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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

10 - A Rutura (outros contos)



                                                                                          Por Godiva

- Trata-o bem Antónia, não sei quando, mas um dia voltarei.
- É o teu karma! – Dissera a única amiga de quem se despediu depois de lhe confiar Van Gogh, o rafeiro que recolhera ferido na rua.
Karma ou não, mais uma vez terminava uma relação e batia a porta. Não conseguia continuar a viver com alguém que, mesmo dizendo amá-la, sofria. Melhor seria, mesmo sangrando, afastar-se e dar espaço a que o outro tentasse ser feliz.
Já não estava ali a fazer nada! Encheu duas malas com aquilo que no momento lhe parecia importante, e saiu. Felizmente a herança da mãe dava-lhe um desafogo tal que, naquele momento, poderia ir para onde quisesse, viver onde quisesse, cometer todas as loucuras que lhe apetecessem. Não viveria tempo suficiente para gastar toda aquela fortuna …
Maldita herança! - pensava ao olhar-se no espelho do elevador. Será que o dinheiro realmente a teria tornado déspota como Paulo lhe gritara durante aquela que seria a ultima discussão?
Em que pessoa amarga se tornara a ponto da pessoa que mais amava no mundo traduzir por despotismo os seus gestos de amor? Será que ele conhecia a palavra  generosidade?
A chuva da manhã lava-lhe as lágrimas. Entra no táxi. No aeroporto decidirá que rumo tomar. O taxista, olhando pelo retrovisor, pergunta-lhe se ela se sente bem e ela desculpa-se que no Outono tem muitas alergias.
O táxi contorna o jardim. Há idosos que jogam jogos de sorte e azar e outros que os observam em pé fazendo apostas. Faz sinal ao taxista que encoste e espere. Tem uma coisa para fazer antes de seguirem.
Aperta o impermeável, levanta a gola e fixa o olhar na desolação do jardim pintado de tons marron, saudosa do verde do Verão. Senta-se no banco húmido onde se encontrara com Paulo pela primeira vez, naquele dia em que sentira que a vida nunca mais seria a mesma e que com ele todas as coisas seriam possíveis.
Onde irá agora arrumar essas ilusões? E arrumando-as, como irá ocupar o vazio imenso por elas deixado? Pela primeira vez sente medo. Um medo enorme de não sobreviver a essa paixão … e deixa-se escorregar pelos corredores da sua mágoa, quando o som de um telemóvel a trás à realidade. Não é o seu. Esse ficara no saco no banco do táxi. Vê o aparelho caído e não resiste à tentação de atende-lo:
- É para hoje. O sítio do encontro vou-to indicar dentro de meia hora para esse  telemóvel – diz uma voz sensual de mulher.
A primeira reação é deixar ali o telemóvel que não é seu, mas apenas sorri. Essa voz de mulher parece vir do Além. Mete o telemóvel no bolso, dirige-se ao táxi e diz:
- Mudei de planos. Desça até á Ribeira e siga pela marginal até Matosinhos. Só dentro de meia hora saberei o meu destino.
Durante o percurso vai recordando uma a uma as noites de cumplicidade que aquelas águas testemunharam no Verão passado, quando de mãos dadas ela e Paulo (re)descobriam a cidade em longas caminhadas noturnas.
Tece assim uma malha de memórias com que vestirá o seu luto.
Entretanto o telefone toca de novo e a mesma voz sensual diz:
- O encontro é às 16h00 no Hotel do Buçaco, quarto 126. O chefe diz para não te esqueceres do material.
Teresa inebriada pelo mistério sorri, pensando que nada acontece por acaso. Tem um telemóvel para entregar. Tira da mala o estojo de maquillage e, enquanto tinge de vermelho os seus lábios sequiosos de ternura, diz:
- Vamos para o Buçaco!

GODIVA – 18/10/2012

2 comentários:

  1. O que um telemóvel pode ocasionar? De um amor destroçado, o mistério renvova a esperança de uma nova vida. Será no Buçaco?
    Que tudo corra bem, e que não se esqueça de ir buscar o VanGogh.
    Gostei muito.
    Célio Passos

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  2. Parece que o destino é mesmo ficar por perto e continuar a passear o Van Gogh! Eu cá nunca mais me sento num banco de jardim sem espreitar se por perto me observa algum telemóvel! ahahahah!

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