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terça-feira, 13 de novembro de 2012

11 - O Relógio de Caixa Alta (outros contos)




 

                                                                                                                                      por Célio Passos

Era a noite das Noites. No fogão de sala da moradia dos Albuquerques, crepitava a lenha, oferecendo um bem estar aos presentes. Lá fora, flocos de neve caía como há muitos anos não se via. A família Albuquerque estava toda reunida no conforto da moradia, pertença da avó Delfina, viúva do que fora o patriarca da família, o avô José.
O avô José tinha sido um afamado industrial de curtumes, actividade na altura muito rendosa, com a qual amealhou uma considerável fortuna.
O ambiente era de uma relativa felicidade. As crianças, já uma prole razoável, era as menos afetadas dos acontecimentos que ocorreram. Os adultos, e em especial a avó Delfina, jamais esqueceriam a morte do avô José, vítima de um ataque cardíaco fulminante, fazia naquele dia precisamente um ano.

Apesar de tentarem disfarçar, o desgosto que ia naquelas almas presentes, sem dúvida que a avó Delfina era aquela que menos conseguia disfarçar a ausência do seu velho e querido marido.

Todos se encontravam na sala azul, um belo aposento, com as paredes forradas a damasco azulado que batizou a sala, entre os belos adornos, sobressaia um belo relógio de caixa alta.

O relógio estava parado nas oito horas noturnas, precisamente no momento em que o avô José faleceu. A avó Delfina ainda chamou um relojoeiro para o pôr a funcionar, mas apesar de ser um bom especialista, não conseguiu deslindar o motivo por que o mesmo não funcionava. A avó Delfina decidiu, então, que o relógio ficasse parado exatamente na hora do infausto acontecimento. Seria uma homenagem ao seu marido, o relógio fazia questão de fazer a ligação ao passado.

A mesa de Natal estava lindíssima, digno de um repasto dos deuses, as criadas de sala Maria e Teresa, aprimoraram-se no embelezamento da mesa com o melhor que havia. Os cheiros que vinham da cozinha, da cozinheira Cacilda, faziam crescer água na boca dos grandes e dos pequenos.

À mesa estavam sentados, os filhos, as filhas e os conjugues, e a respetiva descendência. Apesar de tudo, a avô Delfina sentia-se feliz, por ter a sua família unida e reunida àquela mesa naquele especial dia.

Por ser muita religiosa, pediu a todos que se unissem numa oração que ela própria fazia questão de dizer.

O gato Beethoven, nome dado pelo Patriarca por gostar muito desse compositor, veio sentar-se junto do relógio, como à espera do dono, como sempre fazia.

Quando se preparava para começar a oração, o relógio de caixa alta, começou a tocar os primeiros acordes da Avé Maria de Gounot a que seguiram oito badaladas. Todos ficaram atónitos, até os não crentes. Sentiram a presença do avô José. A avó Delfina com os olhos marejados de lágrimas disse a oração, agora com um fervor religioso que emocionou os presentes. O relógio continuou a trabalhar no seu ritmo de anos passados. Passada a emoção do momento, todos começaram o repasto, naquele inesquecível jantar em que a família Albuquerque tiveram a presença espiritual, todos assim acreditaram, do avô José.

                                                                                                                                 Fim

 

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