Por Lordopio
Quando era criança
tive uma pistola de fulminantes.
Outros miúdos
tinham outras coisas, outros objetos, outras preferências: triciclos, soldadinhos de chumbo, carrinhos, bonecos, folhas secas
dentro de livros que eram estufas de folhas mortas – todos tinham qualquer
coisa com que cresciam.
Eu tinha uma
pistola de fulminantes e também tinha outras coisas como triciclos ou
soldadinhos de chumbo ou carrinhos, mas era da pistola de fulminantes que eu
gostava.
Quando tinha a
pistola de fulminantes sentia-me poderoso, capaz de ditar sentenças, poupar
vidas e determinar mortes. Mortes a brincar por fora, mas que por dentro matavam mesmo. Eu gostava da minha pistola de
fulminantes: Pás! Pás! O tiro era estridente, vibrava-me o corpo e estremecia a
mão. Pás! Pás! Apontava aos meus amigos – os visíveis e os invisíveis que o meu
poder não diferenciava nem favorecia – e disparava à queima-pele: “Tu morreste!
Matei-te! Estás morto!”
O sangue não
escorria: só o meu orgulho. Era tão novo e tinha tanto poder!
De
vez em quando a minha mãe castigava-me e tirava-me a pistola ou então não tinha dinheiro para fulminantes e
ficava aflito e sentia-me frágil. Não sentia poder e os outros meninos podiam
matar-me. Quantos não me atingiram mortalmente o ego e o
orgulho com tiros certeiros e poderosos de armas de plástico, algumas com água
e outras sem nada, só com o poder de matar outras crianças, sem escorrer
sangue.
Nunca percebi que
aquela pistola que matava crianças que não sangravam era o reflexo cultural de
homens que usavam armas que matavam outros homens que sangravam muito.
Havia muita dor
nos olhares e nas caras, mas eu nunca
percebi que a minha pistola era a versão infantil daquelas e choro muito quando
penso nisso e quando vejo homens mortos por armas a sério de que a minha era
uma versão infantil e que nunca percebi que era mesmo para matar não crianças,
que não sangravam, mas homens que morriam mesmo. E eu nunca percebi. E porque
me deram aquele brinquedo? Porque não me explicaram que era uma versão infantil
de uma que matava com sangue?
E, horror dos
horrores! também matava crianças que eu pensava que não sangravam mas que eu vi
sangrar! E sem pernas e braços e sem triciclos, soldadinhos de chumbo ou
carrinhos. Era como eu e os meus amigos que eu matava com
o poder que tinha que estremecia a mão e que nunca sangraram mas eu vi, eles
sangraram, imóveis, deitados no chão. E eu dizia baixinho, assustado “Podes
levantar-te! Já te matei mas acabou, agora levanta-te!” e eles permaneciam, imóveis, olhar fixo, baço, e sangravam tanto... e
eu assustado, lágrimas a chegar, deixava cair a minha pistola de fulminantes e
pensava “Mas eles não morriam!” habituado que estava a que nos levantássemos
todos para o lanche ou para o jantar.
E não é um FIM, pelo menos no Iraque, na
Síria, em Angola, no Brasil

Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderEliminarUma pistola de fulminantes que fulmina e não mata.
ResponderEliminarOutra que fulmina e mata.
Num caso o sangue não jorra,na outra escorre.
Porque se fazem pistolas que fulminam?
Célio Passos