Por Célio Passos
Pascoal Leite rondava os 50 anos.
Tinha uma formatura de gestão de empresas e já há duas décadas e meia tinha
formado a sua primeira empresa informática de hardware e software que teve um
sucesso meteórico. A firma continuava em elaboração com dez trabalhadores com
volume de negócios elevado.
Era administrador geral de uma empresa editorial “ Livros Amigos”, que estava em plena
expansão e com bastante sucesso. Para
além, destas duas firmas, era administrador em outras empresas. Era um workaholic, não delegava os
assuntos mais importantes, controlava com mão de ferro todas as empresas.
Ultimamente,Pascoal Leite sentia-se
depressivo, desconcentrado, andava com maus
pressentimentos. Pensou, mas rejeitou a ideia de ir ao psiquiatra,
resolveria o problema qual fosse a sua
natureza. Seria mais proveitoso ir ao otorrino, para ver se livrava daquela
tosse seca, que aparecia de repente e às
horas mais inconvenientes.
No seu gabinete Pascoal Leite voltou a absorver-se no
trabalho. Era muito desconfiado e o sucesso que teve na sua variada atividade, torno-o num individuo
muito introvertido, sem grande vida social, a não ser a que os compromissos de
trabalho obrigavam. Tornou-se um homem só, macambúzio. A riqueza que acumulou
durante estes anos , transformou-o num ser invejado e odiado pelos seus
concorrentes. Tornou-se escravo do vil metal e só pensava em aumentar os
proventos das empresas, e indiretamente, o seu património. Passou a ser
obsessiva esta situação.
Era casado desde os 25 anos com uma
colega de curso, uma mulher de dotes de beleza invejáveis, que ocupava o
tempo em reuniões sociais e a ser
fotografada para revistas cor-de-rosa,ou, em ações humanitárias cuja função era
dar o nome e dinheiro que arrancava ao marido. Como não tinha descendência,
como a relação matrimonial há muito tinha acabado e, como encarava a hipótese,
de um momento para outro, ela vir a pedir o divórcio, aterrorizava-lhe a ideia
de repartir os bens com a esposa. Por isso, contratou um detetive para seguir a
mulher, porque dizia que estava a ser traído.
O detetive passado quinze dias,
fez-lhe um relatório circunstanciado, revelando que nada de anormal se passava,
que não existia ninguém na vida dela e que despendia o tempo em atividades que ele tinha conhecimento. Ficou
desapontado. Tinha que haver uma
solução.
Pascoal Leite a conselho do seu
redator da empresa “Livros Amigos”, sabendo que ele tinha um diário muito
completo sobre a sua vida, tanto pessoal como profissional, propôs-lhe editar a
sua biografia; de um empresário de grande sucesso com a vida recheada de
grandes acontecimentos, porque, dizia o redator, seria um êxito de vendas. Pascoal Leite recusou liminarmente. Não deu
explicações para a sua recusa.
O diário era o seu livro amigo,o seu confidente. Tinha um
relacionamento empático com o diário, quando nele redigia as suas frases, quase
diariamente, era como contasse ao seu pai, já falecido, por quem tinha enorme
admiração, os seus problemas, as suas dúvidas,as suas idiossincrasias.
O seu diário, que já ia num terceiro
volume, estranhamente, não tinha nada escrito de um mês a esta parte, e o
último texto era deveras preocupante.
Os diários estavam guardados numa
gaveta fechada a sete chaves, e era alvo da curiosidade da esposa, que fez
várias tentativas, algumas diretas outras indiretas, para que ele a deixasse
ler. Pascoal sempre recusou, alegando
ser do íntimo pessoal.
Um dia, descuidou-se, ou talvez
não, esqueceu-se por breves horas as
chaves em cima da cómoda, e a esposa teve oportunidade de fazer uma cópia em
plasticina que depois transformaria numa chave verdadeira. Quando teve
oportunidade a esposa fez a cópia da chave.
Sabendo que naquela noite ele não
dormia em casa, disse que ia a um congresso e que ficava no hotel, Ivone
deslocou-se ao escritório e abriu a gavetas dos diários. Retirou o último e
abriu-o.
“ Dia 17 - Estou a passar uma fase difícil da minha
vida. Nem tudo está a correr conforme previsto. O meu casamento está moribundo.
Não tenho prazer de estar com a minha esposa. É estranho, mas tenho a sensação que
ela me odeia...ou talvez seja impressão minha. Esteja eu presente ou ausente,
para ela é o mesmo. Só pensa no meu dinheiro. Não me surpreenderia nada que ela
venha a pedir o divórcio. Era catastrófico. Ter que dividir os meus bens com
alguém que nada fez para conseguir algo que fosse. O detetive que contratei não
descobriu nada de anormal, tive esperanças, era um processo de me livrar dela
sem grandes custos. Mas mesmo assim ela receberia uma quantia considerável, já
que de propriedade dela não tem nada, e o tribunal penalizar-me-ia. Tem que
haver uma solução!.”
Ivone fechou o diário meteu-o na
gaveta e fechou-a. Estava perplexa e ao mesmo aterrorizada. O que se ia passar?
o diário não explicava qual as intenções do marido.
Para se descontrair foi tomar um
banho de imersão com sais. Ligou o termo-ventilador, como de costume, colocado
numa mesa junto à banheira, mergulhou na tépida água e acionou o jacuzzi.
A porta do quarto de banho, abriu-se
ligeiramente, sem que Ivone desse conta, e um cabo de um guarda-chuva empurrou
o termo-ventilador, ligado, na direção da banheira. A queda foi inevitável.
Seguiu-se um grito estridente. A eletricidade da casa, periclitou, e por
fim foi abaixo.
No rés de chão, ouviu-se uma tosse
seca, meia disfarçada.
Devagar, uma mão enluvada, fechou a
porta da rua.
FIM

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