por Célio Passos
Era
a noite das Noites. No fogão de sala da moradia dos Albuquerques, crepitava a
lenha, oferecendo um bem estar aos presentes. Lá fora, flocos de neve caía como
há muitos anos não se via. A família Albuquerque estava toda reunida no
conforto da moradia, pertença da avó Delfina, viúva do que fora o patriarca da
família, o avô José.
O
avô José tinha sido um afamado industrial de curtumes, actividade na altura
muito rendosa, com a qual amealhou uma considerável fortuna.
O ambiente era de uma relativa felicidade.
As crianças, já uma prole razoável, era as menos afetadas dos acontecimentos
que ocorreram. Os adultos, e em especial a avó Delfina, jamais esqueceriam a
morte do avô José, vítima de um ataque cardíaco fulminante, fazia naquele dia
precisamente um ano.
Apesar de tentarem disfarçar, o desgosto que ia naquelas almas
presentes, sem dúvida que a avó Delfina era aquela que menos conseguia
disfarçar a ausência do seu velho e querido marido.
Todos se encontravam na sala azul, um belo aposento, com as paredes
forradas a damasco azulado que batizou a sala, entre os belos adornos, sobressaia
um belo relógio de caixa alta.
O relógio estava parado nas oito horas noturnas, precisamente no
momento em que o avô José faleceu. A avó Delfina ainda chamou um relojoeiro
para o pôr a funcionar, mas apesar de ser um bom especialista, não conseguiu
deslindar o motivo por que o mesmo não funcionava. A avó Delfina decidiu,
então, que o relógio ficasse parado exatamente na hora do infausto
acontecimento. Seria uma homenagem ao seu marido, o relógio fazia questão de
fazer a ligação ao passado.
A mesa de Natal estava lindíssima, digno de um repasto dos deuses, as
criadas de sala Maria e Teresa, aprimoraram-se no embelezamento da mesa com o
melhor que havia. Os cheiros que vinham da cozinha, da cozinheira Cacilda,
faziam crescer água na boca dos grandes e dos pequenos.
À mesa estavam sentados, os filhos, as filhas e os conjugues, e a
respetiva descendência. Apesar de tudo, a avô Delfina sentia-se feliz, por ter
a sua família unida e reunida àquela mesa naquele especial dia.
Por ser muita religiosa, pediu a todos que se unissem numa oração que
ela própria fazia questão de dizer.
O gato Beethoven, nome dado pelo Patriarca por gostar muito desse
compositor, veio sentar-se junto do relógio, como à espera do dono, como sempre
fazia.
Quando se preparava para começar a oração, o relógio de caixa alta,
começou a tocar os primeiros acordes da Avé Maria de Gounot a que seguiram oito
badaladas. Todos ficaram atónitos, até os não crentes. Sentiram a presença do
avô José. A avó Delfina com os olhos marejados de lágrimas disse a oração,
agora com um fervor religioso que emocionou os presentes. O relógio continuou a
trabalhar no seu ritmo de anos passados. Passada a emoção do momento, todos
começaram o repasto, naquele inesquecível jantar em que a família Albuquerque
tiveram a presença espiritual, todos assim acreditaram, do avô José.
Fim

Sem comentários:
Enviar um comentário