Parte I
Preciso de cortar o cabelo, pensou, enquanto o
descapotável vermelho deslizava na A1, em direção ao Sul. Compridos e
castanhos, com alguns reflexos acobreados - segundo descrição da tia, pessoa
versada em variações cromáticas - os cabelos, teimosamente, apoderavam-se do
seu rosto. Preciso mesmo de cortar o cabelo. Perdia-se nestas considerações
para evitar lembrar-se do que a esperaria no destino desta viagem.
Matilde Santiago tinha 45 anos, era de compleição
alta e esbelta, olhos verdes, “de leoa” – mais uma terminologia da titi – e
cabelos compridos. Demasiado compridos para a sua própria vontade.
Desculpava-se com o excesso de trabalho para
evitar as idas ao salão de cabeleireiro. Odiava que lhe mexessem no cabelo.
Odiava mais ainda que o fizessem enquanto discutiam se Lucineide, prima da
Constança e ex-mulher de Alfredo, deveria, ou não, contar ao Luizinho que é sua
mãe, ou qualquer outro enredo semelhante, passado no episódio anterior da
novela da noite.
Terminara o curso de Biologia no MIT antes de
completar os 23 anos, ficara na instituição a trabalhar e encontrava-se a fazer
um pós-Doc. A sua vida era de sonho para muitos dos que a observavam, quer
diariamente, quer à distância, na terra de onde saíra ainda adolescente.
Mas então porque sentia aquele friozinho
desconfortável no estômago sempre que voltava? Porque se dirigia para o último
lugar na Terra onde queria estar? E ainda assim, era exatamente isso que fazia.
Conduzia o seu descapotável vermelho pela A1, em
direção ao Hotel Sheraton em Lisboa, local escolhido para a realização do
primeiro jantar de convívio da Turma de 1984 do Colégio Britânico.
Em 1984, ano da sua formatura de liceu, Matilde
Santiago era diametralmente o oposto do que é hoje. Algo rechonchuda,
envergando roupas ainda assim demasiado largas para a sua compleição, de óculos
e aparelho nos dentes, passava facilmente despercebida. E nos raros momentos em
que era notada, geralmente ao receber novamente a nota mais alta da turma, não
parecia livrar-se de ser alvo de chacota. Era, sem dúvida, o que os miúdos de
hoje designam por geek ou nerd.
Agora, vinte e oito anos e uma vida de sucessos
depois, o incómodo que sentia ao pensar nos ex-colegas era o mesmo. Não pensava
sequer o que teriam feito da vida a filha do ministro da Economia ou o filho do
Embaixador. Olhava-se pelo retrovisor do descapotável vermelho e a imagem
devolvida era a da mesma garota sem graça, com dezassete anos, roupas largas e
aparelho nos dentes.
Matilde estacionou o descapotável no parque do
hotel Sheraton. Um empregado veio abrir-lhe a porta e ela entregou-lhe uma mala
de viagem. Um outro empregado levou-lhe o automóvel para o parque. Entrou no
átrio do hotel, fez o check-in e dirigiu-se ao quarto. Só regressaria no dia
seguinte a Cascais, onde temporariamente estava a viver com os pais, antes de
regressar a Boston. Ainda não tinha chegado à conclusão porque tinha decidido
vir a este jantar. Francamente não havia nenhuma razão plausível para estar
presente, talvez só a curiosidade de saber o que acontecera àquela “malta”. A
maioria detestava pelo seu egocentrismo, outros pela sua arrogância de meninos
ricos, mas havia alguns que lhe traziam boas recordações.
Já estava na hora marcada para o jantar. Matilde
queria chegar atrasada propositadamente, por isso ligou o televisor e sentou-se
a ver o telejornal.
Os colegas já estavam na sala de jantar, no último
andar do hotel com vista panorâmica sobre Lisboa. Tirou o casaco que entregou a
uma empregada. Os colegas já estariam todos? Passados tantos anos iria ser
difícil a identificação, ou talvez não, há características pessoais que
perduram ao longo da vida.
Numa mesa na entrada da sala encontrava-se uma
listagem de todos os colegas do Colégio Britânico do ano de 1984. Percorreu com
o dedo a lista, e os nomes saltaram com as recordações. Rui Mascarenhas, Telles
de Sousa, Ricardo Mourato, Ângelo Vianna, Teresa Sá Melo, Francisca Menezes, a
Kika, o Ventura Ferro, mais conhecido pelo Ferrugem...etc. etc.
- Bons olhos te vejam! - disse um dos colegas.
Matilde estremeceu. Se havia colega que não
gostaria de encontrar era mesmo aquele que estava naquele momento à sua frente.
Estava em falta para com ele, não se esquecera o que lhe fizera há vinte e
cinco anos atrás. Nem um olá disse, estava petrificada. Os olhos do colega,
negros brilhantes, que faziam lembrar algo de árabe, não despegavam dos seus.
- Não te recordas de mim? – disse numa voz suave.
Recordava-se muito bem, só que o passado estava a
retirar-lhe as palavras da boca.
- Claro que me recordo de ti, Carlos - disse
Matilde.
Carlos Braga Reis estava na mesma, claro, vinte e
cinco anos mais velho, mas sempre elegante, magro, sempre bem trajado. Umas cãs
já despontavam no cabelo que ia rareando. Na sua mente passaram imagens de há
vinte e cinco anos atrás. O Carlos era o que se chamava uma lapa, não a largava, e Matilde não
entendia. Era uma rapariga sem encantos, no meio de tantas raparigas lindas e
simpáticas. O que é que via nela o Carlos? Convidava-a para sair, iam ao
cinema, lanchavam muitas vezes juntos, levou-a a casa por diversas vezes o que
o fazia perder tempo e dinheiro, pois morava com os pais em Cascais. Cada dia a
aproximação entre os dois era maior, Matilde receava os avanços de Carlos. Até
que um certo dia combinaram encontrarem-se em Belém. Matilde viria de Cascais e
Carlos de Lisboa. Só que isso não aconteceu. Matilde já tinha a mala pronta
para embarcar para Nova Iorque para a casa de uns tios e depois iria para
Boston para ingressar no MIT para tirar o curso de Biologia.
Sentaram-se na mesma mesa de colegas dos quais se
recordava da cara mas não do nome. Todos fizeram grandes elogios a Matilde e
como estava diferente. Trocaram algumas amabilidades, recordaram algumas
passagens pelo colégio Britânico e tiraram fotografias com os telemóveis. Todos
quiseram saber o que ela fazia. Em breves palavras disse onde estava e o que
fazia e a conversa com os restantes convivas ficou por ali. Carlos absorvia
tudo o que ela dizia. Enquanto serviam algumas iguarias gourmet Carlos foi falando de si. Era engenheiro numa empresa,
estava divorciado há dois anos e tinha dois filhos que viviam com a mãe. Ele
vivia, simplesmente, sozinho.
Matilde falou sobre a sua vida americana. Pensava
ficar por Nova Iorque porque tinha convites de trabalho e tinha os tios com
quem pensava ir viver, nada a prendia a Portugal
Depois de Rui Mascarenhas discursar um improviso
decorado, ele que estava talhado para deputado mais dia, menos dia, apesar das
suas últimas derrotas, o jantar terminou com as promessas de novo encontro.
Carlos e Matilde vieram até ao átrio do hotel onde
se sentaram nuns cadeirões a conversar. No meio da conversa perguntou a Matilde
se na verdade não pensava regressar. Esta pergunta intrigou-a. Disse que não
sabia pois, como na canção do Sinatra, a América estava under my skin, mas nunca se sabe o dia de amanhã. Aprendeu a dizer
nunca digas nunca. Carlos aproveitou a deixa, abriu a carteira tirou um cartão
de visitas e escreveu o número do telemóvel e entregou-lhe com um beijo na
face:
-Gostava de estar contigo outra vez. Vê se
arranjas um tempinho para mim.
Matilde acompanhou Carlos até à porta do hotel. A
lua cheia estava mais cheia do que habitual, havia umas nuvens esparsas e de
repente uma estrela cadente atravessou os céus de Lisboa. Coisa rara. Matilde
formulou um desej
Parte III
Matilde Santiago recolheu-se no seu quarto. Sentia
uma enorme responsabilidade pela apresentação que ia fazer no dia seguinte na
Gulbenkian. Tinha altas expectativas para aquela conferência onde ia apresentar
um dos seus recentes trabalhos. O descanso era muito importante para estar em
forma e por isso declinou o convite da malta para ir beber uns copos num dos
bares das docas.
Deitou-se a pensar que aquele jantar tinha sido
uma grande seca. No dia seguinte, acordou cedo para poder dar um passeio nos
jardins da Gulbenkian onde poderia relaxar um pouco antes da sua palestra.
A sua intervenção foi um sucesso e o seu ego ficou
nos píncaros da lua com tantos aplausos dos seus colegas cientistas que tinham
vindo de toda a parte do mundo. Divertiu-se imenso naquele cocktail após a
conferência.
Aquele era o seu mundo, o seu ambiente, a sua
gente. Ouviu as anedotas mais picantes e algumas histórias bem divertidas. O
saldo era bem positivo e tinha feito novas amizades dentro da comunidade
científica.
O próximo destino daquele fim de semana era a casa
dos pais em Cascais. Matilde Santiago meteu-se no seu descapotável e entrou na
Linha de Cascais a ouvir música clássica como nos velhos tempos. Aquela viagem
era sempre muito agradável, mas, aquela em particular, tinha um não sei que de
especial. Escolheu um CD de Gustav Mahler que combinava tão bem com aquele por
de sol e o cheiro intenso do mar que lhe percorria as narinas e lhe inundava o
cérebro. Já perto de casa dos pais sentiu um arrepio de frio e uma sensação
muito estranha que não conseguiu entender.
Entrou na garagem do condomínio fechado e mal
abriu a porta do carro para sair já estava a ser agarrada por um corpulento
homem que lhe encostou um lenço ao nariz e a fez desmaiar.
Quando acordou, Matilde Santiago estava num enorme
iate, no Mar da Palha, a caminho do alto mar. Ao seu lado estava um homem
moreno que amavelmente lhe explicou em língua inglesa que nada de mal lhe ia
acontecer. Disse-lhe ainda que no mar alto mudaria do iate para um barco com
heliporto. Um helicóptero ia transportá-la até ao deserto de An Nafud na Arábia
Saudita.
Matilde Santiago, num ataque de pânico, berrou com
quantas forças tinha mas rapidamente percebeu que no alto mar não havia ninguém
que a ouviss
Parte IV
Sentia-se
enjoada, ainda que não conseguisse perceber se pelo estado de ansiedade por não
perceber o que se passava, se pelo balançar da embarcação.
Olhava
em volta à procura de alguma pista ou algum indício que a ajudasse a situar-se.
Talvez encontrasse algo que lhe fosse familiar, mas cada vez se sentia mais
confusa. Tinha a visão turva e a única coisa que conseguia distinguir era
aquele homem moreno, de ar misterioso, que a olhava de forma penetrante e a
inquietava. Parecia sentir um certo gozo ao vê-la tão perdida e ansiosa.
Apesar
de tudo lhe parecer muito real, custava-lhe acreditar que se encontrava naquela
situação. Ainda acreditava que pudesse tratar-se de alguma brincadeira de mau
gosto e esperava que a qualquer momento aparecesse alguém e a libertasse
daquele estado de desespero.
Tentou
levantar-se mas foi aconselhada a deixar-se ficar. Pensou nas alternativas. Posso sempre tirar os saltos e atacar este
cão de guarda, pensou. Não, não me
sinto com forças. Que porcaria me terão enfiado pela goela? E saltar borda fora? Não Matilde! Esquece!
Nem pensar. Pensa Matilde, pensa!
Detestava
quando as coisas fugiam ao seu controlo e vasculhava as ideias à procura de uma
saída. Não tinha outra solução que não fosse usar o velho truque de sempre:
-Preciso
de usar a casa de banho! – disse no seu inglês perfeito. O homem olhou-a,
primeiro com desdém, mas depois apreensivo, ao ver que Matilde o fitava com determinação.
Anda lá, ó parvalhão! Mexe-te! Pensava
Matilde, tentando parecer muito segura de forma a desconcertar o vigia. Vendo
que não se decidia, tomou a iniciativa e levantou-se num ápice, sentindo-se
confiante. Ainda antes que o vigilante tivesse tempo de reagir, desatou a
correr pelo iate, quase de impulso, sem ter a ideia para onde ia ou o que
procurava. Não tardou muito para que o ouvisse gritar-lhe que parasse e ouvia o
som estrondoso dos seus passos atrás de si. O coração batia descontroladamente
mas a adrenalina agilizava-lhe os movimentos. Desceu e subiu escadas na procura
de qualquer recanto onde se pudesse esconder. Por todas as portas por onde
passava repetia a tentativa de as abrir, nunca imaginando como aquele gesto lhe
poderia ser fatal, mas revelou-se uma rotina inútil, pois todas estavam
trancadas.
Não viu
ninguém e o iate parecia-lhe abandonado, à exceção dela e do brutamontes que a
perseguia, agora desajeitado por ver-se obrigado a movimentar-se rápido pelos
corredores mais estreitos.
Matilde
sentiu-se num beco sem saída e reconhecia a inutilidade de tentar fugir quando
estava, obviamente, num beco sem saída. Mesmo assim não pretendia desistir de
imediato, e por isso corria e corria, sem hesitar.
Quando
parou para pensar, apercebeu-se que estava numa zona do iate mais escura,
sombria e algo assustadora. Olhou à retaguarda e nem sinal do seu perseguidor.
Susteve a respiração para se assegurar que não se iludia ao pensar que já não
era seguida, e seguiu-se o silêncio. Estava protegida naquele recanto medonho,
mas não seria por muito tempo. Parou quieta por algum tempo, para recuperar o
fôlego e deixar que os seus olhos se habituassem aquele ambiente mais escuro.
Olhou em volta e reparou numa pequena frincha, que indiciava uma passagem para
outra sala. Sem dar tempo a si mesma para se arrepender, rodou a maçaneta
daquela porta mais pequena, com a tinta já algo gasta e descascada, e encontrou
o que lhe pareceu um quarto de dormir improvisado. Entrou em bicos de pés, com
receio de ser descoberta e fechou a porta atrás de si.
À sua
frente tinha uma cama estreita, com a largura suficiente para um corpo apenas e
deitada nela estava Matilde. Com choque, Matilde constatou que deitada naquela
cama se encontrava uma mulher exatamente igual a si.
Parte V
Matilde aproximou-se daquela mulher deitada, com
as mãos atadas à cama. Olharam-se, surpreenderam-se. É como se se estivessem a
ver a um espelho e os espelhos não enganam. Matilde Santiago tentou identificar
a mulher. Falou em inglês e a mulher respondeu-lhe em francês, mas disse que
falava também português. Matilde fechou a porta por dentro e desatou as mãos à
sósia. Ela levantou-se e sentaram-se as duas na borda da cama.
- Chamo-me Matilde Santiago, sou portuguesa e
estou a tirar um pós doutoramento em Biologia no MIT.
- Eu chamo-me Matilde Santiago, tenho
nacionalidade francesa e trabalho num Instituto de Energia Atómica. É curioso
termos o mesmo nome, mas talvez haja uma explicação. Eu sabia que existia uma
irmã gémea, nunca me deixaram descobrir quem seria. Os nossos pais não são os
biológicos, fomos separadas e adotadas, tu por uma família portuguesa e eu por
uma família francesa. Eu soube disto recentemente por uma nossa empregada que
jurou nunca contar a verdade, mas como os pais a despediram, como vingança ela
contou-me.
- Mas o que esta gente pretende de nós?
- Querem-nos pelas
nossas qualificações.
- Como assim?
-Estamos nas mãos de uma rede terrorista que opera
no Médio Oriente, em especial em Israel. Como tu tens conhecimento de biologia
e eu de energia atómica, pretendem a nossa colaboração para desenvolver armas
biológicas.
A porta foi arrombada e entraram no quarto dois
árabes armados com armas automáticas. Afastaram-se e deixaram entrar uma
personagem, vestida também de árabe. Trajava uma djellabia branca, por cima de
umas cirwal e na cabeça um lenço keffiyeh. Os olhos estavam ocultos por uns
óculos escuros.
- Nunca pensei encontrar-mo-nos tão cedo!– disse
numa voz baixa que Matilde, a portuguesa, reconheceu.
O árabe tirou os óculos e Matilde reconheceu o
colega de curso Carlos Braga Reis.
- Nunca pensei que trabalhasses para terroristas!
- disse Matilde
- Por vezes a vida prega-nos umas partidas!-
Carlos piscou um olho a Matilde.
- Que pretendem de nós? - perguntou Matilde.
- A seu tempo veremos!– disse Carlos com um ar que
denotava um certo nervosismo. Vamos transportá-las para a Arábia Saudita para o deserto An Nafud para
uma tenda com todas as condições de alojamento. Depois o chefe decidirá.
Um helicóptero sobrevoava o iate, após uma manobra
de grande perícia, o piloto aterrou no iate.
No heli vinha para além do piloto um outro árabe,
de tez escura e muito mal encarado - era
um cão de fila, da confiança do chefe máximo.
Carlos obrigou as duas Matildes a entrarem no
helicóptero. De seguida entrou o piloto, depois o Carlos e do lado de fora o
cão de fila, que fechou a porta.
Carlos deu sinal para que o piloto levantasse voo.
Deu-lhe as coordenadas. O piloto disse que as coordenadas estavam erradas, An Nafud não era naquela direção.
- Eu sei... mas vamos para onde eu te disser.
O cão de fila olhou com suspeição para Carlos e
depois olhou para fora do helicóptero, despreocupado, foi suficiente para que
Carlos abrisse de rompante a porta e lançasse no espaço o cão de fila, que nem
resistiu, perante o inesperado.
O piloto teve de efetuar uma manobra para
equilibrar o heli. Ficou estupefacto com a atitude de Carlos. As duas Matides
deram um grito de horror.
- Juízinho
senhor piloto, e vamos com calma para as coordenadas que te indiquei- disse
Carlos apontando uma arma ao piloto
Parte VI
As duas Matildes estavam agarradas uma à outra,
pareciam siamesas em vez de gémeas.
- Não conheço a vossa história, a razão por que
foram separadas, nem quem são os vossos pais naturais, somente fui encarregado
de as raptar e transportá-las a An Nafud na Arábia Saudita, depois o resto era
com a chefia superior do grupo. Eu sou um agente secreto infiltrado nesta rede
árabe – enquanto falava Carlos despiu as vestes árabes que deitou pela janela
fora e vestiu um fato de treino.
Para as Matides a conversa de Carlos não as
acalmou. Não sabiam o destino e o que Carlos pretendia delas.
- Soube o que eles pretendiam de vocês, que queriam
tirar partido dos vossos conhecimentos e da experiência adquirida. Se não
soubesse que nunca mais sairiam de An Nafud, eu tê-las-ia entregue e
continuaria infiltrado na organização. Mas o caso mudou de figura depois de
raptar a Matilde Eve em Aix-en-Provence, e depois em Cascais a Matilde Sara.
Fez-me confusão o facto de serem gémeas e pelo carinho que tenho pela Matilde
Sara, decidi arriscar e não levei o projeto para a frente. Agora somos todos
alvos de uma rede terrorista. Há que tomar providências – Carlos calou-se.
As Matildes agarradas uma à outra não percebiam o
que Carlos pretendia. Não se atreveram a falar.
O helicóptero dirigia-se para as coordenadas dadas
por Carlos. Um silêncio e tensão pairavam dentro do heli.
O piloto informou Carlos que se estavam a
aproximar das coordenadas. Não se via nada a não ser mar. Carlos ligou o rádio
do heli e entrou em contacto com uma pessoa, algures no oceano.
- Aqui
Carlos , chama Alonso. Escuto.
- Vamos descer- disse Carlos
- Valle. Scuto.
No oceano um ponto minúsculo foi aumentado
conforme heli descia, em voltas concêntricas.
O heli pairou sobre a lancha rápida levantando uma
nuvem de água.
- Não há que pensar! – disse Carlos - É um pequeno
salto para a água. Vamos Matildes, sem pensar, com os pés juntos, são só cinco
metros. Abriu a porta e Matilde foi quase empurrada porta fora a seguir foi a
vez da outra Matilde. Carlos deu ordem ao piloto para regressar ao ponto de
partida e Carlos lançou-se para a água.
O heli levantou rapidamente e o mar tornou-se
calmo. Os três nadaram um pouco para chegar à lancha.
Esta partiu com toda a velocidade em direção à
costa portuguesa. Alonso era um perito e trabalhava no estreito de Gibraltar no
tráfico de droga.
A velocidade era tal que em pouco tempo, e
perseguidos por uma corveta portuguesa de vigilância costeira, chegaram à praia
de Tavira onde os três desembarcaram e Alonso rumou mar dentro em direção a
terrenos conhecidos.
- Estamos salvos. Vamo-nos separar aqui. Matilde
Sara e Matilde Eve, não podem regressar aos vossos anteriores destinos. Mudem
de penteado, cor de cabelo, não vistam roupas que costumavam utilizar. Se
possível façam uma operação plástica para mudar um pouco a cara. Esta gente vai
andar atrás de vocês, algum tempo, por isso vão para um sítio discreto, por
exemplo a costa alentejana, e não entrem em contacto com os vossos pais. Quando
estiverem instaladas liguem para este número. Levem para já este dinheiro para
as primeiras necessidades. Depois alguém vai entrar em contacto convosco.
Eu vou desaparecer por uns tempos, regresso ao meu
quartel-general que por razões óbvias não vos digo qual é. Vão ter muito que
conversar e descobrir o vosso intrigante passado. Matilde não contes comigo
para o próximo jantar de convívio da Turma de 1984 do Colégio Britânico.
Deu-lhes um beijo e desapareceu nas dunas da ilha
de Tavira.
FIM
Nota: Qualquer semelhança com factos ou pessoas da
vida real é pura coincidência.
Autores (por ordem alfabética) – Carmita, Célio
Passos , Helena João, “M”.





Andam a ver muitos filmes de acção!
ResponderEliminarExpliquem-me uma coisa: o conto tem seis partes e apenas quatro autores?
Isto é que e um verdadeiro mistério!
Os desenhos estão o máximo!
AHAHAHAHAH! que grande reviravolta! E a coitada da Matilde que ainda hesitou em ir ao jantar! Parabéns ao ilustrador! O conto ficou sem dúvida, mais rico e sumarento! Quem anda a trabalhar dobrado para estas partes extras? :p
ResponderEliminarEfectivamente o conto tem seis partes e só quatro autores. Este é um dos mistérios do conto. os outros autores ficaram no anonimato por que tiveram receio de represálias por parte das forças do mal.
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