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segunda-feira, 8 de outubro de 2012

7 - Fim Provável




                                          por  Lordopio

José Lobo tinha estado a magicar temas para o lançamento de mais um trabalho no âmbito do blogue por ele criado «Na Companhia Dos Outros». Trata-se de uma iniciativa que reúne pessoas que gostam de escrever coisas sobre coisas. Estava cansado e o entardecer cheio de sol e calor convidava a uma saída da cidade do Porto. Esperou o verde dos semáforos e atravessou Antero de Quental em direção ao jardim.
Deu uma vista de olhos ampla e optou por um banco que tinha um pouco de sombra. Apesar de serem quase seis horas da tarde o sol ainda ardia. Sentou-se contente. Tinha conseguido resolver todos os assuntos pendentes e agora apenas tinha que aguardar as respostas dos membros escritores.

De braços esticados longitudinalmente na costa do banco, ocupando o seu centro e de perna cruzada, José Lobo sorria. Sentia um legítimo orgulho na incontestável imaginação que tinha e lhe reconheciam.

Situado a Este da praça, o banco permitia-lhe observar um edifício dos anos quarenta projetado por um arquiteto holandês que soube desenhar a fachada da forma típica portuense. A sua deambulação é vagamente interrompida por um som.
Desperta e percebe o toque de um telemóvel. Instintivamente deita a mão ao seu pousado no banco junto com as chaves. Claro que não é o seu toque. Dirige o olhar para a origem do som e descobre o aparelho no chão, por detrás do banco. Hesita por um instante mas como homem curioso que é, decide apanhá-lo e atender.

- Sim?
- “É para hoje. O sítio do encontro vou-te indicar dentro de meia hora para esse telemóvel.” - diz a voz sensual de uma mulher. Ia explicar que não era o proprietário do aparelho mas já não adiantou. A chamada tinha sido desligada.

Rui Barbosa vem calmamente a descer a rua Antero de Quental com a mochila às costas como sempre. Anda apreensivo com a saúde da mãe que se tem deteriorado bastante. Vive com ela desde que se divorciou, já lá vão uns anos. Por essa altura decidiu deixar de usar e fazer uma série de coisas; uma delas foi abandonar o automóvel. Passou a andar a pé o mais possível.
Chega à Praça da República. O dia está excelente com sol e calor. Tinha almoçado bem. A mãe odiava cozinhar e ele saboreava isso todos os dias, mas hoje o arroz de frango estava bem feito e bom. Pena que ela não saiba porquê. Olha para um banco virado a Este e escolhe-o para se sentar. Contempla um conhecido edifício dos anos quarenta projetado por um arquiteto holandês que soube desenhar a fachada da forma típica portuense.

Tem trabalho para fazer no gabinete de Arquitetura mas apetece-lhe fazer uma pausa. Frequentemente depois de almoço, faz pausas em diferentes sítios. Chama-lhes momentos de «contemplação» e acha-os «imprescindíveis» para um arquiteto. Hoje tem um encontro com um especialista estrangeiro em domótica mas não sabe onde nem quando.
Mete a mão ao bolso e tira o telemóvel. Saltita o polegar no ecrã táctil e leva-o ao ouvido.

- Estou, Andreia?
- “Sim?” – respondeu a voz sensual de uma mulher.

- Olá. Sou eu. – Andreia é a administrativa do gabinete. É uma excelente profissional e são cúmplices em quase tudo.
- “Olá. Então, o almoço hoje estava razoavelmente intragável?”

- Não! Hoje estava bom e comi imenso. Por isso estou aqui sentado na praça da república em momento de con…
- “… contemplação! Já sabia. Quando não chegas cedo estás em contemplação.”

- Como me conheces bem… daqui a pouco estou aí. Novidades?
- “Nop! Ainda não sei nada do encontro com os tipos da Zigbee. O chefe ainda não me ligou.” – O chefe é a alcunha do representante Português da marca alemã que promovera este encontro quando lhe apresentara o problema de domótica que tinha que resolver num projeto em mãos. Um tipo fiável mas impulsivo. “Já tenho comigo o material para levares: tenho uma amostra de cada cor que queres usar. Se ele entretanto ligar aviso-te. De resto está tudo calmo.”

- Já te disse que se tivesse dinheiro gostaria imenso de te triplicar o salário, pois.
- “Sim… ultimamente deu-te para me gozares dessa forma indecente; que é que eu hei-de fazer… “

- Estou a falar a sério. Até… – Mas já tinha desligado.
Mete o aparelho no bolso.

José Lobo olha o visor e sente a pele suada. Está tenso. Efabulações galopam a sua imaginação desenfreadamente. Ainda esboça o gesto de deixar cair o aparelho no sítio onde o encontrou mas recua. Uma mente daquelas não pode deixar escapar uma aventura tão excitante.
Mete-o no bolso das calças e dirige-se para casa. Faltam ainda uns minutos para a nova chamada. Tira-o e pousa-o em cima da mesa de apoio em frente do sofá onde se senta a fabricar cenários que encaixem no “caso”. O telefone volta a tocar e Lobo atende:

- Sim?
-     - O encontro é às 16.00 horas no hotel Napoleão, quarto 124. O chefe diz para não te esqueceres do material”.
      - Mas… - mais uma vez a chamada é desligada quando ia tentar explicar que não era o proprietário do telemóvel.   

                                                                                                               FIM

 
Nota: Qualquer semelhança com pessoas ou factos reais é mera coincidência.

 

 

 

1 comentário:

  1. Um conto bem arquitetado. A trama entre os dois telemóveis está bem urdida.Entre a espera e o desespera,o pensamento vagueia num momento de volúpia.
    Gostei.
    Célio Passos

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