A chuva caía
abundantemente. Na casa desabitada e em ruínas, Anselmo Brito passava incógnito
no seu refúgio. Descobrira-o quando abandonou Viseu e veio para o Porto.
Aconchegou-se entre os cobertores, numa cama feita de caixas de papelão,
aguardando o amanhecer.
Anselmo, de estatura acima
da média, tinha sessenta anos, barba e cabelo comprido, e uns olhos azuis
perturbadores. Vestia roupa usada que não era para o seu tamanho, uma curta
gabardina, e um chapéu de abas largas dava-lhe um ar andrajoso e estranho.
Tinha sido chefe da contabilidade de uma multinacional que se deslocalizou e Anselmo foi atirado para o desemprego. O jogo e a bebida tomaram conta dele e a indemnização que recebeu e o dinheiro do fundo de desemprego, sumiram rapidamente.
A mulher e o seu filho Carlos, que tinha o curso de enfermagem, internaram-no numa casa de recuperação para alcoólicos. Na primeira oportunidade, fugiu, sem deixar rastro. As tentativas de o encontrar foram infrutíferas, mesmo recorrendo à polícia e aos meios de comunicação.
A mulher, entretanto, falecera. O filho trabalhava num hospital em Viseu, mas teve uma proposta vantajosa num hospital no Porto e mudou-se. Além de exercer a profissão, era voluntário numa associação de solidariedade de apoio aos sem-abrigo.
Anselmo passava os dias a tentar arranjar algum dinheiro, esmolas, conseguidas junto aos semáforos mais concorridos da cidade. Mas com a concorrência de outros desafortunados colegas, era por vezes corrido dos locais. Em alternativa, recorria ao expediente de arrumador de carros, mas como era pouco audaz, pouca gente lhe dava gorjeta. A solidão sobejava, e por isso tinha o hábito de falar sozinho: relatava os pensamentos.
Era uma vida sem rumo; a bebida era a sua companheira das boas e más horas. Recorria diariamente a uma associação de apoio aos sem-abrigo que distribuía refeições para os lados da Cordoaria.
Eram 23,30 quando a carrinha da associação chegou. Estava uma noite gélida. Anselmo tremia, batia com os pés no chão e esfregava as mãos para esquecer o frio.
Começaram a distribuir as refeições quentes, pão e sumos. Um voluntário aproximou-se dele; era a primeira vez que o via, e naturalmente perguntou-lhe o nome. Dois pares de olhos de um azul profundo cruzaram-se. O voluntário ficou preso naquele olhar, estupefacto.
-
Como se
chama?
Anselmo olhou com ar triste o jovem que se encontrava à sua frente, estremeceu, agora não de frio.
Voltou as costas e foi-se embora.
Parte
II
Caminhou sem rumo durante horas enquanto na sua cabeça desarrumava as memórias, até ali delicadamente guardadas em gavetas que nem sabia que tinha nos seus pensamentos. Sentia-se confuso e ao mesmo tempo revoltado por se ver obrigado a lembrar-se de tudo aquilo de novo. O seu filho estava um homem feito, de olhar determinado. Tê-lo-ia reconhecido? Talvez não. Já fazia algum tempo. Embora não conseguisse precisar quanto ao certo, sabia que tinha passado o tempo suficiente para já não ser a mesma pessoa. Quem era afinal? Como se deixara chegar aquele ponto de se desinteressar pela vida? Depois de tantos anos a deambular pelas ruas daquela cidade, passando quase invisível às pessoas que rotineiramente se deslocavam para o trabalho, para casa, para os seus destinos, Anselmo sentiu, pela primeira vez, o peso da solidão. Desta vez nem a bebida apagava aquele buraco que lhe doía no peito. Assustado com tanta dor, bebeu e bebeu, ao mesmo tempo que era atropelado por memórias que teimavam em lhe ecoar nos pensamentos.
Quando acordou já o dia de novo entardecia e viu-se numa rua que não era a da sua casa desabitada e em ruínas. Os raios do sol escondiam-se detrás do prédio fronteiriço e Anselmo chegou a questionar-se se o episódio do dia anterior não teria sido apenas um sonho. Sentia fome e a cabeça pesava-lhe mais que a conta. Num esforço desmedido tentou levantar a sua grande estatura e procurar alimento.
Nessa noite não voltaria ao mesmo lugar da noite anterior, de tal forma temia ter de passar por aquele caminho tortuoso que lhe tinha reavivado memórias. Agora parecia que não as podia voltar a arrumar. Voltou à sua casa desabitada em ruínas e procurou no meio dos caixotes por alguma esmola perdida que lhe garantisse um pedaço de pão. Mas nada encontrou. Voltou à rua e acabou por se sentar num banco de jardim. Debilitado com a fome e com a cabeça a latejar da ressaca, relatava os pensamentos de forma repetida e contínua, sem se aperceber que afugentava as pessoas que por ali descansavam as pernas.
De súbito sentiu algo bater-lhe nas pernas com moderada força. Isso acordou-o do seu estado pseudocatatónico. Ouviu passos meio apressados aproximarem-se, mas que pararam ainda antes de poder perceber de onde vinham. Quando ergueu os olhos, viu uns pequenos olhos azuis no rosto de um menino olharem-no com receio. O miúdo acertara-lhe mesmo em cheio nas pernas longas e finas com a sua bola e agora olhava-o indeciso, sem saber se era seguro recuperá-la.
Anselmo sentiu-se viajar no tempo ao ver aqueles olhos azuis fitarem-no ininterruptamente. Nisto agarrou na bola e sorrindo timidamente, estendeu o braço ao menino para que a tomasse de volta. Ainda temeroso pela figura que agora o olhava, o menino aproximou-se lentamente e pegou a bola, correndo depois na direção oposta, de volta aos amigos que presenciavam a cena em silêncio, com medo de enraivecer o gigante de trajes estranhos e braços compridos, sentado no banco de jardim do parque. Anselmo ficou ali sentado, imóvel, e fitava os miúdos nas brincadeiras de bola. Quando se levantou e iniciava os primeiros passos, os meninos recearam represálias e fugiram daquele gigante, que agora erguido, lhes parecia ainda maior.
Anselmo sacudiu o cabelo da fronte, esticou o tronco fustigado pela vida, e com o olhar fixado na memória daqueles olhos azuis, disse para consigo: Vamos tratar desta fome.
Parte
III
Sim, mas não era uma fome de alimento, mas uma fome da alma, que durante anos desgastara o mais profundo do seu íntimo, era uma fome de anos, uma fome insaciável, do tamanho da sua solidão.
Pela primeira vez em muitos anos, Anselmo deixou correr livremente o pensamento e as lágrimas. As lembranças acudiam-lhe à memória com a nitidez de um filme a preto e branco. E como doíam essas memórias recheadas de enormes olhos azuis!
Os da mulher, lindos olhos, mas nos quais ele não conseguira adivinhar a ganância e a frieza. Só deu por isso quando, alguns anos depois, sentiu na pele a traição, com o empreiteiro da vila que a passeava descaradamente no seu Mercedes à pato bravo, parando na Confeitaria Central onde se empanturravam com bolos e refrigerantes.
Mas a memória mais dolorosa era dos olhos do filho enquanto criança, os mesmos olhos da criança que ele tinha visto no parque. Como tinham sido bons aqueles anos, em que o menino crescia forte e bonito, prometendo vir a ser alguém no futuro. Mas foi uma felicidade de curta duração. O menino pequeno deu lugar a um adolescente birrento e manipulador, que compactuava com os esquemas pérfidos da mãe. O que ele queria era dinheiro para os seus caprichos de adolescente e que a mãe se apressava a satisfazer, à custa do amante que, orgulhoso, se gabava de que era mais do que um pai para o rapaz.
Quando estas coisas chegaram aos ouvidos do Anselmo, sim, porque ele foi o último a saber, o seu mundo desmoronou-se. Nunca lhe passou pela cabeça que o que entrava em sua casa, não fosse fruto do seu trabalho honesto e do governo doméstico da esposa, em quem tanto confiava. Mas um dia, o Leitão, segurança da empresa, contara-lhe tudo, porque já não aguentava mais vê-lo a fazer figura de urso.
Anselmo sentiu que o mundo se desmoronava. Fechou-se sobre si mesmo, mesmo continuando a fazer a mesma vida, a ter as mesmas rotinas. Apenas uma diferença, nascera-lhe um bicho dentro do peito, um bicho que só sabia odiar. E quando parecia que nada de pior poderia acontecer, chegou, traiçoeiramente, o desemprego. Foi a gota de água.
Anselmo ainda sente na boca o sabor da primeira ressaca de vinho tinto, engolido compulsivamente na tasca do Barnabé, ali para os lados da Serra. Bebera até se esquecer de que estava a beber. Bebera como se quisesse afogar a traição da mulher, o desrespeito do filho e a imensa pena que sentira de si próprio. Depois disso, foram muitas as bebedeiras, muitas as ressacas, até àquele dia fatídico que Anselmo se esforça por não recordar.
O carro do empreiteiro parara em frente da sua casa apitando freneticamente. A mulher e o filho, fitaram-no com os seus belos olhos azuis, gelados de emoção e obrigaram-no a entrar no carro. E ele a ouvi-los, este estúpido, pobretana de merda, ainda por cima bêbado, uma vergonha para pessoas da nossa condição, temos mesmo de o internar, até é uma obra de caridade, assim já não tropeçamos nele. Anselmo ainda hoje sente a mão vigorosa do empreiteiro a empurrá-lo para dentro do carro.
Claro, fugiu, mal teve oportunidade.
Até hoje, carrega a revolta de ter sido escorraçado pela mulher e pelo próprio filho, que nunca ouviram as suas mágoas, nunca quiseram saber o porquê da sua falta de esperança. Anselmo ainda hoje lamenta não ter tido coragem de ter dado um tiro na cabeça. Tudo seria mais fácil. Mas nem pistola tinha, naquela altura. Só lhe restava mesmo ir à deriva, esconder-se, desaparecer…. E pouco lhe importava o que viessem a pensar dele. Tanto se lhe fazia.
Anselmo cavou fundo nas suas memórias durante muito tempo, até que foi vencido pelo cansaço. Acordou, já o sol ia alto. O beco, àquela hora, estava deserto. Anselmo estranhou aquele silêncio, como se alguma coisa estivesse na eminência de acontecer.
Levantou-se com um ar decidido e em passadas largas dirigiu-se às casas de banho públicas da Rua Mouzinho da Silveira e pela primeira em muitos anos, tomou um longo e reparador banho. Retirou da sacola umas calças e uma camisa que lhe tinham dado na Associação e vestiu-as. Pela primeira vez em muitos anos, olhou-se ao espelho e viu os seus próprios olhos azuis, de um azul intenso. Atirou para o lixo os seus pertences de sem abrigo. Guardou apenas uma velha carteira, muito esfarrapada e gasta. Contou e recontou as moedas que tinha no bolso e, pela primeira vez em muitos anos, sorriu, satisfeito.
Subiu a Rua Mouzinho da Silveira, entrou na Estação de S. Bento e comprou um bilhete de comboio para Lisboa.
Fim
Autores:
Carmita - Célio Passos - Maria José AzevedoNOTA: Qualquer semelhança com pessoas ou factos reais, é mera coincidência
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