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quinta-feira, 29 de novembro de 2012

13 - Não era uma Escadaria qualquer (outros contos)


                                                                                                                Por  Helena João
         Aquela escadaria de traquinices, ladeada por um corrimão de travessuras, não era uma escadaria qualquer. Poderia, erradamente, pensar-se que uma escadaria tem como fito universal, servir de ligação entre pisos. Ser somente o meio de alcançarmos um piso superior, quando estamos cá em baixo, ou descermos ao piso de baixo, se estivermos lá em cima. Isso até pode ser verdade para a maioria das escadarias, mas no que àquela diz respeito, não.
         Aquela escadaria que habitava a casa antiga da avó, servia para muito mais. Nela fui polícia, subindo os degraus quatro-a-quatro atrás do larápio que roubou as jóias da coroa britânica. E também fui ladrão, escorregando pelo corrimão abaixo, a fugir do polícia. Naquela escadaria fui pescador. Um nagalho comprido com um clip desdobrado na ponta eram as ferramentas ideais para, do alto da escadaria, alcançar o chaveiro e, uma a uma, pescar todas as chaves sem ninguém dar por nada. E era vital que, em especial, a avó, não desse por nada. Havia ali chaves importantes, achava eu. Chaves que abriam portas secretas e baús de tesouros. A avó julgava tratarem-se apenas das chaves de casa de todos os elementos da família. As cópias suplente, as chaves de segurança, caso alguém um dia ficasse fechado cá fora. Mas o que sabe uma avó?
         Naquela escadaria montei uma armadilha para ursos. Coisa elaborada a minha
armadilha. Uma corda presa, lá em cima no corrimão do corredor, que caía até ao chão do piso inferior. Aí fechava-se em nó de laçada, disfarçado por folhas secas e pauzinhos. É claro que agora, à distância dos anos, percebo que folhas e pauzinhos não fossem a camuflagem ideal para uma corda pousada num chão de madeira envernizada. E que se calhar foi por isso que a avó nunca tropeçou na corda. Dava sempre um saltinho por cima dela. E eu ficava ali horas esquecidas - ou minutos -, a segurar a corda na outra ponta, à espera que o urso lá pousasse a pata, para eu puxar a corda e deixar o animal pendurado de cabeça para baixo. Coisa que também nunca aconteceu. Ao que parece não há relatos de ursos à solta na Cidade do Porto, nem há trinta anos, nem agora. Por isso tu, meu filho, sobe as escadas quatro-a-quatro, escorrega pelo corrimão, pesca chaves de tesouros com nagalhos e clipes, mas não montes armadilhas para ursos. Inventa outra traquinice qualquer, mas não montes a armadilha. É que a avó é velhinha e pode tropeçar e cair.

 

domingo, 25 de novembro de 2012

12 - A Minha Pistola de Fulminantes (outros contos)


 

  
                                                                                      Por Lordopio
Quando era criança tive uma pistola de fulminantes.
Outros miúdos tinham outras coisas, outros objetos, outras preferências: triciclos, soldadinhos de chumbo, carrinhos, bonecos, folhas secas dentro de livros que eram estufas de folhas mortas – todos tinham qualquer coisa com que cresciam.
Eu tinha uma pistola de fulminantes e também tinha outras coisas como triciclos ou soldadinhos de chumbo ou carrinhos, mas era da pistola de fulminantes que eu gostava.
Quando tinha a pistola de fulminantes sentia-me poderoso, capaz de ditar sentenças, poupar vidas e determinar mortes. Mortes a brincar por fora, mas que por dentro matavam mesmo. Eu gostava da minha pistola de fulminantes: Pás! Pás! O tiro era estridente, vibrava-me o corpo e estremecia a mão. Pás! Pás! Apontava aos meus amigos – os visíveis e os invisíveis que o meu poder não diferenciava nem favorecia – e disparava à queima-pele: “Tu morreste! Matei-te! Estás morto!”
O sangue não escorria: só o meu orgulho. Era tão novo e tinha tanto poder!
De vez em quando a minha mãe castigava-me e tirava-me a pistola ou então não tinha dinheiro para fulminantes e ficava aflito e sentia-me frágil. Não sentia poder e os outros meninos podiam matar-me. Quantos não me atingiram mortalmente o ego e o orgulho com tiros certeiros e poderosos de armas de plástico, algumas com água e outras sem nada, só com o poder de matar outras crianças, sem escorrer sangue.
Nunca percebi que aquela pistola que matava crianças que não sangravam era o reflexo cultural de homens que usavam armas que matavam outros homens que sangravam muito.
Havia muita dor nos olhares e nas caras, mas eu nunca percebi que a minha pistola era a versão infantil daquelas e choro muito quando penso nisso e quando vejo homens mortos por armas a sério de que a minha era uma versão infantil e que nunca percebi que era mesmo para matar não crianças, que não sangravam, mas homens que morriam mesmo. E eu nunca percebi. E porque me deram aquele brinquedo? Porque não me explicaram que era uma versão infantil de uma que matava com sangue?
E, horror dos horrores! também matava crianças que eu pensava que não sangravam mas que eu vi sangrar! E sem pernas e braços e sem triciclos, soldadinhos de chumbo ou carrinhos. Era como eu e os meus amigos que eu matava com o poder que tinha que estremecia a mão e que nunca sangraram mas eu vi, eles sangraram, imóveis, deitados no chão. E eu dizia baixinho, assustado “Podes levantar-te! Já te matei mas acabou, agora levanta-te!” e eles permaneciam, imóveis, olhar fixo, baço, e sangravam tanto... e eu assustado, lágrimas a chegar, deixava cair a minha pistola de fulminantes e pensava “Mas eles não morriam!” habituado que estava a que nos levantássemos todos para o lanche ou para o jantar.
E não é um FIM, pelo menos no Iraque, na Síria, em Angola, no Brasil

terça-feira, 13 de novembro de 2012

11 - O Relógio de Caixa Alta (outros contos)




 

                                                                                                                                      por Célio Passos

Era a noite das Noites. No fogão de sala da moradia dos Albuquerques, crepitava a lenha, oferecendo um bem estar aos presentes. Lá fora, flocos de neve caía como há muitos anos não se via. A família Albuquerque estava toda reunida no conforto da moradia, pertença da avó Delfina, viúva do que fora o patriarca da família, o avô José.
O avô José tinha sido um afamado industrial de curtumes, actividade na altura muito rendosa, com a qual amealhou uma considerável fortuna.
O ambiente era de uma relativa felicidade. As crianças, já uma prole razoável, era as menos afetadas dos acontecimentos que ocorreram. Os adultos, e em especial a avó Delfina, jamais esqueceriam a morte do avô José, vítima de um ataque cardíaco fulminante, fazia naquele dia precisamente um ano.

Apesar de tentarem disfarçar, o desgosto que ia naquelas almas presentes, sem dúvida que a avó Delfina era aquela que menos conseguia disfarçar a ausência do seu velho e querido marido.

Todos se encontravam na sala azul, um belo aposento, com as paredes forradas a damasco azulado que batizou a sala, entre os belos adornos, sobressaia um belo relógio de caixa alta.

O relógio estava parado nas oito horas noturnas, precisamente no momento em que o avô José faleceu. A avó Delfina ainda chamou um relojoeiro para o pôr a funcionar, mas apesar de ser um bom especialista, não conseguiu deslindar o motivo por que o mesmo não funcionava. A avó Delfina decidiu, então, que o relógio ficasse parado exatamente na hora do infausto acontecimento. Seria uma homenagem ao seu marido, o relógio fazia questão de fazer a ligação ao passado.

A mesa de Natal estava lindíssima, digno de um repasto dos deuses, as criadas de sala Maria e Teresa, aprimoraram-se no embelezamento da mesa com o melhor que havia. Os cheiros que vinham da cozinha, da cozinheira Cacilda, faziam crescer água na boca dos grandes e dos pequenos.

À mesa estavam sentados, os filhos, as filhas e os conjugues, e a respetiva descendência. Apesar de tudo, a avô Delfina sentia-se feliz, por ter a sua família unida e reunida àquela mesa naquele especial dia.

Por ser muita religiosa, pediu a todos que se unissem numa oração que ela própria fazia questão de dizer.

O gato Beethoven, nome dado pelo Patriarca por gostar muito desse compositor, veio sentar-se junto do relógio, como à espera do dono, como sempre fazia.

Quando se preparava para começar a oração, o relógio de caixa alta, começou a tocar os primeiros acordes da Avé Maria de Gounot a que seguiram oito badaladas. Todos ficaram atónitos, até os não crentes. Sentiram a presença do avô José. A avó Delfina com os olhos marejados de lágrimas disse a oração, agora com um fervor religioso que emocionou os presentes. O relógio continuou a trabalhar no seu ritmo de anos passados. Passada a emoção do momento, todos começaram o repasto, naquele inesquecível jantar em que a família Albuquerque tiveram a presença espiritual, todos assim acreditaram, do avô José.

                                                                                                                                 Fim