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sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

14 - Por amor que não convém - Nasce muito mal e pouco bem


                                                                                                                                  Por Célio Passos

Pascoal Leite rondava os 50 anos. Tinha uma formatura de gestão de empresas e já há duas décadas e meia tinha formado a sua primeira empresa informática de hardware e software que teve um sucesso meteórico. A firma continuava em elaboração com dez trabalhadores com volume de negócios elevado.
Era administrador geral de uma  empresa editorial  “ Livros Amigos”, que estava em plena expansão e com bastante sucesso.  Para além, destas duas firmas, era administrador em outras  empresas. Era um workaholic, não delegava os assuntos mais importantes, controlava com mão de ferro todas as empresas.
Ultimamente,Pascoal Leite sentia-se depressivo, desconcentrado, andava com maus  pressentimentos. Pensou, mas rejeitou a ideia de ir ao psiquiatra, resolveria o problema qual fosse  a sua natureza. Seria mais proveitoso ir ao otorrino, para ver se livrava daquela tosse seca, que aparecia de repente e  às horas mais inconvenientes.
No seu gabinete Pascoal Leite voltou a absorver-se no trabalho. Era muito desconfiado e o sucesso que teve na sua variada atividade, torno-o num individuo muito introvertido, sem grande vida social, a não ser a que os compromissos de trabalho obrigavam. Tornou-se um homem só, macambúzio. A riqueza que acumulou durante estes anos , transformou-o num ser invejado e odiado pelos seus concorrentes. Tornou-se escravo do vil metal e só pensava em aumentar os proventos das empresas, e indiretamente, o seu património. Passou a ser obsessiva esta situação.
Era casado desde os 25 anos com uma colega de curso, uma mulher de dotes de beleza invejáveis, que ocupava o tempo  em reuniões sociais e a ser fotografada para revistas cor-de-rosa,ou, em ações humanitárias cuja função era dar o nome e dinheiro que arrancava ao marido. Como não tinha descendência, como a relação matrimonial há muito tinha acabado e, como encarava a hipótese, de um momento para outro, ela vir a pedir o divórcio, aterrorizava-lhe a ideia de repartir os bens com a esposa. Por isso, contratou um detetive para seguir a mulher, porque dizia que estava a ser traído.
O detetive passado quinze dias, fez-lhe um relatório circunstanciado, revelando que nada de anormal se passava, que não existia ninguém na vida dela e que despendia o tempo em atividades  que ele tinha conhecimento. Ficou desapontado.  Tinha que haver uma solução.
Pascoal Leite a conselho do seu redator da empresa “Livros Amigos”, sabendo que ele tinha um diário muito completo sobre a sua vida, tanto pessoal como profissional, propôs-lhe editar a sua biografia; de um empresário de grande sucesso com a vida recheada de grandes acontecimentos, porque, dizia o redator, seria um êxito de vendas.  Pascoal Leite recusou liminarmente. Não deu explicações para a sua recusa.
O diário era o seu  livro amigo,o seu confidente. Tinha um relacionamento empático com o diário, quando nele redigia as suas frases, quase diariamente, era como contasse ao seu pai, já falecido, por quem tinha enorme admiração, os seus problemas, as suas dúvidas,as suas idiossincrasias.
O seu diário, que já ia num terceiro volume, estranhamente, não tinha nada escrito de um mês a esta parte, e o último texto era deveras preocupante.
Os diários estavam guardados numa gaveta fechada a sete chaves, e era alvo da curiosidade da esposa, que fez várias tentativas, algumas diretas outras indiretas, para que ele a deixasse ler.  Pascoal sempre recusou, alegando ser do íntimo pessoal.
Um dia, descuidou-se, ou talvez não,  esqueceu-se por breves horas as chaves em cima da cómoda, e a esposa teve oportunidade de fazer uma cópia em plasticina que depois transformaria numa chave verdadeira. Quando teve oportunidade a esposa fez a cópia da chave.
Sabendo que naquela noite ele não dormia em casa, disse que ia a um congresso e que ficava no hotel, Ivone deslocou-se ao escritório e abriu a gavetas dos diários. Retirou o último e abriu-o.
Dia 17 -  Estou a passar uma fase difícil da minha vida. Nem tudo está a correr conforme previsto. O meu casamento está moribundo. Não tenho prazer de estar com a minha esposa. É estranho, mas tenho a sensação que ela me odeia...ou talvez seja impressão minha. Esteja eu presente ou ausente, para ela é o mesmo. Só pensa no meu dinheiro. Não me surpreenderia nada que ela venha a pedir o divórcio. Era catastrófico. Ter que dividir os meus bens com alguém que nada fez para conseguir algo que fosse. O detetive que contratei não descobriu nada de anormal, tive esperanças, era um processo de me livrar dela sem grandes custos. Mas mesmo assim ela receberia uma quantia considerável, já que de propriedade dela não tem nada, e o tribunal penalizar-me-ia. Tem que haver uma solução!.” 
Ivone fechou o diário meteu-o na gaveta e fechou-a. Estava perplexa e ao mesmo aterrorizada. O que se ia passar? o diário não explicava qual as intenções do marido.
Para se descontrair foi tomar um banho de imersão com sais. Ligou o termo-ventilador, como de costume, colocado numa mesa junto à banheira, mergulhou na tépida água e acionou o jacuzzi.
A porta do quarto de banho, abriu-se ligeiramente, sem que Ivone desse conta, e um cabo de um guarda-chuva empurrou o termo-ventilador, ligado, na direção da banheira. A queda foi inevitável. Seguiu-se um grito estridente. A eletricidade da casa, periclitou, e por fim  foi abaixo.
No rés de chão, ouviu-se uma tosse seca, meia disfarçada.

Devagar, uma mão enluvada, fechou a porta da rua.

                                                                                                                                                   FIM

 

 

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