estranhos e paranormais.
 
Já fazia frio e mesmo em dias de muita chuva Rafael não deixava de ir ao Cai no Prato. No dia sete de Dezembro Gabriel fez a sua última aparição.
 
- Rafael, vais dizer ao mundo que no dia doze de Dezembro de dois mil e doze todo o ser humano que estiver acordado e a dormir vai ter a sua vida suspensa durante escassos sete segundos.
 
 
Rafael não queria acreditar no que estava a ouvir e tentou fazer mais perguntas a Gabriel mas este saiu do Cai no Prato e atravessou a rua. Nesse instante passou um autocarro e quando Rafael correu para o apanhar, já ele tinha desaparecido sem deixar rasto.
 
 
A notícia saiu no dia doze. O jornal esgotou logo pela manhã e o Portal do jornal da Cidade de Caminha disponível na Internet bloqueou de tantas visitas.
 
 
Não havia como fugir ao acontecimento. Gabriel não desvendou a hora com receio de gerar um pânico global mas ele sabia que quem acreditava na profecia não sentiria medo algum.
 
No dia seguinte a notícia mais uma vez correu mundo. Todos os jornalistas saíram para a rua para entrevistar as pessoas. Estavam cheios de curiosidade para ouvirem os relatos sobre a experiência vivida por cada um.
 
 
Será que todos tinham passado pela mesma experiência?
 
Todos os seres humanos, mas todos, estavam mudados, só conseguiam dizer aos jornalistas que pelo que viveram naqueles segundos não queriam mais guerra à face da terra!
 
 
M.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

7 - Fim Provável




                                          por  Lordopio

José Lobo tinha estado a magicar temas para o lançamento de mais um trabalho no âmbito do blogue por ele criado «Na Companhia Dos Outros». Trata-se de uma iniciativa que reúne pessoas que gostam de escrever coisas sobre coisas. Estava cansado e o entardecer cheio de sol e calor convidava a uma saída da cidade do Porto. Esperou o verde dos semáforos e atravessou Antero de Quental em direção ao jardim.
Deu uma vista de olhos ampla e optou por um banco que tinha um pouco de sombra. Apesar de serem quase seis horas da tarde o sol ainda ardia. Sentou-se contente. Tinha conseguido resolver todos os assuntos pendentes e agora apenas tinha que aguardar as respostas dos membros escritores.

De braços esticados longitudinalmente na costa do banco, ocupando o seu centro e de perna cruzada, José Lobo sorria. Sentia um legítimo orgulho na incontestável imaginação que tinha e lhe reconheciam.

Situado a Este da praça, o banco permitia-lhe observar um edifício dos anos quarenta projetado por um arquiteto holandês que soube desenhar a fachada da forma típica portuense. A sua deambulação é vagamente interrompida por um som.
Desperta e percebe o toque de um telemóvel. Instintivamente deita a mão ao seu pousado no banco junto com as chaves. Claro que não é o seu toque. Dirige o olhar para a origem do som e descobre o aparelho no chão, por detrás do banco. Hesita por um instante mas como homem curioso que é, decide apanhá-lo e atender.

- Sim?
- “É para hoje. O sítio do encontro vou-te indicar dentro de meia hora para esse telemóvel.” - diz a voz sensual de uma mulher. Ia explicar que não era o proprietário do aparelho mas já não adiantou. A chamada tinha sido desligada.

Rui Barbosa vem calmamente a descer a rua Antero de Quental com a mochila às costas como sempre. Anda apreensivo com a saúde da mãe que se tem deteriorado bastante. Vive com ela desde que se divorciou, já lá vão uns anos. Por essa altura decidiu deixar de usar e fazer uma série de coisas; uma delas foi abandonar o automóvel. Passou a andar a pé o mais possível.
Chega à Praça da República. O dia está excelente com sol e calor. Tinha almoçado bem. A mãe odiava cozinhar e ele saboreava isso todos os dias, mas hoje o arroz de frango estava bem feito e bom. Pena que ela não saiba porquê. Olha para um banco virado a Este e escolhe-o para se sentar. Contempla um conhecido edifício dos anos quarenta projetado por um arquiteto holandês que soube desenhar a fachada da forma típica portuense.

Tem trabalho para fazer no gabinete de Arquitetura mas apetece-lhe fazer uma pausa. Frequentemente depois de almoço, faz pausas em diferentes sítios. Chama-lhes momentos de «contemplação» e acha-os «imprescindíveis» para um arquiteto. Hoje tem um encontro com um especialista estrangeiro em domótica mas não sabe onde nem quando.
Mete a mão ao bolso e tira o telemóvel. Saltita o polegar no ecrã táctil e leva-o ao ouvido.

- Estou, Andreia?
- “Sim?” – respondeu a voz sensual de uma mulher.

- Olá. Sou eu. – Andreia é a administrativa do gabinete. É uma excelente profissional e são cúmplices em quase tudo.
- “Olá. Então, o almoço hoje estava razoavelmente intragável?”

- Não! Hoje estava bom e comi imenso. Por isso estou aqui sentado na praça da república em momento de con…
- “… contemplação! Já sabia. Quando não chegas cedo estás em contemplação.”

- Como me conheces bem… daqui a pouco estou aí. Novidades?
- “Nop! Ainda não sei nada do encontro com os tipos da Zigbee. O chefe ainda não me ligou.” – O chefe é a alcunha do representante Português da marca alemã que promovera este encontro quando lhe apresentara o problema de domótica que tinha que resolver num projeto em mãos. Um tipo fiável mas impulsivo. “Já tenho comigo o material para levares: tenho uma amostra de cada cor que queres usar. Se ele entretanto ligar aviso-te. De resto está tudo calmo.”

- Já te disse que se tivesse dinheiro gostaria imenso de te triplicar o salário, pois.
- “Sim… ultimamente deu-te para me gozares dessa forma indecente; que é que eu hei-de fazer… “

- Estou a falar a sério. Até… – Mas já tinha desligado.
Mete o aparelho no bolso.

José Lobo olha o visor e sente a pele suada. Está tenso. Efabulações galopam a sua imaginação desenfreadamente. Ainda esboça o gesto de deixar cair o aparelho no sítio onde o encontrou mas recua. Uma mente daquelas não pode deixar escapar uma aventura tão excitante.
Mete-o no bolso das calças e dirige-se para casa. Faltam ainda uns minutos para a nova chamada. Tira-o e pousa-o em cima da mesa de apoio em frente do sofá onde se senta a fabricar cenários que encaixem no “caso”. O telefone volta a tocar e Lobo atende:

- Sim?
-     - O encontro é às 16.00 horas no hotel Napoleão, quarto 124. O chefe diz para não te esqueceres do material”.
      - Mas… - mais uma vez a chamada é desligada quando ia tentar explicar que não era o proprietário do telemóvel.   

                                                                                                               FIM

 
Nota: Qualquer semelhança com pessoas ou factos reais é mera coincidência.