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domingo, 23 de dezembro de 2012

16 - A Guitarra


                                                                                                                                                                              por Godiva

Durante toda a minha infância acreditei que a música lhe saía pelos dedos. Uns dedos longos e finos, numas mãos brancas e magras bordadas a veias salientes.
Só já no limiar da adolescência percebi que o som era o agradecimento que aquelas 10 cordas lhe devolviam, vibrando ao sabor do seu ágil dedilhar.
Aprendera a tocar cumprindo a tradição dos homens da família. A ele coubera-lhe como professor seu padrinho que por morte de meu avô se tornara seu tutor e lhe dera a primeira Guitarra.
Aprendidos os primeiros acordes, mergulhara com uma tal avidez no mar da música, que a ele sempre voltava refugiando-se horas a fio sozinho, alheio à presença dos outros, repetindo frequentemente uma melodia vezes sem conta até que lhe parecesse perfeita, surdo para todos os ruídos, mudo para todas as perguntas, olhando-nos com um olhar vazio como habitando um outro lugar.
Minha mãe durante anos não lhe deu qualquer valor . Só lho viria a reconhecer já muito perto do fim, como se eminência da partida a ensinasse lentamente a valorizar os seus dotes. Durante muito tempo houvera entre ela e a Guitarra uma relação de profundo ciúme. Tenho para mim que ela preferiria, talvez, que meu pai apenas a cingisse a ela com aquela delicadeza com que retirava a Guitarra do seu estojo de pele forrado a veludo encarnado, e só a ela abraçasse e acariciasse com a aquela ternura. Mas meu pai repartia os seus afetos entre as duas e até ao fim da sua vida não deixou de amar nenhuma delas.
Confesso que eu própria ao entrar na adolescência desenvolvi uma espécie de rancor por aquele objeto que nos roubava o silêncio da casa e a atenção de meu pai. Em várias ocasiões destilava o meu ódio em frases de absoluto desprezo pelo Fado que, longe de imaginar vir a ser um dia Património da Humanidade, era incompatível com uma geração que descobria Pink Floyd . Mas passada essa idade da contestação, confesso também que muitas vezes, sem que ele percebesse, observava com um misto de deslumbramento e inveja a sua simbiose com aquele instrumento, desejando que a vida me fizesse encontrar alguma coisa ou alguém capaz de arrancar de mim uma dedicação semelhante.
Hoje, as suas mãos calaram-se para todo o sempre!
Coube-me em herança a sua Guitarra. Verdadeiro símbolo da Saudade, jaz agora num recanto da casa numa silenciosa inutilidade .
Há dias em que na calada da noite me parece ouvi-la chorar. Nesses momentos o seu pranto crava na minha alma a culpa de representar uma geração incapaz de fazer perpetuar as tradições e, achando que talvez algures ele possa ler os meus pensamentos , peço-lhe perdão por isso e por tudo que deixei por lhe dizer.

1 comentário:

  1. Há sempre uma guitarra que chora.Esta não é única. Faltou as palavras por dizer. Há um tempo para tudo, por vezes a vertigem da vida, faz-nos esquecer de dizer coisas simples mas importantes.
    Bonito conto, como o trinado de uma guitarra.
    Célio Passos

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