Por Helena João
Aquela
escadaria de traquinices, ladeada por um corrimão de travessuras, não era uma
escadaria qualquer. Poderia, erradamente, pensar-se que uma escadaria tem como
fito universal, servir de ligação entre pisos. Ser somente o meio de
alcançarmos um piso superior, quando estamos cá em baixo, ou descermos ao piso
de baixo, se estivermos lá em cima. Isso até pode ser verdade para a maioria
das escadarias, mas no que àquela diz respeito, não.
Aquela
escadaria que habitava a casa antiga da avó, servia para muito mais. Nela fui
polícia, subindo os degraus quatro-a-quatro atrás do larápio que roubou as
jóias da coroa britânica. E também fui ladrão, escorregando pelo corrimão
abaixo, a fugir do polícia. Naquela escadaria fui pescador. Um nagalho comprido
com um clip desdobrado na ponta eram as ferramentas ideais para, do alto da
escadaria, alcançar o chaveiro e, uma a uma, pescar todas as chaves sem ninguém
dar por nada. E era vital que, em especial, a avó, não desse por nada. Havia
ali chaves importantes, achava eu. Chaves que abriam portas secretas e baús de
tesouros. A avó julgava tratarem-se apenas das chaves de casa de todos os
elementos da família. As cópias suplente, as chaves de segurança, caso alguém
um dia ficasse fechado cá fora. Mas o que sabe uma avó?
Naquela
escadaria montei uma armadilha para ursos. Coisa elaborada a minha
armadilha. Uma corda presa, lá em
cima no corrimão do corredor, que caía até ao chão do piso inferior. Aí
fechava-se em nó de laçada, disfarçado por folhas secas e pauzinhos. É claro
que agora, à distância dos anos, percebo que folhas e pauzinhos não fossem a
camuflagem ideal para uma corda pousada num chão de madeira envernizada. E que
se calhar foi por isso que a avó nunca tropeçou na corda. Dava sempre um
saltinho por cima dela. E eu ficava ali horas esquecidas - ou minutos -, a
segurar a corda na outra ponta, à espera que o urso lá pousasse a pata, para eu
puxar a corda e deixar o animal pendurado de cabeça para baixo. Coisa que
também nunca aconteceu. Ao que parece não há relatos de ursos à solta na Cidade
do Porto, nem há trinta anos, nem agora. Por isso tu, meu filho, sobe as
escadas quatro-a-quatro, escorrega
pelo corrimão, pesca chaves de tesouros com nagalhos e clipes, mas não montes
armadilhas para ursos. Inventa outra traquinice qualquer, mas não montes a
armadilha. É que a avó é velhinha e pode tropeçar e cair.


