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domingo, 25 de novembro de 2012

12 - A Minha Pistola de Fulminantes (outros contos)


 

  
                                                                                      Por Lordopio
Quando era criança tive uma pistola de fulminantes.
Outros miúdos tinham outras coisas, outros objetos, outras preferências: triciclos, soldadinhos de chumbo, carrinhos, bonecos, folhas secas dentro de livros que eram estufas de folhas mortas – todos tinham qualquer coisa com que cresciam.
Eu tinha uma pistola de fulminantes e também tinha outras coisas como triciclos ou soldadinhos de chumbo ou carrinhos, mas era da pistola de fulminantes que eu gostava.
Quando tinha a pistola de fulminantes sentia-me poderoso, capaz de ditar sentenças, poupar vidas e determinar mortes. Mortes a brincar por fora, mas que por dentro matavam mesmo. Eu gostava da minha pistola de fulminantes: Pás! Pás! O tiro era estridente, vibrava-me o corpo e estremecia a mão. Pás! Pás! Apontava aos meus amigos – os visíveis e os invisíveis que o meu poder não diferenciava nem favorecia – e disparava à queima-pele: “Tu morreste! Matei-te! Estás morto!”
O sangue não escorria: só o meu orgulho. Era tão novo e tinha tanto poder!
De vez em quando a minha mãe castigava-me e tirava-me a pistola ou então não tinha dinheiro para fulminantes e ficava aflito e sentia-me frágil. Não sentia poder e os outros meninos podiam matar-me. Quantos não me atingiram mortalmente o ego e o orgulho com tiros certeiros e poderosos de armas de plástico, algumas com água e outras sem nada, só com o poder de matar outras crianças, sem escorrer sangue.
Nunca percebi que aquela pistola que matava crianças que não sangravam era o reflexo cultural de homens que usavam armas que matavam outros homens que sangravam muito.
Havia muita dor nos olhares e nas caras, mas eu nunca percebi que a minha pistola era a versão infantil daquelas e choro muito quando penso nisso e quando vejo homens mortos por armas a sério de que a minha era uma versão infantil e que nunca percebi que era mesmo para matar não crianças, que não sangravam, mas homens que morriam mesmo. E eu nunca percebi. E porque me deram aquele brinquedo? Porque não me explicaram que era uma versão infantil de uma que matava com sangue?
E, horror dos horrores! também matava crianças que eu pensava que não sangravam mas que eu vi sangrar! E sem pernas e braços e sem triciclos, soldadinhos de chumbo ou carrinhos. Era como eu e os meus amigos que eu matava com o poder que tinha que estremecia a mão e que nunca sangraram mas eu vi, eles sangraram, imóveis, deitados no chão. E eu dizia baixinho, assustado “Podes levantar-te! Já te matei mas acabou, agora levanta-te!” e eles permaneciam, imóveis, olhar fixo, baço, e sangravam tanto... e eu assustado, lágrimas a chegar, deixava cair a minha pistola de fulminantes e pensava “Mas eles não morriam!” habituado que estava a que nos levantássemos todos para o lanche ou para o jantar.
E não é um FIM, pelo menos no Iraque, na Síria, em Angola, no Brasil

2 comentários:

  1. Uma pistola de fulminantes que fulmina e não mata.
    Outra que fulmina e mata.
    Num caso o sangue não jorra,na outra escorre.
    Porque se fazem pistolas que fulminam?
    Célio Passos

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