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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

10 - A Rutura (outros contos)



                                                                                          Por Godiva

- Trata-o bem Antónia, não sei quando, mas um dia voltarei.
- É o teu karma! – Dissera a única amiga de quem se despediu depois de lhe confiar Van Gogh, o rafeiro que recolhera ferido na rua.
Karma ou não, mais uma vez terminava uma relação e batia a porta. Não conseguia continuar a viver com alguém que, mesmo dizendo amá-la, sofria. Melhor seria, mesmo sangrando, afastar-se e dar espaço a que o outro tentasse ser feliz.
Já não estava ali a fazer nada! Encheu duas malas com aquilo que no momento lhe parecia importante, e saiu. Felizmente a herança da mãe dava-lhe um desafogo tal que, naquele momento, poderia ir para onde quisesse, viver onde quisesse, cometer todas as loucuras que lhe apetecessem. Não viveria tempo suficiente para gastar toda aquela fortuna …
Maldita herança! - pensava ao olhar-se no espelho do elevador. Será que o dinheiro realmente a teria tornado déspota como Paulo lhe gritara durante aquela que seria a ultima discussão?
Em que pessoa amarga se tornara a ponto da pessoa que mais amava no mundo traduzir por despotismo os seus gestos de amor? Será que ele conhecia a palavra  generosidade?
A chuva da manhã lava-lhe as lágrimas. Entra no táxi. No aeroporto decidirá que rumo tomar. O taxista, olhando pelo retrovisor, pergunta-lhe se ela se sente bem e ela desculpa-se que no Outono tem muitas alergias.
O táxi contorna o jardim. Há idosos que jogam jogos de sorte e azar e outros que os observam em pé fazendo apostas. Faz sinal ao taxista que encoste e espere. Tem uma coisa para fazer antes de seguirem.
Aperta o impermeável, levanta a gola e fixa o olhar na desolação do jardim pintado de tons marron, saudosa do verde do Verão. Senta-se no banco húmido onde se encontrara com Paulo pela primeira vez, naquele dia em que sentira que a vida nunca mais seria a mesma e que com ele todas as coisas seriam possíveis.
Onde irá agora arrumar essas ilusões? E arrumando-as, como irá ocupar o vazio imenso por elas deixado? Pela primeira vez sente medo. Um medo enorme de não sobreviver a essa paixão … e deixa-se escorregar pelos corredores da sua mágoa, quando o som de um telemóvel a trás à realidade. Não é o seu. Esse ficara no saco no banco do táxi. Vê o aparelho caído e não resiste à tentação de atende-lo:
- É para hoje. O sítio do encontro vou-to indicar dentro de meia hora para esse  telemóvel – diz uma voz sensual de mulher.
A primeira reação é deixar ali o telemóvel que não é seu, mas apenas sorri. Essa voz de mulher parece vir do Além. Mete o telemóvel no bolso, dirige-se ao táxi e diz:
- Mudei de planos. Desça até á Ribeira e siga pela marginal até Matosinhos. Só dentro de meia hora saberei o meu destino.
Durante o percurso vai recordando uma a uma as noites de cumplicidade que aquelas águas testemunharam no Verão passado, quando de mãos dadas ela e Paulo (re)descobriam a cidade em longas caminhadas noturnas.
Tece assim uma malha de memórias com que vestirá o seu luto.
Entretanto o telefone toca de novo e a mesma voz sensual diz:
- O encontro é às 16h00 no Hotel do Buçaco, quarto 126. O chefe diz para não te esqueceres do material.
Teresa inebriada pelo mistério sorri, pensando que nada acontece por acaso. Tem um telemóvel para entregar. Tira da mala o estojo de maquillage e, enquanto tinge de vermelho os seus lábios sequiosos de ternura, diz:
- Vamos para o Buçaco!

GODIVA – 18/10/2012

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

9 - Realidade Distorcida (outros contos)






                                                                                                                               por Célio Passos
 
Edmundo Sobral administrador de uma holding, sai da empresa e entra no automóvel, julgando que era o seu, apesar de estranhar não o ter deixado no habitual lugar de estacionamento. A saída tinha como destino uma outra empresa do grupo, para uma importante reunião. Só deu pelo engano quando procurava os óculos de sol no porta luvas.

Saiu do automóvel e verificou, efetivamente, que não era o seu. O  automóvel era do seu sócio Abílio Tavares. O que se passou não encontrou qualquer explicação.

Um carro da polícia passa por ele a apitar, e, instintivamente, com sentimento de culpa, esconde-se atrás do guarda lamas. Nesse momento vê uns sapatos de um policial junto de si. Quando levanta os olhos, o polícia diz:

- Não vale a pena esconder-se, o senhor não pode estacionar aqui. Faz o favor de circular.

- Senhor guarda, vim verificar este pneu porque o carro vinha a fugir-me!- desculpou-se.

Meteu-se no carro, aborrecido com o que tinha acontecido, desmarcando por telemóvel a reunião.  Fez inversão de marcha e dirigiu-se à rotunda que dava para a empresa. A saída era na segunda rua à direita, mas, talvez por distração, ou por uma razão que ainda hoje não consegue descortinar, entrou na terceira à esquerda que levava ao centro da cidade. Estava a rememorar qual seria o melhor caminho para regressar à empresa, quando um semáforo passou a vermelho. Parou o automóvel.

Estava a olhar para o semáforo colocado à sua esquerda, quando ouve a porta do lado direito a abrir-se e  entrar uma mulher. Era Odete,  a esposa do Tavares.

- Estava a ver que nunca mais chegavas?  – disse Odete com ar irritado.

Edmundo não reagiu. Não sabia o que aquilo queria dizer. Olhou para o espelho retrovisor que estava, estranhamente, virado para si, e viu refletida a cara do sócio, do Tavares. Instintivamente olhou para o banco de trás; não estava ninguém.

-Vais ficar aqui especado?...o sinal já está verde. Leva-me ao shopping.

Edmundo olhou novamente para o espelho retrovisor que continuava na mesma posição e, de novo, refletiu  a cara do Tavares.

- Não sabia que tínhamos combinado este encontro? – disse receoso.

Para seu espanto, a voz que saiu era a do Tavares, aquela voz rouca, inconfundível.  O que se estava a passar não era real. Gotas de suor começaram a perlar a sua fronte.
- Claro nunca te lembras de nada. A propósito, já te disse, e espero não voltar a repetir,  que tens que resolver o problema da sociedade com o Edmundo. As empresas estão cada vez estão pior, e qualquer dia vamos à falência – disse Odete

- Mas o Edmundo é um bom profissional, e as empresas estão a progredir, ao contrário do que tu dizes – disse o que na realidade sentia, apesar de ser uma autodefesa, com aquela voz que não era a dele.

- O Edmundo só pensa na caça e na pesca. Devias associar-te mas era ao Celso Moreira- disse Odete.

-  Mas quem é o Celso Moreira? - perguntou curioso.

- É o ex-marido da minha amiga Paula, é um expert na matéria. É formado em gestão de empresas, esse sim, e que era um bom sócio! – disse Odete com ar convencida, não justificando as razões, talvez não  fosse conveniente estender-se muito em explicações.

Edmundo olhava-se ao espelho e a resposta refletida era a mesma – Abílio Tavares.

- Deixa-me aqui! - disse Odete.

Parou o carro e Odete saiu sem se despedir

Edmundo estava atónito. Olhou-se de novo ao espelho e com satisfação viu refletida a sua imagem. Voltou. Era ele Edmundo. Abriu a janela e perguntou a um transeunte onde ficava a rua do Paraíso, sabendo ele, perfeitamente, que era a próxima à direita. Mas a razão era outra. Efetivamente, a sua voz tinha voltado. Voltava a ser de novo o Edmundo.
Apesar de contente, ficou apreensivo. O que se tinha passado teria sido uma visão? um fenómeno paranormal? ou nada daquilo se tinha passado?. Talvez excesso de trabalho. Já não se lembrava o que eram férias. Talvez fosse conveniente visitar o seu psiquiatra.

Afinal, havia explicação para o sucedido com a troca dos automóveis. Os automóveis eram da mesma marca, cor, cor de estofos, e tudo o mais; só não se compreendia a razão da chave ter o mesmo código.

O Tavares já tinha dado por falta do carro  e não ficou admirado ao ver o colega a entrar na empresa. Edmundo contou o sucedido que foi motivo de grande galhofa.
 
Baralhado com o rol de acontecimentos, voltou ao trabalho. Quando chegou ao gabinete, a secretária disse que tinha um senhor na sala de espera aguardando-o para uma reunião.

- Não me lembro de ter marcado qualquer reunião? Disse quem era? - perguntou Edmundo

- Não!- disse a secretária.

Edmundo dirige-se à sala de espera, entra, e o homem que o aguardava tinha à volta de 45 anos, bem vestido, com ar agradável.

- Sei que não nos conhecemos doutor Edmundo. Sou Celso Moreira e vou direto ao assunto. Tenho uma proposta a fazer-lhe que penso ser muito vantajosa para o doutor, diria irrecusável.


Edmundo nada disse. Sentou-se e sorriu


                                                                                                                         



sábado, 13 de outubro de 2012

8 - Não há coincidências (outros contos)

                                                                                                                                              Por M
 
Rafael gostava por demais daquela esplanada. Tudo caía ali, a comida no prato, mulheres bonitas que até tinham abraçado a mesma profissão que ele, mas com uma diferença, ele era jornalista sem jornal, trabalhava à tarefa.
 
Rafael conhecia alguns dos frequentadores do Cai no Prato e isso era bom, porque volta e meia lá caía um trabalhito que alguém não tinha tempo para fazer. Enquanto os outros saíam depois do almoço, Rafael prolongava a sua estadia pela tarde dentro. Gostava de olhar o rio e contemplar a outra margem.
 
 
Nesse dia, um dia cheio de sol, reparou que o indivíduo que estava na mesa da ponta, sem óculos de sol nem chapéu, também permanecia sentado e estranhamente não lia nenhum jornal nem tirava fotografias, parecia um ser apático.
 
 
Depois de ter relaxado um bom bocado, Rafael decidiu que já eram horas de ir escrever qualquer coisa para o seu recente trabalho e levantou-se em direção a casa. Poucos passos ainda o separavam do Cai no Prato quando o ser apático da esplanada se colocou ao seu lado e começou a meter conversa.
 
 
- Sei que vives com algumas dificuldades e aqui estou para te ajudar. (Disse o ser estranho).
 
- Oh amigo! As ajudas não caem assim do céu sem mais nem para quê! Se me quer vender alguma coisa desista, não perca o seu tempo, que eu estou falido.
 
- Chamo-me Gabriel e tenho um trabalho para te oferecer.
 
 
Rafael, abrandou o passo e olhou para o homem que de repente lhe pareceu um dos professores do curso de jornalismo. Parou no passeio e com um ar muito incrédulo disse:
 
 - Diz lá Gabriel qual é o trabalho que tens para mim.
 
 
- Não é bem um trabalho é mais um contrato que quero fazer contigo. Eu dou-te notícias em primeira-mão ou melhor, digo-te antecipadamente o que vai acontecer, percebes?
 
- Não, não percebo! Disse Rafael.
 
- Digo-te, em primeira-mão, que amanhã por volta das 15h00 vai cair um pescador no rio junto ao Cai no Prato.
 
- Ai sim? Vou esperar para ver! E já agora diz lá em que é que isso me ajuda?
 
- Amanhã encontramo-nos no mesmo sítio. Até amanhã e bons sonhos.  (Disse o homem estranho que se chama Gabriel).
 
Rafael já tinha almoçado. Ia levantar-se para se ir embora quando de repente se lembrou da conversa da véspera. Olhou para o relógio e faltavam sete minutos para as três horas da tarde. A curiosidade fez com que se deixasse ficar mais um pouco. Minutos depois, sentiu uma mão a pousar no seu ombro direito. Olhou. Era o Gabriel. Tão depressa olhou como ouviu um grito vindo do rio, socorro! Socorro! Socorro!
 
O pescador de um dos barcos de pesca à lampreia tinha acabado de cair.
 
Rafael ficou atónito e nos minutos seguintes um enorme medo apoderou-se da sua mente.
 
Gabriel afastou-se.
 
Rafael seguiu-o e em silencio caminharam até ao fim do cais.
 
- Já te demonstrei os meus poderes e se queres ser famoso vais publicar no jornal uma notícia em primeira-mão, disse Gabriel.
 
- Venha lá essa notícia, disse Rafael.
 
- No próximo dia treze, sexta-feira, vai chover em tudo quanto é sítio e à mesma hora no planeta terra
 
 
- Mesmo no deserto? Perguntou Rafael.
 
 Até em todos os desertos à face da terra, respondeu Gabriel.
 
No sábado seguinte ao dia treze as televisões de todo o mundo noticiavam que tinha chovido em todo o planeta terra à mesma hora. Não havia memória de tal ter acontecido. O mundo estava estupefacto e o mais incrível é que o jornal de uma cidade chamada Caminha, tinha previsto com inigualável exatidão o acontecimento.
 
Rafael não cabia em si de tão contente que estava. A próxima notícia que vendesse ao jornal já seria muito mais cara.
 
 
Cada dia que passava, Rafael estava mais ansioso pela visita de Gabriel. Pensou numa maneira de o encontrar mas isso era impossível porque ele só aparecia quando queria. Uma coisa era certa, o local até aqui, era sempre o mesmo, o restaurante Cai no Prato. Religiosamente Rafael visitava o Cai no Prato todos os dias.
 
 
Sete dias depois, Gabriel apareceu no Cai no Prato a seguir ao almoço. Rafael perguntou-lhe onde é que ele morava mas Gabriel respondeu que não era de cá, vinha do além e sem mais explicações disse a Rafael que no primeiro dia do Outono o planeta terra ia ter um apagão global. Durante um minuto a terra ia ficar sem qualquer tipo de energia. Tudo o que é movido com energia elétrica vai parar. A hora determinada para o apagão será ao crepúsculo, hora local.
 
 
Na véspera desse dia o jornal da Cidade de Caminha publicou a notícia.
 
 
As repercussões foram bombásticas. A cidade de Caminha, o jornal e o jornalista já eram conhecidos mundialmente. O mundo questionava tais acontecimentos estranhos e paranormais.
 
Já fazia frio e mesmo em dias de muita chuva Rafael não deixava de ir ao Cai no Prato. No dia sete de Dezembro Gabriel fez a sua última aparição.
 
- Rafael, vais dizer ao mundo que no dia doze de Dezembro de dois mil e doze todo o ser humano que estiver acordado e a dormir vai ter a sua vida suspensa durante escassos sete segundos.
 
 
Rafael não queria acreditar no que estava a ouvir e tentou fazer mais perguntas a Gabriel mas este saiu do Cai no Prato e atravessou a rua. Nesse instante passou um autocarro e quando Rafael correu para o apanhar, já ele tinha desaparecido sem deixar rasto.
 
 
A notícia saiu no dia doze. O jornal esgotou logo pela manhã e o Portal do jornal da Cidade de Caminha disponível na Internet bloqueou de tantas visitas.
 
 
Não havia como fugir ao acontecimento. Gabriel não desvendou a hora com receio de gerar um pânico global mas ele sabia que quem acreditava na profecia não sentiria medo algum.
 
No dia seguinte a notícia mais uma vez correu mundo. Todos os jornalistas saíram para a rua para entrevistar as pessoas. Estavam cheios de curiosidade para ouvirem os relatos sobre a experiência vivida por cada um.
 
 
Será que todos tinham passado pela mesma experiência?
 
Todos os seres humanos, mas todos, estavam mudados, só conseguiam dizer aos jornalistas que pelo que viveram naqueles segundos não queriam mais guerra à face da terra!
 
 
M.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

7 - Fim Provável




                                          por  Lordopio

José Lobo tinha estado a magicar temas para o lançamento de mais um trabalho no âmbito do blogue por ele criado «Na Companhia Dos Outros». Trata-se de uma iniciativa que reúne pessoas que gostam de escrever coisas sobre coisas. Estava cansado e o entardecer cheio de sol e calor convidava a uma saída da cidade do Porto. Esperou o verde dos semáforos e atravessou Antero de Quental em direção ao jardim.
Deu uma vista de olhos ampla e optou por um banco que tinha um pouco de sombra. Apesar de serem quase seis horas da tarde o sol ainda ardia. Sentou-se contente. Tinha conseguido resolver todos os assuntos pendentes e agora apenas tinha que aguardar as respostas dos membros escritores.

De braços esticados longitudinalmente na costa do banco, ocupando o seu centro e de perna cruzada, José Lobo sorria. Sentia um legítimo orgulho na incontestável imaginação que tinha e lhe reconheciam.

Situado a Este da praça, o banco permitia-lhe observar um edifício dos anos quarenta projetado por um arquiteto holandês que soube desenhar a fachada da forma típica portuense. A sua deambulação é vagamente interrompida por um som.
Desperta e percebe o toque de um telemóvel. Instintivamente deita a mão ao seu pousado no banco junto com as chaves. Claro que não é o seu toque. Dirige o olhar para a origem do som e descobre o aparelho no chão, por detrás do banco. Hesita por um instante mas como homem curioso que é, decide apanhá-lo e atender.

- Sim?
- “É para hoje. O sítio do encontro vou-te indicar dentro de meia hora para esse telemóvel.” - diz a voz sensual de uma mulher. Ia explicar que não era o proprietário do aparelho mas já não adiantou. A chamada tinha sido desligada.

Rui Barbosa vem calmamente a descer a rua Antero de Quental com a mochila às costas como sempre. Anda apreensivo com a saúde da mãe que se tem deteriorado bastante. Vive com ela desde que se divorciou, já lá vão uns anos. Por essa altura decidiu deixar de usar e fazer uma série de coisas; uma delas foi abandonar o automóvel. Passou a andar a pé o mais possível.
Chega à Praça da República. O dia está excelente com sol e calor. Tinha almoçado bem. A mãe odiava cozinhar e ele saboreava isso todos os dias, mas hoje o arroz de frango estava bem feito e bom. Pena que ela não saiba porquê. Olha para um banco virado a Este e escolhe-o para se sentar. Contempla um conhecido edifício dos anos quarenta projetado por um arquiteto holandês que soube desenhar a fachada da forma típica portuense.

Tem trabalho para fazer no gabinete de Arquitetura mas apetece-lhe fazer uma pausa. Frequentemente depois de almoço, faz pausas em diferentes sítios. Chama-lhes momentos de «contemplação» e acha-os «imprescindíveis» para um arquiteto. Hoje tem um encontro com um especialista estrangeiro em domótica mas não sabe onde nem quando.
Mete a mão ao bolso e tira o telemóvel. Saltita o polegar no ecrã táctil e leva-o ao ouvido.

- Estou, Andreia?
- “Sim?” – respondeu a voz sensual de uma mulher.

- Olá. Sou eu. – Andreia é a administrativa do gabinete. É uma excelente profissional e são cúmplices em quase tudo.
- “Olá. Então, o almoço hoje estava razoavelmente intragável?”

- Não! Hoje estava bom e comi imenso. Por isso estou aqui sentado na praça da república em momento de con…
- “… contemplação! Já sabia. Quando não chegas cedo estás em contemplação.”

- Como me conheces bem… daqui a pouco estou aí. Novidades?
- “Nop! Ainda não sei nada do encontro com os tipos da Zigbee. O chefe ainda não me ligou.” – O chefe é a alcunha do representante Português da marca alemã que promovera este encontro quando lhe apresentara o problema de domótica que tinha que resolver num projeto em mãos. Um tipo fiável mas impulsivo. “Já tenho comigo o material para levares: tenho uma amostra de cada cor que queres usar. Se ele entretanto ligar aviso-te. De resto está tudo calmo.”

- Já te disse que se tivesse dinheiro gostaria imenso de te triplicar o salário, pois.
- “Sim… ultimamente deu-te para me gozares dessa forma indecente; que é que eu hei-de fazer… “

- Estou a falar a sério. Até… – Mas já tinha desligado.
Mete o aparelho no bolso.

José Lobo olha o visor e sente a pele suada. Está tenso. Efabulações galopam a sua imaginação desenfreadamente. Ainda esboça o gesto de deixar cair o aparelho no sítio onde o encontrou mas recua. Uma mente daquelas não pode deixar escapar uma aventura tão excitante.
Mete-o no bolso das calças e dirige-se para casa. Faltam ainda uns minutos para a nova chamada. Tira-o e pousa-o em cima da mesa de apoio em frente do sofá onde se senta a fabricar cenários que encaixem no “caso”. O telefone volta a tocar e Lobo atende:

- Sim?
-     - O encontro é às 16.00 horas no hotel Napoleão, quarto 124. O chefe diz para não te esqueceres do material”.
      - Mas… - mais uma vez a chamada é desligada quando ia tentar explicar que não era o proprietário do telemóvel.   

                                                                                                               FIM

 
Nota: Qualquer semelhança com pessoas ou factos reais é mera coincidência.

 

 

 

6 - Aqueles Olhos Azuis

 
 
A chuva caía abundantemente. Na casa desabitada e em ruínas, Anselmo Brito passava incógnito no seu refúgio. Descobrira-o quando abandonou Viseu e veio para o Porto. Aconchegou-se entre os cobertores, numa cama feita de caixas de papelão, aguardando o amanhecer.
Anselmo, de estatura acima da média, tinha sessenta anos, barba e cabelo comprido, e uns olhos azuis perturbadores. Vestia roupa usada que não era para o seu tamanho, uma curta gabardina, e um chapéu de abas largas dava-lhe um ar andrajoso e estranho.

Tinha sido chefe da contabilidade de uma multinacional que se deslocalizou e Anselmo foi atirado para o desemprego. O jogo e a bebida tomaram conta dele e a indemnização que recebeu e o dinheiro do fundo de desemprego, sumiram rapidamente.

A mulher e o seu filho Carlos, que tinha o curso de enfermagem, internaram-no numa casa de recuperação para alcoólicos. Na primeira oportunidade, fugiu, sem deixar rastro. As tentativas de o encontrar foram infrutíferas, mesmo recorrendo à polícia e aos meios de comunicação.

A mulher, entretanto, falecera. O filho trabalhava num hospital em Viseu, mas teve uma proposta vantajosa num hospital no Porto e mudou-se. Além de exercer a profissão, era voluntário numa associação de solidariedade de apoio aos sem-abrigo.

Anselmo passava os dias a tentar arranjar algum dinheiro, esmolas, conseguidas junto aos semáforos mais concorridos da cidade. Mas com a concorrência de outros desafortunados colegas, era por vezes corrido dos locais. Em alternativa, recorria ao expediente de arrumador de carros, mas como era pouco audaz, pouca gente lhe dava gorjeta. A solidão sobejava, e por isso tinha o hábito de falar sozinho: relatava os pensamentos.

Era uma vida sem rumo; a bebida era a sua companheira das boas e más horas. Recorria diariamente a uma associação de apoio aos sem-abrigo que distribuía refeições para os lados da Cordoaria.

Eram 23,30 quando a carrinha da associação chegou. Estava uma noite gélida. Anselmo tremia, batia com os pés no chão e esfregava as mãos para esquecer o frio.

Começaram a distribuir as refeições quentes, pão e sumos. Um voluntário aproximou-se dele; era a primeira vez que o via, e naturalmente perguntou-lhe o nome. Dois pares de olhos de um azul profundo cruzaram-se. O voluntário ficou preso naquele olhar, estupefacto.

- Como se chama?

Anselmo olhou com ar triste o jovem que se encontrava à sua frente, estremeceu, agora não de frio.

Voltou as costas e foi-se embora.

Parte II

Caminhou sem rumo durante horas enquanto na sua cabeça desarrumava as memórias, até ali delicadamente guardadas em gavetas que nem sabia que tinha nos seus pensamentos. Sentia-se confuso e ao mesmo tempo revoltado por se ver obrigado a lembrar-se de tudo aquilo de novo. O seu filho estava um homem feito, de olhar determinado. Tê-lo-ia reconhecido? Talvez não. Já fazia algum tempo. Embora não conseguisse precisar quanto ao certo, sabia que tinha passado o tempo suficiente para já não ser a mesma pessoa. Quem era afinal? Como se deixara chegar aquele ponto de se desinteressar pela vida? Depois de tantos anos a deambular pelas ruas daquela cidade, passando quase invisível às pessoas que rotineiramente se deslocavam para o trabalho, para casa, para os seus destinos, Anselmo sentiu, pela primeira vez, o peso da solidão. Desta vez nem a bebida apagava aquele buraco que lhe doía no peito. Assustado com tanta dor, bebeu e bebeu, ao mesmo tempo que era atropelado por memórias que teimavam em lhe ecoar nos pensamentos.

Quando acordou já o dia de novo entardecia e viu-se numa rua que não era a da sua casa desabitada e em ruínas. Os raios do sol escondiam-se detrás do prédio fronteiriço e Anselmo chegou a questionar-se se o episódio do dia anterior não teria sido apenas um sonho. Sentia fome e a cabeça pesava-lhe mais que a conta. Num esforço desmedido tentou levantar a sua grande estatura e procurar alimento.

Nessa noite não voltaria ao mesmo lugar da noite anterior, de tal forma temia ter de passar por aquele caminho tortuoso que lhe tinha reavivado memórias. Agora parecia que não as podia voltar a arrumar. Voltou à sua casa desabitada em ruínas e procurou no meio dos caixotes por alguma esmola perdida que lhe garantisse um pedaço de pão. Mas nada encontrou. Voltou à rua e acabou por se sentar num banco de jardim. Debilitado com a fome e com a cabeça a latejar da ressaca, relatava os pensamentos de forma repetida e contínua, sem se aperceber que afugentava as pessoas que por ali descansavam as pernas.

De súbito sentiu algo bater-lhe nas pernas com moderada força. Isso acordou-o do seu estado pseudocatatónico. Ouviu passos meio apressados aproximarem-se, mas que pararam ainda antes de poder perceber de onde vinham. Quando ergueu os olhos, viu uns pequenos olhos azuis no rosto de um menino olharem-no com receio. O miúdo acertara-lhe mesmo em cheio nas pernas longas e finas com a sua bola e agora olhava-o indeciso, sem saber se era seguro recuperá-la.

Anselmo sentiu-se viajar no tempo ao ver aqueles olhos azuis fitarem-no ininterruptamente. Nisto agarrou na bola e sorrindo timidamente, estendeu o braço ao menino para que a tomasse de volta. Ainda temeroso pela figura que agora o olhava, o menino aproximou-se lentamente e pegou a bola, correndo depois na direção oposta, de volta aos amigos que presenciavam a cena em silêncio, com medo de enraivecer o gigante de trajes estranhos e braços compridos, sentado no banco de jardim do parque. Anselmo ficou ali sentado, imóvel, e fitava os miúdos nas brincadeiras de bola. Quando se levantou e iniciava os primeiros passos, os meninos recearam represálias e fugiram daquele gigante, que agora erguido, lhes parecia ainda maior.

Anselmo sacudiu o cabelo da fronte, esticou o tronco fustigado pela vida, e com o olhar fixado na memória daqueles olhos azuis, disse para consigo: Vamos tratar desta fome.


Parte III

Sim, mas não era uma fome de alimento, mas uma fome da alma, que durante anos desgastara o mais profundo do seu íntimo, era uma fome de anos, uma fome insaciável, do tamanho da sua solidão.

Pela primeira vez em muitos anos, Anselmo deixou correr livremente o pensamento e as lágrimas. As lembranças acudiam-lhe à memória com a nitidez de um filme a preto e branco. E como doíam essas memórias recheadas de enormes olhos azuis!

Os da mulher, lindos olhos, mas nos quais ele não conseguira adivinhar a ganância e a frieza. Só deu por isso quando, alguns anos depois, sentiu na pele a traição, com o empreiteiro da vila que a passeava descaradamente no seu Mercedes à pato bravo, parando na Confeitaria Central onde se empanturravam com bolos e refrigerantes.

Mas a memória mais dolorosa era dos olhos do filho enquanto criança, os mesmos olhos da criança que ele tinha visto no parque. Como tinham sido bons aqueles anos, em que o menino crescia forte e bonito, prometendo vir a ser alguém no futuro. Mas foi uma felicidade de curta duração. O menino pequeno deu lugar a um adolescente birrento e manipulador, que compactuava com os esquemas pérfidos da mãe. O que ele queria era dinheiro para os seus caprichos de adolescente e que a mãe se apressava a satisfazer, à custa do amante que, orgulhoso, se gabava de que era mais do que um pai para o rapaz.

Quando estas coisas chegaram aos ouvidos do Anselmo, sim, porque ele foi o último a saber, o seu mundo desmoronou-se. Nunca lhe passou pela cabeça que o que entrava em sua casa, não fosse fruto do seu trabalho honesto e do governo doméstico da esposa, em quem tanto confiava. Mas um dia, o Leitão, segurança da empresa, contara-lhe tudo, porque já não aguentava mais vê-lo a fazer figura de urso.

Anselmo sentiu que o mundo se desmoronava. Fechou-se sobre si mesmo, mesmo continuando a fazer a mesma vida, a ter as mesmas rotinas. Apenas uma diferença, nascera-lhe um bicho dentro do peito, um bicho que só sabia odiar. E quando parecia que nada de pior poderia acontecer, chegou, traiçoeiramente, o desemprego. Foi a gota de água.

Anselmo ainda sente na boca o sabor da primeira ressaca de vinho tinto, engolido compulsivamente na tasca do Barnabé, ali para os lados da Serra. Bebera até se esquecer de que estava a beber. Bebera como se quisesse afogar a traição da mulher, o desrespeito do filho e a imensa pena que sentira de si próprio. Depois disso, foram muitas as bebedeiras, muitas as ressacas, até àquele dia fatídico que Anselmo se esforça por não recordar.

O carro do empreiteiro parara em frente da sua casa apitando freneticamente. A mulher e o filho, fitaram-no com os seus belos olhos azuis, gelados de emoção e obrigaram-no a entrar no carro. E ele a ouvi-los, este estúpido, pobretana de merda, ainda por cima bêbado, uma vergonha para pessoas da nossa condição, temos mesmo de o internar, até é uma obra de caridade, assim já não tropeçamos nele. Anselmo ainda hoje sente a mão vigorosa do empreiteiro a empurrá-lo para dentro do carro.

Claro, fugiu, mal teve oportunidade.

Até hoje, carrega a revolta de ter sido escorraçado pela mulher e pelo próprio filho, que nunca ouviram as suas mágoas, nunca quiseram saber o porquê da sua falta de esperança. Anselmo ainda hoje lamenta não ter tido coragem de ter dado um tiro na cabeça. Tudo seria mais fácil. Mas nem pistola tinha, naquela altura. Só lhe restava mesmo ir à deriva, esconder-se, desaparecer…. E pouco lhe importava o que viessem a pensar dele. Tanto se lhe fazia.

Anselmo cavou fundo nas suas memórias durante muito tempo, até que foi vencido pelo cansaço. Acordou, já o sol ia alto. O beco, àquela hora, estava deserto. Anselmo estranhou aquele silêncio, como se alguma coisa estivesse na eminência de acontecer.

Levantou-se com um ar decidido e em passadas largas dirigiu-se às casas de banho públicas da Rua Mouzinho da Silveira e pela primeira em muitos anos, tomou um longo e reparador banho. Retirou da sacola umas calças e uma camisa que lhe tinham dado na Associação e vestiu-as. Pela primeira vez em muitos anos, olhou-se ao espelho e viu os seus próprios olhos azuis, de um azul intenso. Atirou para o lixo os seus pertences de sem abrigo. Guardou apenas uma velha carteira, muito esfarrapada e gasta. Contou e recontou as moedas que tinha no bolso e, pela primeira vez em muitos anos, sorriu, satisfeito.

Subiu a Rua Mouzinho da Silveira, entrou na Estação de S. Bento e comprou um bilhete de comboio para Lisboa.

Fim
Autores: Carmita - Célio Passos - Maria José Azevedo




NOTA: Qualquer semelhança com pessoas ou factos reais, é mera coincidência